
Slavoj Žižek e a ascensão do stalinismo no Brasil
por Fábio de Oliveira Ribeiro
Cinco notícias chamaram muito minha atenção esta semana. A primeira foi a perseguição policial do professor Carlos Zacarias, da UFBA, porque ele organizou um curso sobre o golpe de estado de 2016. A segunda foi a fala da ex-corregedora do CNJ afirmando que os juízes acham inconstitucional ser investigados. A terceira foi a estranha reunião entre a presidente do STF e o presidente da república após a quebra do sigilo bancário dele. A quarta foi o episódio protagonizado pelo Delegado que exigiu ser chamado de excelência por uma advogada. A quinta é o retorno da censura a propósito da coibição das fake news.
Slavoj Žižek diz num dos seus livros que “…a política ocorre apenas quando a possibilidade de reconfiguração torna-se manifesta.” (Mitologia, Loucura e Riso – A subjetividade no idealismo alemão, Markus Gabriel e Slavoj Žižek, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2012, p. 136).
Quais são as condições de possibilidade que permitem a reconfiguração política da sociedade numa democracia? A primeira e mais óbvia é a realização de eleições periódicas, mas isso não basta. É preciso que todas as forças políticas possam disputar os cargos eletivos, que o resultado das eleições não sejam fraudadas e, principalmente, que o resultado seja respeitado.
A liberdade de consciência, de expressão, de investigação científica e de imprensa são elementos estruturantes do regime democrático. O respeito à livre formação, investigação, transmissão e circulação das opiniões é que permite a pacífica dissolução de consensos políticos que se tornaram ultrapassados e sua substituição por novas configurações sócio-políticas. Mas tudo não seria possível se a censura fosse juridicamente permitida.
E isso nos remete para outra condição de possibilidade da política: o princípio da igualdade. Numa sociedade democrática todos devem estar sujeitos à Lei. A hierarquia entre os cidadãos em razão das funções que eles exercem ou da situação econômica que eles desfrutam não deve possibilitar que uns se tornem irresponsáveis pelos seus atos e que outros sejam forçados a acreditar numa única versão da realidade.
“A dimensão do político só é disponível tendo o logos como condição, como sabemos a partir de Aristóteles. O logos, i.e., a linguagem no sentido de um discurso suscetível de verdade, instaura uma esfera de contingência. Ele define um domínio de possibilidade, pois gera uma distinção entre o verdadeiro e falso: toda afirmação dotada de sentido é verdadeira ou falsa (ou tem qualquer outro valor-de-verdade, dependendo do sistema lógico preferido. O ponto crucial é que a política ocorre apenas quando a possibilidade de reconfiguração torna-se manifesta. E essa manifestação ocorre no discurso. O discurso gera uma variedade de universos de discurso, uma pluralidade de domínios de objetos, como bem sabia Aristóteles. Por esse motivo sua metafísica influencia sua filosofia política: o ser enquanto ser se manifesta apenas na possibilidade e na atualidade da discordância, que é a própria manifestação do logos.” (Mitologia, Loucura e Riso – A subjetividade no idealismo alemão, Markus Gabriel e Slavoj Žižek, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2012, p. 135/136)
O logos político e jurídico brasileiro é ou deveria ser a Constituição Federal de 1988. É ela que garante a igualdade perante a Lei, a pluralidade política, a liberdade de consciência, de expressão e de investigação científica e a realização de eleições e o respeito ao resultado das urnas. Também é ela que proíbe expressamente a censura. Mas esse logos tem sido deliberadamente fragilizado após o Congresso derrubar Dilma Rousseff através de uma fraude jurídica.
Desde o golpe de 2016 a política deixou de ser uma realidade no Brasil. Aqueles que chegaram ao poder não desejam uma reconfiguração da sociedade. Eles querem interditar o debate para garantir sua permanência no poder. Michel Temer não quer ser investigado, os juízes também não. O usurpador não deseja qualquer investigação científica ou debate sobre o que realmente ocorreu durante o Impedimento de Dilma Rousseff e usa a polícia para cercear a liberdade de cátedra. No regime imposto ao país compete aos policiais investigar o que pode ou não ser dito e o que deve ou não ser discutido na universidade. Fortalecidos de maneira inconstitucional, os policiais passaram a acreditar que devem ser chamados de excelência como se fossem os verdadeiros árbitros da realidade jurídica e política do país.
Na obra citada Žižek também disse que a paranóia é “… quem é obcecado por complôs é o líder moderno. É por isso que a fórmula perfeita do stalinismo, sistema da hermenêutica paranóica permanente, é ‘governar é interpretar’ ”. (Mitologia, Loucura e Riso – A subjetividade no idealismo alemão, Markus Gabriel e Slavoj Žižek, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2012, p. 19).
Rubens Casara, Pedro Estevam Serrano e outros estudiosos falam em Estado Pós-Democrático e em Estado de Exceção, mas me parece evidente que vivemos num regime de interpretação permanente. Tudo que consta na constituição é interpretado pelo usurpador, pelos seus deputados e senadores, pela imprensa e pelos juízes (não necessariamente nessa ordem) de maneira a permitir a continuação do novo regime e/ou a impedir a reconfiguração eleitoral da política.
Produto de um processo de Impedimento esquizofrênico (Dilma Rousseff foi deposta pelo Congresso Nacional por causa de algumas pedaladas fiscais para que logo depois o usurpador fosse formalmente autorizado pelos parlamentares a dar pedaladas fiscais maiores e mais frequentes), o regime imposto ao país pelo golpe “com o STF com tudo” se afirma cotidianamente como uma negação paranóica do logos constitucional. Isso pode ser visto nas cinco notícias que foram mencionadas no início. A Pós-Democracia e o Estado de Exceção, portanto, podem ser considerados como se fossem as dimensões políticas e institucionais de um delírio sistematizado. Obcecados pela idéia de hierarquizar a sociedade brasileira, os protagonistas do golpe de 2016 tudo fazem para afastar o povo da arena política de maneira a manter apenas os ladrões no controle do poder. Até quando iremos tolerar esse stalinismo político-jurídico?
rdmaestri
11 de março de 2018 5:32 pmO que o … tem a haver com as calças.
O título que coloquei no comentário é grosseiro, vulgar, politicamente incorreto e mais umas vinte qualificações desonrosas que pode ser dado a ele, porém ele só tem uma virtude, não estar desconectado e de ser oportunista como o título do artigo que faço a crítica.
Qual a semelhança do atual governo com o Stalinismo? Dentro dos inúmeros erros que foram feitos durante a era Stalinista e os poucos acertos, nem um fiel Trotskista de carteirinha, daqueles que já foi a Meca do Trotskismo e rezou uma oração ateia junto ao túmulo de Trotsky no México, jamais pensaria em sã consciência estabelecer relações casuais entre o governo Temer e o Stalinismo.
Vamos dar por exemplo os julgamentos de Moscou, que eram perseguições políticas, porém em nenhum momento para todos os observadores da época, tanto de direita como de esquerda ficou claro para estes que e expresso pelas próprias autoridades soviéticas que eram julgamentos POLÍTICOS. Não entro na discussão se estes julgamentos eram justos ou não, se houve ou não tortura, mas é límpido para todos, inclusive para a estrutura governamental que não eram tratados como um julgamento comum, mas sim político.
Então já eliminando todas as semelhanças entre as perseguições POLÍTICAS da época de Stalin, sobra o que: A economia? O fechamento da União Soviética e a determinação de criar a sua própria indústria, seria um ponto de semelhança entre a época Stalin e Temer? A independência do Exército Vermelho? Poderia seguir mostrando que o título é uma mera retórica.
Em resumo, parece que o autor comprou a pouco o livro, e para demonstrar erudição, a maldição que Schopenhauer tão bem descreve dos eruditos livrescos que tem uma enorme biblioteca mas não entendem o que tem nela, caiu sobre o nosso amigo. Coloca uma citação de Slavoj Žižek, que é moderno ler e citar, extrai levianamente a palavra Stalinismo e faz um texto sem pé nem cabeça para dizer aos amigos.
– Olhem como sou erudito, já cito Slavoj Žižek, e chuto Stalin, que nenhum idiota vai defender.
Esqueceu que não defender Stalin não é o mesmo isentar-se de criticar besteiras.
Fábio de Oliveira Ribeiro
11 de março de 2018 5:39 pmSe você não entendeu (ou não
Se você não entendeu (ou não quis entender) a abordagem dada a questão pot Zizec, paciência. Nada posso fazer por você.
rdmaestri
11 de março de 2018 6:56 pmQue eu não entendi, eu realmente não entendi, porém……
Que eu não entendi, eu realmente não entendi, porém a conexão com o Stalinismo, o golpe e os textos colocados, parece que nem o autor entendeu!
E mais uma vez, para desqualificar a crítica utiliza só a crítica da colocação de um texto introduzido só para fazer volume (além do problema do título, não respondido).
Parece que sou muito BURRO!
Fábio de Oliveira Ribeiro
11 de março de 2018 7:12 pmMeu texto demonstra que eu
Meu texto demonstra que eu entendi a abordagem feita por Zizec. Como disse, nada posso fazer por você. Mas isso não quer dizer que o ofendi. A mim parece que você fez pose de ofendido para tentar desqualificar meu comentário.
rdmaestri
11 de março de 2018 10:25 pmParei por aqui, estamos andando em círculos.
E não me sinto ofendido.
Luís Henrique Donadio Baptista
12 de março de 2018 2:31 pmMorcego não é passarinho, mas também voa…
Olha, eu acho que a analogia não é totalmente descabida. Há alguns elementos na nossa situação presente que lembram o estalinismo. A judicialização da política é um deles; outro é o anti-individualismo assustador, outro ainda a tentativa (paranóide, como pontua o Žižek) de constituir uma realidade paralela, em que o que é não é, e o que não é, é.
Eu mesmo já usei essa caracterização aqui no ggn: https://jornalggn.com.br/noticia/todos-os-grandes-partidos-foram-derrotados-por-assis-ribeiro
“Num mundo onde um jornalista manda o Sérgio Saraiva vender a propriedade individual dele, a título de contribuir para com “a economia”, o que ocorre não é de forma alguma o esfarelamento do coletivo, mas a entronização de um outro tipo de “coletivo”: o capital. Até por que o indivíduo “líquido” não tem como se sobrepor a qualquer tipo de “coletivo”: ele só pode existir em posição subordinada, e essa subordinação tem de se dar em relação a algum tipo de Moloch/Leviatã, o qual sós pode ser uma entidade “coletiva”.
E é por isso, também, que erram os que qualificam o governo Temer de “fascista”. Não é; se aproxima mais de uma outra coisa igualmente autoritária e perigosa: um estalinismo de direita.”
E aqui: https://jornalggn.com.br/noticia/lava-jato-polemica-e-absurda-por-antonio-alberto-machado
“Essa, talvez, a principal diferença para com as arbitrariedades da ditadura militar: embora as “leis” e decretos dos ditadores de plantão fossem inconstitucionais e contrárias aos princípios do direito, eram pelo menos escritos, públicos e publicados; a lei paralela do TRF-4 é além de tudo secreta, de modo que à defesa não é possível sequer utilizar do texto da lei clandestina para nela baser o contraditório.
Esse tipo de monstro é conhecido por devorar os próprios filhos. Suprimida a ordem legal, em proveito da desordem moralista, ninguém está a salvo – nem o usurpador, nem o procuritiba do power point, nem os Marinhos, nem o próprio juiz Moro. A guilhotina adquire uma vida própria, e tem sede de sangue. Por isto mesmo, volto a insistir: isso não é fascismo, é um estalinismo de direita. Com o juiz Moro no papel de Vishinsky.”
Evidente que a história da ditadura anarco-judicial brasileira é completamente diferente da história do estalinismo. Mas existe algo chamado “adaptação convergente”: morcego não é ave, mas também voa, e para voar precisa de asas.
(Ah. E ninguém defende Stalin. O que faz com que o epíteto “estalinismo de direita” não seja um chute em Stalin, e sim nos adeptos do coxinhismo.)
Sérgio Rodrigues
11 de março de 2018 6:36 pmNada a ver
O título é profundamente infeliz.
Não existe e nunca existiu stalinismo.
Essa denominação vem dos detratores de Stálin para atacar o leninismo, do qual, Stálin, era um fiel seguidor.