Mais pessoas diagnosticadas com câncer nos Estados Unidos estão sobrevivendo à doença, inclusive em casos historicamente associados a altas taxas de mortalidade. A tendência positiva, segundo especialistas, reflete avanços na prevenção, na detecção precoce e no desenvolvimento de tratamentos mais eficazes.
Dados do relatório anual da Sociedade Americana de Câncer (ACS, na sigla em inglês), divulgado nesta terça-feira (13), indicam que, pela primeira vez, a taxa de sobrevida em cinco anos chegou a 70% considerando todos os tipos de câncer. Os maiores avanços foram observados entre pacientes com cânceres mais letais, como mieloma múltiplo, câncer de fígado e câncer de pulmão.
“Sete em cada dez pessoas agora sobrevivem ao câncer por cinco anos ou mais, uma proporção que era de cerca de 50% em meados da década de 1970”, afirmou Rebecca Siegel, diretora científica de pesquisas de vigilância da ACS e principal autora do relatório, em nota. Segundo ela, o resultado é fruto de décadas de investimento em pesquisa, que permitiram transformar muitos tipos de câncer de doenças fatais em condições crônicas controláveis.
Queda na mortalidade
O relatório aponta que a taxa de mortalidade por câncer vem caindo de forma consistente e que, entre 1991 e 2023, essa redução evitou aproximadamente 4,8 milhões de mortes. Para 2026, a projeção é de mais de 2 milhões de novos diagnósticos e cerca de 626 mil óbitos relacionados à doença nos Estados Unidos.
De modo geral, a incidência e a mortalidade por câncer permanecem mais elevadas entre homens. De acordo com William Dahut, diretor científico da ACS, a melhora nas taxas de sobrevivência está associada principalmente à redução do tabagismo, ao aprimoramento dos métodos de rastreamento e à introdução de terapias mais eficazes. Ele destaca que esses avanços dependem diretamente do financiamento contínuo da pesquisa científica.
No início de 2025, o governo do presidente Donald Trump promoveu cortes de milhões de dólares em subsídios para pesquisas em saúde, incluindo recursos destinados a estudos sobre o câncer. Para Dahut, o investimento científico é essencial para sustentar os ganhos observados, especialmente em casos de câncer metastático, quando a doença já se espalhou para outras partes do corpo.
Nesse grupo, a taxa de sobrevivência de pacientes com câncer retal metastático subiu de 8% em meados dos anos 1990 para 18%. No câncer de pulmão metastático, a proporção de sobreviventes passou de 2% para 10%.
“Os resultados são altamente encorajadores e demonstram avanços significativos no enfrentamento do câncer”, afirmou Sharon Giordano, chefe de oncologia de mama do Centro de Câncer MD Anderson, da Universidade do Texas, que não participou do estudo. Ela ressalta, no entanto, que ainda há lacunas importantes no entendimento e no tratamento de diferentes tipos da doença.
Desafios persistentes
Apesar da queda no tabagismo, o câncer de pulmão deve continuar sendo a principal causa de morte por câncer em 2026. Embora o consumo de cigarro siga como o principal fator de risco, cresce o número de diagnósticos entre pessoas que nunca fumaram, fenômeno que ainda está sendo investigado. Especialistas defendem mudanças nas diretrizes de rastreamento para ampliar o acesso aos exames.
O relatório também chama atenção para as desigualdades raciais. Indígenas americanos apresentam as maiores taxas de mortalidade por câncer e têm risco duas vezes maior do que pessoas brancas de morrer de cânceres de rim, fígado, estômago e colo do útero. Entre nativos do Alasca, as taxas de câncer colorretal em jovens estão entre as mais altas do mundo.
Além disso, a sobrevivência ao câncer é menor entre pessoas negras em comparação às brancas para quase todos os tipos da doença, diferença atribuída principalmente ao acesso desigual a serviços de prevenção, diagnóstico e tratamento de qualidade.
Cuidado com sobreviventes
Com o aumento do número de sobreviventes, especialistas apontam a necessidade de aprimorar o acompanhamento de longo prazo. Dahut observa que muitos profissionais da atenção primária não têm formação específica para lidar com questões relacionadas à sobrevivência e à recorrência do câncer.
“Ter mais sobreviventes é uma excelente notícia”, afirmou. “Mas será preciso desenvolver estratégias para garantir que essas pessoas recebam cuidados adequados e consistentes em todo o país.”
*Com informações do The Washington Post.
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