A conversa abre com o fracasso da seleção brasileira na Copa do Mundo, tratado como ponto de partida para uma discussão sobre o Brasil. Nassif lembra a financeirização que tomou conta do futebol — preços de ingressos que afastaram o povo dos estádios — e Lênio anuncia coluna em que usa o conceito de niilismo, de Nietzsche, para ler o episódio: uma “crônica de um fracasso anunciado”. O futebol, que era espaço de catarse popular, virou espaço comercial dominado pela burocracia, que “tirou o laço” e o improviso do jogo.
Apatia, vigilância e o medo de ousar
Os dois estendem o diagnóstico ao país: apatia que ninguém consegue explicar desde os anos da Lava Jato, movimentos de massa irracionais, e uma sociedade sob vigilância permanente das redes sociais, em que o medo do cancelamento inibe qualquer ousadia. A metáfora central da conversa aparece aqui: como o time que não dribla mais e devolve a bola ao goleiro, o governo prefere recuar — não mexe na segurança pública, não enfrenta a questão dos juros — com medo de ser criticado por “perder a bola”.
A escassez de craques — no campo e na política
Assim como a seleção não tem mais um grande craque, a política não produz mais grandes figuras. Lênio contrasta os oradores de outros tempos — Ulisses Guimarães, Freitas Nobre — com o padrão atual de “delegado fulano” e “gilson da federal”. O centroavante desconhecido que estreia na Copa é comparado ao ministro burocrata de qualquer governo: está ali para não fazer nada e aparecer na fotografia.
Potencial desperdiçado e a política da entrega concreta
O paradoxo apontado: o Brasil reúne um dos conjuntos mais fortes de possibilidades de desenvolvimento — terras raras, energia, Amazônia — mas o governo, amarrado pelo jogo político, empurra tudo com a barriga. Nassif observa que Lula acredita na entrega do concreto (Bolsa Família, financiamento) e abre mão do “sonho”, do projeto de futuro construído a partir de ideias, capacidade de imaginação que o país perdeu desde a Constituinte.
Raízes do Brasil: patrimonialismo e capitalismo chapa-branca
Discussão sobre as raízes da crise: o patrimonialismo que mistura a casa e o jardim (o público e o privado), os penduricalhos do Judiciário, e um capitalismo dependente de subsídios — “chapa-branca” — paradoxalmente defendido pelos editoriais liberais. A soma de tudo, diz Lênio, é uma “tempestade perfeita”.
Lula e as concessões
Avaliação do papel de Lula: salvou o país da barbárie em vários momentos, mas fez tantas concessões que, “no final do dia, eles venceram”. A falta de institucionalidade e de governabilidade mata as iniciativas e a criatividade — seja do time, seja do país.
Antígona e Creonte: o público contra o privado
Lênio recorre à mitologia grega para explicar o Brasil: na tragédia de Sófocles, Creonte governa a partir da lei da cidade e Antígona defende o interesse pessoal e familiar. O Brasil teria feito a “opção Antígona”: cada um cuida primeiro do seu interesse individual — do caso Master aos penduricalhos, da política de subsídios a aplicativos em vez de política pública — e ninguém cuida do direito de todos, da pólis.
A incapacidade de pensar o coletivo
Nem os empresários escapam: ao contrário da lição de Ford (salários fortes criam o mercado que beneficia as empresas), o empresariado brasileiro pensa apenas no ganho individual. São raros os pactos fundadores na história — os “pais fundadores” americanos, o acordo das províncias argentinas. No Brasil, com exceção da Constituinte de 88, as mudanças sempre vieram de fatores externos (1930, os anos 50), e o projeto de consolidação de uma classe média foi destruído pelo golpe de 64. Do antigo pacto da Constituinte surgiu o Centrão, hoje quase sempre um elemento de impedimento de conquistas.
O presidencialismo refém do parlamento
Diz Lênio que a Constituição foi sendo alterada até produzir uma espécie de parlamentarismo de fato: o presidente da República, sem maioria, depende dos presidentes da Câmara e do Senado e dos acordos com o Centrão, que cobra seu quinhão. Como o goleiro que só recua, o presidente não tenta “driblar o meio-campo”. As emendas parlamentares — 42 bilhões citados para o ano — são o preço dessa dependência.
Caso Master, “Lava Jato 2” e os ataques ao Supremo
No episódio recente do Banco Master, um grupo da Polícia Federal teria tentado repetir a Lava Jato, mirando não uma pessoa, mas o próprio Supremo — para derrubar qualquer barreira ao seu poder. O STF, ainda que machucado, resistiu e impediu a continuidade desse jogo de violência. Lênio lembra que o Supremo foi protagonista mesmo sem querer: na pandemia, nas grandes questões orçamentárias e existenciais do Estado — e paga até hoje o custo desse protagonismo. O “efeito rebote” lavajatista, porém, é um bumerangue que sempre volta.
A irracionalidade da mídia
Crítica dura à grande mídia: numa divisão que já não é esquerda contra direita, mas democracia contra selvageria, a mídia só tem poder na democracia — e ainda assim embarca periodicamente na “síndrome da Lava Jato”, explorando casos de forma irracional e atrapalhando inclusive as críticas legítimas ao governo. A liberdade de expressão foi usada para sustentar a autodestruição da democracia (o acampamento diante dos quartéis), e instituições como o Ministério Público não processaram quem incitou o golpe.
Eleições, soberania e o vazio de renovação
Com a nova eleição se aproximando, recomeça o ciclo: especula-se se o perdedor aceitará o resultado, entrevistam-se militares. A soberania nacional é retórica — o Brasil não tem soberania digital nem de defesa. A esperança de renovação a partir dos estados (como o consórcio do Nordeste) também se esvaziou, e a dicotomia que importa já não é direita contra esquerda, mas civilização contra barbárie.
Encerramento: o exemplo mexicano
Nassif encerra citando o discurso da presidente do México sobre o que significa ser de esquerda — solidariedade contra individualismo — e sugere que o Brasil precisa de um chacoalhão semelhante. Lênio conclui: quem ganha eleição governa, quem quer mudar a Constituição o faz pelas vias institucionais — é assim na democracia. Sem um parlamento hostil ao presidente, ao Supremo e ao próprio povo, seria possível fazer as reformas sociais estruturais. Enquanto isso, o presidente segue “devolvendo a bola ao goleiro”.
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