Especialmente no Brasil, país ainda submetido a uma enorme cartelização no mercado de opinião, os processos históricos levam algum tempo para serem desvendados. Especialmente quando envolvem processos de auto-destruição já identificados na literatura como “marcha da insensatez”.

Há uma confluência de fatores que encaminha as diversas forças internas e externas em determinada direção. Muitos dos personagens enveredam pelos novos caminhos quase por inércia, cumprindo o papel político que o sistema espera deles, sem se dar conta dos desdobramentos. Sâo peças que fazem parte do jogo, mas sem a menor capacidade de entender o jogo geral. Inclua alguns “iluministas” do Supremo nesse grupo.

Apenas lá na frente, em geral após o jogo jogado e o desastre consumado, há um processo gradativo de tomada de consciência, de se enxergar o todo. E aí esses personagens acabam condenados pela história, apesar do enorme esforço do sistema em preservar sua memória.

Esse Xadrez é um alerta para esse ilusionistas que se iludem achando que a fornalha do inferno da história, mais adiante, são as luzes do novo Iluminismo.

Nos Estados Unidos, uma imprensa mais plural, abrindo espaço para pensadores independentes, tem permitido uma tomada de consciência mais rápida sobre a gravidade do momento atual.  Não se trata meramente de fundamentalismo religioso, de recuperação da moral tradicional, ou coisas do gênero. Esse fundamentalismo é apenas um dos instrumentos dos grandes contraventores globais para, destruindo as estruturas convencionais, abrir espaço para seus negócios obscuros.

Como o facciosismo da mídia tupiniquim ainda permite reflexão crítica sobre o que ocorre fora do país, abriu-se espaço para que Lúcia Guimarães, correspondente da Folha nos Estados Unidos, preparasse uma análise tão sucinta quanto brilhante sobre o fenômeno do trumpismo nos EUA, um espelho mais elaborado de fenômeno similar acontecendo no Brasil, e que descrevi no “Xadrez do pacto de Bolsonaro com o Estado profundo”.

Disse ela:

* Trump matou o bipartidarismo americano, que existia desde a segunda metade do século 19.

* Não há “trumpismo”, mas um empresário incompetente saqueando os cofres públicos, em um pacto com os bilionários, que hoje pagam menos impostos, com os destruidores do meio ambiente e com os vigaristas, que venderam a alma em troca de um assento no Congresso.

* A indicação da juíza Amy Coney Barret para a Supremo Corte, foi comprado com dezenas de milhões de dólares por grupos de interesses que se escondem atrás de fundações laranjas.

* O sequestro da Suprema Corte pelo Partido Republicano nada tem a ver com princípios morais, criminalização do aborto e proibição do casamento gay. Essas bandeiras são chocalhos para agitar o culto.

* Os juízes comprados por bilionários estão lá para cumprir uma agenda econômica –desmontar estruturas de governo, garantir impunidade da elite e desfigurar o país que emergiu mais democrático da Segunda Guerra.

A partir daí, tentemos decifrar o Brasil.

Peça 1 – o pacto ultraliberal brasileiro

Esse processo foi descrito no Xadrez, definindo o papel de cada ator:

Bolsonaro – cria um populismo de direita às avessas, entreguista e destruidor do Estado nacional.

Mercado – endossa as políticas de destruição de todas as redes de proteção social e prepara-se para o grande negócio da queima de estatais estratégicas, que beneficia bancos de investimento, escritórios de advocacia, indústria dos fundos de investimento, grandes bilionários interessados na queima de ativos..

Bilionários – através das ligações com a mídia e com os tribunais superiores, supõem manter Bolsonaro em banho maria, com a garantia de que não mexerá na tributação de ganhos financeiros e nos spreads bancários.

Judiciário – ganha função, e preserva o protagonismo. Sei papel é manter a classe política acuada, Bolsonaro sob controle, pondo alguma ordem no galinheiro, enquanto elabora gambiarras constitucionais para permitir a privatização de subsidiárias essenciais das estatais.

Forças Armadas – recebem reforço de verbas orçamentárias, benefícios nas reformas e abertura do mercado do emprego civil para militares da ativa e da reserva.

Mídia – mantem o discurso único de que a destruição do estado social promoverá a abundância geral e irrestrita, enquanto tenta encontrar saídas para uma crise terminal do seu modelo de negócios.

Onde está o ovo da serpente?

Bolsonaro permanece com ampla liberdade de atuação, limitado apenas aos compromissos em relação aos parceiros de pacto:

* Não ameaçar os demais integrantes do pacto.

*  Manter distância prudente dos seguidores fundamentalistas.

* Prosseguir com a queima de estatais.

* Prosseguir no desmonte do Estado social e dos direitos fundamentais.

* Não aumentar tributos sobre ganhos de capital, nem ameaçar os spreads bancários.

E o que dão em troca a Bolsonaro? Abrem espaço para um avanço da contravenção internacional, montando parcerias com a contravenção cabocla em um momento em que as organizações criminosas internas dominam espaços cada vez maiores do território nacional.

Peça 2 – liberalismo e contravenção

Há um ponto em comum entre o ultraliberalismo e a contravenção: ambos são contra qualquer forma civilizada de regulação. Bilionários e contraventores compartilham a estrutura da banca internacional, os mesmos instrumentos de lavagem de dinheiro, alguns para fins fiscais, outros para fins criminais, mantém a mesma ojeriza em relação aos Estados nacionais.

A liberalização financeira pós-anos 70 juntou nos mesmos ambientes  dos paraísos fiscais bilionários conhecidos, narcotráfico, caixa 2, corrupção política etc.

Os atentados terroristas promoveram um combate ao dinheiro do crime explícito, aquele diretamente envolvido em atividades criminosas. Mas não em relação a outros campos econômicos explorados pelas organizações criminosas.

Com o avanço das novas tecnologias, essas organizações entram no território não regulado da Internet e passam a promover seus negócios. De um lado, organizando loterias virtuais e coisas do gênero. De outro, ampliando as redes de parcerias internacionais.

Esses grupos passam a dominar as ferramentas da Internet. E descobrem, através de personagens como Steve Bannon, que poderia interferir nas políticas nacionais, lançando políticos de fora do sistema que se disponham a destruir todas as formas de regulação.

Com todos seus defeitos, a democracia representativa permitiu enormes avanços regulatórios. Coibiu o avanço dos jogos de azar, por uma questão de saúde pública; avançou em regulamentos ambientais, impedindo mineração e outras formas de exploração em áreas de preservação; encareceu a industria do lixo, impondo restrições ambientais; inibiu a indústria das armas em vários países.

O know how acumulado por Bannon, pela Cambridge Analytics, foi transmitido para parceiros em várias partes do mundo, outsiders com o discurso anti-Estado e anti-regulação, no mesmo momento em que o Departamento de Estado descobria novas formas de praticar a guerra híbrida na geopolítica, acelerando a desmoralização da política convencional.

O tal do mercado passa a compartilhar valores em comum com essas organizações e esses candidatos: menos Estado, menos regulação, menos gastos orçamentários com a população.

Saber quem esteve por trás do financiamento de Bolsonaro ajudará e entender melhor o jogo.

Peça 3 – os financiadores da contravenção

Cassinos

Conforme narramos no “Xadrez de como os cassinos financiaram a ultradireita e negociam os Bolsonaro”, a figura central é Sheldon Adelson, presidente da Las Vegas Sand Coorporation.

Ele é o elo entre Donald Trump, o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu e Jair Bolsonaro.

Adelson foi um dos financiadores da mudança da embaixada norte-americana para Jerusalem. Na inauguração, a família Sheldon foi colocada em lugar nobre, ao lado do primeiro ministro Netanyahu, da filha e genro de Donal Trump, Ivanka e Jared Kushner. Não por acaso, a ultradireita israelense liderada por Netanyahu acumula em série suspeitas de corrupção.

Não por coincidência, um dos primeiros atos de Bolsonaro foi tentar mudar a embaixada brasileira de Telaviv para Jerusalém. Em uma das visitas de Bolsonaro a Trump, na Casa Branca, um dos temas tratados foi o da legalização dos cassinos no Brasil. Poucos dias depois, o Ministro do Turismo anunciou que o governo iria propor no Congresso Nacional um debate sobre cassinos integrados a resorts – justamente o modelo de Sheldon Adelson.

Em setembro do ano passado, Sheldon foi visitado pelo presidente da Embratur, Gilson Machado Neto. Em janeiro, recebeu o empresário-chefe do esquema Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, acompanhado do presidente da Embratur.

Indústria do lixo

No artigo “Como a máfia se consolidou na industria do lixo”, narra-se como a Camorra se apropriou do negócio do lixo, conforme relatado pelo jornalista Roberto Salviani no livro “Gomorra”. E permite entender os passos da nova política ambiental brasileira, implementada pelo Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles.

Com as exigências ambientais, a reciclagem do lixo, especialmente dos materiais tóxicos, tornou-se bastante onerosa. A máfia passou então a entrar no negócio através de empresas-mãe, cercadas por um arquipélago de stakeholders, formalmente independentes, incumbidos de dar um fim ao lixo, despejando, enterrando ou transportando para locais distantes. Eles trabalham para várias famílias, sem exclusividade. Quando estoura algum escândalo, as famílias ficam blindadas.

A exploração do lixo conquistou todas as famílias da Camorra, os Casalesi, os Mallardo, os Giugliano e se tornou o mercado preferencial para os jovens formados no sul, especialmente depois que a Operação Mãos Limpas destroçou parte da economia formal italiana.

Em 2004, a Operação Houdini demonstrou que um único equipamento, na região do Vêneto, removia ilegalmente 200 mil toneladas de detritos por ano. O custo de mercado, para resíduos tóxicos, era de 21 a 62 centavos o quilo. A máfia oferecia por 9 a 10 centavos o quilo.

Com o tempo, foram formadas redes de exploração do lixo em vários países, com ramificações entre si. Os italianos ensinaram os stakeholders orientais, prospectando oportunidades por vários páises. Quando os custos da descarga de lixo aumentaram na Inglaterra , apresentaram – se os stakeholders chineses alunos do stakeholders da Campânia.

A partir dessa descrição da economia clandestina do lixo, analise os seguintes atos do Ministro Ricardo Salles e dos novos empresários que ascendem com o governo Bolsonaro.

Como se conferiu na operação Paraguai, a jogada com a energia foi articulada por três empresários ligados ao PSL e recém entrantes no mercado do lixo, comprovando que o setor se transformou na elite empresarial do governo Bolsonaro.
Salles colocou como prioridade número 1 da sua pasta a reciclagem de lixo, tentando conseguir recursos para as prefeituras financiarem empresas privadas na exploração dos lixões.

Há um desmonte total das leis e da proteção ambiental.

Indústria de armas

Contamos no “Xadrez da indústria de armas e o financiamento da direita

O twitter, de 17 de janeiro de 2017, mostra o estreitamento de relações de Eduardo Bolsonaro, com a influente NRA, a Associação Nacional de Rifles dos Estados Unidos, quando se preparava para a campanha eleitoral.

De fato, no dia 11 de junho passado, Bolsonaro já mostrara que haviam frutificado suas relações com a NRA. Anunciou que, se eleito, acabaria com o monopólio da Taurus, alterando o artigo 190 do Decreto 3.665, de 2.000, sobre produtos controlados. Diz o decreto:  “o produto controlado que estiver sendo fabricado no país, por indústria considerada de valor estratégico pelo Exército, terá a importação negada ou restringida”.

No dia 10 de novembro de 2018, o site da America´s 1st Freedom, da NRA, dizia (https://goo.gl/F7mkKV):  “Tiremos o chapéu para Bolsonaro por ver a situação pelo que realmente é”.

Um ano antes, em 2017, Jair e Eduardo Bolsonaro foram recebido com todas as regalias pela NRA, conforme reportagem da Bloomberg (https://goo.gl/KWcMhy):

“Enquanto estavam lá, eles experimentaram uma AK-47 e outras armas de assalto. Depois, Eduardo, vestindo uma camiseta “F — ISIS”, segurou cartuchos de grande calibre para a câmera e expressou consternação por eles poderem “ter um problema” se tentassem trazer a munição para o Brasil.”

A vida da NRA começou a complicar no ano passado.

Em 2017, levantou US$ 312 milhões em contribuições dos fabricantes de armas, mas significou uma queda de 15% em relação a 2016. Mesmo assim, investiu US$ 55,6 milhões nas eleições, dos quais US$ 30 milhões em apoio a Donald Trump.

Quando explodiu o escândalo da interferência russa nas eleições norte-americanas, a agente russa Butina, em sua delação, informou que sua missão era encontrar americanos politicamente influentes infiltrando-se em uma “organização de defesa dos direitos das armas”. Justamente, a NRA.

O pior estava por vir  (https://goo.gl/rjPSdA).

A NRA foi alvo de uma campanha pesada do governador democrata de Nova York, Andrew Cuomo. A revelação das ligações com os russos ajudou a cortar os laços da NRA com a mídia norte-americana. Sem a retaguarda da mídia, e com o aumento das ações judiciais, as seguradoras passaram a ter receio de negociar com a NRA. O lobby vendia um seguro de responsabilidade civil para os associados, para cobrir atos de transgressão intencional. Mas constatou-se que usava uma apólice de seguro ilegal, o que lhe custou uma multa de US$ 7 milhões e aumentou o seu descrédito. Reguladores financeiros de NY investiram contra a NRA, espalhando o boicote pelo setor financeiro.

A reação da NRA foi um vídeo ameaçando a mídia tradicional. Mostra um homem destruindo uma televisão com uma marreta, em resposta às supostas notícias falsas. A apresentadora no canal da NRA usa uma camiseta com o slogan “Lágrimas Socialistas”. O vídeo foi visto 200 mil vezes.

Dois dias depois, aconteceu a tragédia na Flórida, com 17 alunos de uma escola secundária assassinados por um colega armado.

Associações contra as armas publicaram um anúncio de duas páginas no New York Times, denunciando 276 políticos financiados pela NRA. Ao lado, foto das crianças que deixaram a escola Marjory Stoneman Douglas durante o tiroteio. E as palavras de David Hogg, sobrevivente de 17 anos: “Nós somos as crianças. Vocês são os adultos … façam alguma coisa.

A reação da NRA veio através de seu líder, Wayne LaPierre, alertando contra uma “agenda socialista” por trás das campanhas contra o desarmamento. E dizendo que o direito às armas “é garantido por Deus a todos os americanos como direito de nascença” (https://goo.gl/QKwpaa).

Garantiu que as “elites” pretendem eliminar as armas “para que possam erradicar todas as liberdades individuais”.

A saída da NRA foi a internacionalização. E, segundo reportagem da Bloomberg, um dos mercados preferenciais seria o Brasil.

“À medida que a cultura das armas se espalhou, defensores de países tão distantes como Austrália, Brasil e Rússia consideraram o NRA como seu porta-estandarte. É difícil ver como isso serve à missão oficial do grupo como “uma associação que representa apenas cidadãos individuais” dos Estados Unidos. Mas é fácil entender como isso pode servir aos comerciantes globais de armas”.

Na reportagem “Bolsonaros do Brasil têm um santuário para a NRA”, publicada pouco antes das eleições, a Bloomberg mostrava os pontos em comum entre Brasil e EUA: ocupam o primeiro e o segundo lugar no número de cidadãos mortos a cada ano. E informava que Bolsonaro utilizava, na sua campanha, os mesmos argumentos da NRA.

Petróleo e mineração

No “Xadrez da Amazonia e a soberania nacional” mostramos como os irmãos Kock e outros empresários americanos estimularam a ultradireita como forma de enfraquecer a regulação dos Estados nacionais, que prejudicava seus próprios negócios.,

Financiadores do MBL e de outros movimentos de ultradireita, os princípios defendidos pelo Kock eram os seguintes:

* revogação das leis federais de financiamento de campanhas políticas;

* privatização dos Correios;

* contra qualquer forma de tributação de pessoas e empresas;

* a favor de revogação de todas as leis de proteção ao trabalho, como a do salário mínimo;

* o fim das escolas púbicas, porque “conduzem à doutrinação das crianças e interferem na escolha dos indivíduos”;

* a privatização das ferrovias e das estradas públicas;

* fim de todos os subsídios, inclusive aqueles voltados para as crianças.

* Fim da Agência de Proteção Ambiental.

Peça 4 – civilização x barbárie

O que está em jogo nas próximas eleições americanas, e nas disputas internas brasileiras, é o dilema civilização x barbárie. Ao abrir espaço para o crescimento do bolsonarismo, o pacto ultraliberal – com Supremo e tudo – joga a favor da barbárie.

Acompanhe esse pequeno exercício lógico?

1. A pretexto de “modernizar” a economia, o Supremo reduz os direitos sociais. Não se limita a substituir direitos anacrônicos por novos direitos: faz terra arrasada.

2. O mercado, através da mídia, estimula o corte de gastos sociais em educação, saúde e segurança.

3. Há uma ampliação da insegurança sistêmica das famílias. Sem Estado, sem emprego formal, parte delas irá se abrigar nas organizações criminosas que há tempos, na Itália e em partes do Brasil, fornecem apoio aos desassistidos como forma de aliciamento.

E tudo isso brandindo o fetiche das tais “reformas”, um conjunto desestruturado de medidas de desmonte da economia, sem colocar nada no lugar.

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