Uma onda de violência física, perseguição e intimidação contra as comunidades indígenas Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul mobilizou ministérios do governo federal e a Polícia Federal (PF). As denúncias englobam acusações de atropelamentos, mortes, incêndios criminosos e ameaças de envenenamento do abastecimento de água potável em retaliação ao resultado das eleições presidencias, que elegeram o presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT).
As denúncias ganharam visibilidade com relatos apresentados na TV GGN 20 Horas, noite desta quinta-feira (29) apresentada pelo jornalista Luís Nassif, no YouTube, onde lideranças locais detalharam o agravamento do cenário de intimidação.
Insegurança e ameaça à água
Entre os casos investigados, destaca-se a ameaça de contaminação da água consumida pela população da Aldeia Sassoró, localizada no município de Tacuru. A comunidade, que depende do fornecimento feito por caminhões-pipa, passou a enfrentar o temor do envenenamento após a circulação de áudios em aplicativos de mensagem. A prefeitura local afastou um servidor municipal suspeito de autoria das gravações e instaurou um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). O Ministério Público Federal (MPF) também fixou prazos para apuração do episódio e adoção de medidas cautelares.
Em depoimento na TV GGN, a liderança Jânio Kaiowá enfatizou que a escalada de agressões está associada ao alinhamento político de parcela das comunidades:
“Hoje o Mato Grosso do Sul é um estado onde mais ataca a população indígena […] depois da eleição […] as ondas de ataques começaram contra o povo indígena, muitos ataques foram principalmente pelos votos num partido esquerda…“, explicou.
Jânio reforçou o risco direto vivenciado pelos moradores que dependem da água distribuída na região.
“Tem atropelamento de lideranças, perseguições, morte […] e até ameaça de envenenamento de águas das comunidades indígenas… que são levadas para as comunidades e esses caminhões foram ameaçados de envenenamento de água pelo simples voto em um candidato…“, acrescentou.
Histórico e episódios recentes
Além da questão hídrica, foram registrados atos de destruição patrimonial e intolerância religiosa. Na aldeia Jaguapiré, também em Tacuru, a residência de uma anciã de 90 anos foi destruída por um incêndio criminoso, resultando na perda de objetos rituais do povo Guarani-Kaiowá. Sobre esses atos, Jânio relatou:
“Hoje, mais uma vez, na região Tacuru, a casa de uma anciã de 90 anos foi queimada, nós sofremos muito por isso, intolerância religiosa no Mato Grosso do Sul…“, lamentou.
A responsabilidade pelas agressões, segundo o relato da liderança indígena, aponta para setores ligados ao agronegócio e falhas na atuação de forças de segurança locais: “A maioria são fazendeiros […] e a maioria das vezes são os próprios policiais a mando do governo do estado“, denunciou.
O impacto contínuo dessas violações tem gerado reflexos diretos na saúde mental das comunidades: “Hoje o Mato Grosso do Sul por toda essa violência tem gerado muitas consequências, com um índice muito grande de suicídio indígena“, alertou.
Mobilização e força-tarefa
Frente à gravidade do quadro, o governo federal organizou uma ação integrada para acompanhar e apurar as acusações no estado. A socióloga e coordenadora dos povos indígenas do PT, Quenes Gonzaga Payayá, ressaltou no programa a dimensão populacional e o grau de vulnerabilidade na região.
“Nós vemos com muita preocupação esse acirramento da violência. O Mato Grosso do Sul é o terceiro estado brasileiro em representação de povos indígenas, um quantitativo de mais de 116.000 indígenas. E nós vamos cobrar fortemente providências sobre esses casos“, assegurou.
Quenes também informou sobre a criação de uma estrutura emergencial acionada pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI). A Polícia Federal e o MPF mantêm apurações abertas para determinar a autoria dos episódios de violência, verificar a veracidade das ameaças relatadas e restabelecer a segurança nos territórios indígenas na região.
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