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As manipulações e expectativas da crise econômica na imprensa, por Paulo Kliass

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Foto: Reprodução

Da Carta Maior

 
A cada dia, formadores de opinião vinculados ao financismo garimpam arduamente alguma notícia para tentar comprovar que a bonança está logo ali na esquina
 
por Paulo Kliass

As forças políticas e os interesses econômicos que se articularam e conspiraram abertamente para o êxito do movimento que provocou o golpeachment estão em estado de alerta. Afinal, sonhavam com um futuro bem mais róseo e um pouco menos problemático do que a realidade que vivemos atualmente em nosso País.
 
As recomendações que sussurravam nos ouvidos dos liberais e dos conservadores ainda hesitantes em apoiar a solução ilegal e carente de base constitucional poderiam ser resumidas em um mantra sedutor: ‘Não se preocupe não. É fácil. Primeiro a gente tira a Dilma. Depois, tudo o mais se acerta”. 
Na tentativa de conferir mais solidez e um pouco de aparência de seriedade ao movimento que jogou a institucionalidade democrática na lata do lixo, a agremiação partidária que deu a liga ao impedimento da presidenta eleita divulgou até um programa alternativo de governo. “Uma ponte para o futuro”converteu-se no documento para justificar as ações que visavam construir a manobra para que Temer se apoderasse do Palácio do Planalto.
 
O texto elaborado sob a responsabilidade do Presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Wellington Moreira Franco, representa a antítese de tudo aquilo que havia sido discutido durante a campanha eleitoral de outubro de 2014. Em resumo, o material elenca um conjunto de proposições de redução de direitos sociais e de liberalização da economia que viabilizariam a entrada no paraíso. E o vice-presidente em exercício parece ter aprendido direitinho o seu dever de casa. Passou a implementar tudo como sugerido ali ao longo das 19 páginas. Desde a reorientação da política externa até a destruição da previdência social, passando pela reforma trabalhista e por concessão de maiores benesses para o capital privado.
 
Temer: um ano de desastre social e econômico.
O problema é que passado mais de ano desde a usurpação do poder federal, a sociedade brasileira tem percebido que o mergulho na tragédia derivada da adoção do austericídio como programa básico de governo não proporcionou nenhuma melhoria. O futuro chegou e a ponte mais se parece com uma pinguela cujo eixo está voltado para o passado. A recessão econômica continuou firme e solta desde então, com as consequências trágicas das falências e do desemprego a níveis nunca antes atingidos.
 
Assim, concretizou-se a frustração de todos os que acreditavam na fábula da fadinha das expectativas. Com sua popularidade nos níveis mais rasos nas pesquisas de opinião, o governo começa a sentir também dificuldades em avançar a agenda do retrocesso no interior do Congresso Nacional. E assim tem início uma grande campanha de propaganda, operação articulada com os grandes meios de comunicação, para tentar reverter o quadro no sentimento da população. Isso vale tanto para vender a ideia de que o pior já passou ou de que o fundo do poço já foi atingido, quanto para responsabilizar os governos anteriores ao golpe por tal desastre.
 
A cada dia, a cada semana, os formadores de opinião vinculados ao financismo garimpam arduamente alguma notícia alvissareira para tentar comprovar que a bonança está logo ali na esquina. É claro que os novos ocupantes de cargos estratégicos na administração federal também oferecem sua generosa contribuição. Esse movimento ocorre de forma descarada na defesa da necessidade da reforma da previdência, com a manipulação de informações oficiais na justificativa do desmonte do Regime Geral da Previdência Social.
 
À espera do crescimento.
Mas como os números que atestem o fim da recessão teimam em não comparecer, a última cartada foi a utilização de manobras estatísticas de baixo nível para obter alguma informação que corroborasse a versão da narrativa que o governo busca desesperadamente comprovar. E assim foi o que o IBGE mudou a metodologia na pesquisa de atividade do setor comércio e serviços para oferecer uma boia de salvação ao setor de comunicação do Planalto. Como esse indicador é usado na projeção do Banco Central para uma espécie de prévia do PIB, a intenção casuística é evidente. Mas o movimento foi amplamente denunciado e deve perder seu impacto como desejado no início.
 
O fato concreto é que a retomada de um ciclo de crescimento sustentado da economia depende basicamente de novos investimentos. E os grandes grupos empresariais não estão tomando decisões dessa natureza. A recessão está tão profunda que o nível de capacidade ociosa das empresas lhes permite assistir o quadro político e econômico sem precisar ampliar o parque produtivo. Por outro lado, a elevada rentabilidade proporcionada historicamente em nossas terras por retornos financeiros estratosféricos lhes assegura maiores ganhos operando nas finanças do que produzindo no setor real. Melhor aguardar do que se precipitar.
 
A manipulação fica evidente quando se verificam os resultados da pesquisa semanal realizada pelo Banco Centraljunto aos responsáveis pelas decisões do sistema financeiro - a Focus. Ali são levantadas as tais das “expectativas” do mercado. Trata-se de uma verdadeira lengalenga que ausculta apenas os integrantes do petit comité da nata do financismo. Operando na base do “de nós para nós mesmos”, a pesquisa pretende servir como bússola orientadora das ações da autoridade monetária. Um dos quesitos refere-se às perspectivas dos entrevistados quanto ao desempenho futuro da atividade econômica. Vejam abaixo a tendência de evolução das respostas a respeito do crescimento do PIB de 2017 segundo a data da pesquisa:
 
19/02/16  -  0,50%
18/03/16  -  0,44%
15/04/16  -  0,20%
24/06/16  -  1,00%
16/09/16  -  1,36%
09/12/16  -  0,70%
12/01/17  -  0,50%
12/05/17  -  0,50%
 
Desde o início do ano passado, o esmagamento midiático de Dilma e a campanha pró impeachment se combinavam com um quadro de desastre anunciado. Em abril, às vésperas da consumação do afastamento, o crescimento do PIB em 2017 não iria ser superior 0,2%. Com a chegada de Temer e a entrega do comando da economia nas mãos dos banqueiros Meirelles e Goldfajn, tudo mudou. Como que magicamente, os mesmos entrevistados pela pesquisa Focus mudaram de opinião e a economia passaria a bombar da noite para o dia. Em junho eles apostavam em um PIB crescendo a 1 % e em setembro chegaram a apostar em 1,36%. Porém, como não há mágica de desejo político que seja superior a qualquer base real da economia, os resultados da gestão Temer fizeram-nos cair na real. As projeções de crescimento em 2017 baixaram para 0,7% e agora estão em 0,5%. Ou seja, no mesmo patamar que apontavam lá atrás em fevereiro de 2016, ainda no início do segundo mandato de Dilma.
 
Investimentos em compasso de espera.
Um personagem que talvez exemplifique bem o sentimento que acomete os principais tomadores de decisão do mundo do capital é Armínio Fraga. Esse banqueiro, que já teve passagem no governo federal à época de FHC, reflete de forma sincera e articulada essa aparente contradição. Afinal, por que a economia não deslancha se a grande maioria dos principais responsáveis por parcela importante de nosso PIB apoiou a deposição do governo eleito? Em entrevista concedida essa semana, ele reconhece que
 
"Depois de uma recessão profunda seria de se esperar uma recuperação mais forte, mas isso não acontece quando se tem tanta incerteza".
 
E como que a reconhecer sua própria culpa na aposta equivocada e precipitada, passa a culpar o fantasma da volta de Lula para justificar a incapacidade de Temer em cumprir sua falsa promessa:
 

“O problema é que o hoje está sendo influenciado por um amanhã nebuloso. Deveria estar havendo boa recuperação, com apoio da política monetária, que está dando sua contribuição. Mas dificilmente vai ser uma grande festa da recuperação, até as incertezas começarem a desaparecer de forma boa”

 (...)

“Esse Lula hoje está reagindo como uma fera acuada. E aí vem o medo de ele voltar.“
 
A partir desse depoimento pode-se compreender algumas das razões que atuam para desestimular a retomada dos investimentos. Para além da obsessão visceral de Meirelles em impedir qualquer tipo de protagonismo na iniciativa do setor público nessa direção, Fraga assume que as incertezas permanecem no ar. Ou seja, não bastava tirar Dilma para que a fadinha das expectativas lançasse os superpoderes com sua varinha mágica. Agora, o próximo passo deve ser impedir Lula de sair candidato. 
 
* Paulo Kliass é doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.

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jossimar

Caros,   Não se queçam de a

Caros,

 

Não se queçam de a mídia golpista capitaneada pela globo convenceu até os experientes que o brasil estava a deriva e a beira do precipício no final de 2012 e todo o ano de 2013. Pregava a alta da inflação 24 horas por dia quando não havia inflação descontrolada. A globo criou o caos econômico para derrubar a Dilma. Até a Dilma acreditou no caos da globo e criou o caos de verdade ao adotar o prgrama dos derrotados.

Então, acreedito que será até fácil para a globo convencer o povo de que estamos na Noruega, Suiça ou coisa parecida.

Brasileiro não só e um BUNDA MOLE como também é IGNORANTE.

http://www.geracaobooks.com.br/literatura/texto1.php

 

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È impressionante a

È impressionante a articulação dos comentaristas economicos do sistema GLOBO, Sardenberg, João Borges, Miriam Leitão, todos ensaiaram o mesmo viés falacioso e fantasioso de comparar um mes com o anterior, como se isso fosse um sinal de

FIM DA RECESSÃO, afirmação destituida de qualquer logica economica. Que um Meirelles fale a toda hora em FIM DA RECESSÃO é compreensivel, esse personagem não tem conhecimento minimo de economia, de historia da economia, da historia do pensamento economico e pode falar para leigos que de um mes para outro acabou a recessão, algo que nem calouro de curso de economia ousaria dizer, uma recessão de tres anos não acaba quando muda o  mês, ´precisa haver TENDENCIA FIRME DE CRESCIMENTO por no minimo dois trimestres, isso se ensina em qualquer escola de economia do planeta. Comparar a venda de tomate entre fevereiro e março não significa coisa alguma porque os meses do ano tem cada

um ELEMENTOS DE VARIAÇÕES ESPECIFICAS, como dias uteis a mais ou a menos, SAFRAS de produtos, eventos,

clima, ferias escolares, um mes contra outro NUNCA DEVERIA sequer ser comentado pelos Sardenbergs da Globo porque  nada significa e no entanto é o que mais eles comentam MAS NUNCA COMENTARAM referencias fundamentais de uma

economia como por exemplo a DISPONIBILIDADE  DE CREDITO , se soubessem que isso existe comentariam por exemplo que R$ 1 TRILHÃO deixaram de circular na economia em 2016, significando o que os bancos recolheram como

recebimento de divida e NÃO VOLTOU AO MERCADO COMO EMPRESTIMOS NOVOS (Longa materia no jornal O ESTADO DE S.PAULO de 18/12/2016, pgs. 1, B1 e B3), esse é um dado infinitamente mais importante do que tudo que Sardenberg e Miriam falaram durante 2017 e no entanto esses dois veteranos não comentam  esse dado crucial.

Como o "time", como eles gostam de se apresentar, de comentaristas economicos da GLOBO nada falam sobre o monumental equivoco da politica cambial e da politica monetaria, ao atrelar TODA A POLITICA CONOMICA AO  CONTROLE DA INFLAÇÃO, causa principal da recessão e não o deficit publico, em uma recessão a inflação NÃO é o principal problema da economia, isso no pensamento economico ORTODOXO CONSERVADOR, a inflação é um mal menor do que a recessão e não se deve priorizar META DE INFLAÇÃO sobre META DE CRSCIMENTO, inflação causa incomodo, recessão causa morte.

É assustador que numa mega recessão de tres anos não se trate dos EIXOS CENTRAIS da Economia, credito e dinheiro em circulação e se perca muito tempo com dados marginais como venda de chocolate na Pascoa, tratando esses sub-dados como s isso fosse o total da economia e não o dinheiro em circulação e o investimento publico, esses sim, temas centrais.

A minha conclusão é que Sardenberg e Miriam desconhecem por completo economia, são realejos de bordões, que conhece economia se recusa a dizer aberrações que ofendem a inteligencia e no entanto eles dizem não simplesmente por obrigação de obedecer as ordens de cima, eles falam com convicção de crentes.

Após sete anos de ajuste fiscal na mesma linha do que propõe Meirelles-Goldfajn a Grecia foi para trás e chega hOJE À depressão,, com 25% de queda do PUB e 23% de desemprego oficial, o real chega a 30%, o que DESMORALIZOU

o conceito d AJUSTISMO, que rebrota no Brasil, Pais infinitamente mais rico que a Grecia, sem problemas cambiais mas que pratica a mesma burrice que foi imposta à Grecia, sob aplausos dos comentaristas economicos do oficialismo.

 

 

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jossimar

Penso que os dois analfabetos

Penso que os dois analfabetos econômicos - Miriam Leitão e o Sardenberg - são assalariados pagos para falar o que o patrão mandar. Então, a culpa não é deles, é dos Marinho e das empresas que eles comandam.

Garanto que se eles se atrevessem a falar a mesma coisa que você escreve estariam demitidos em no máximo 48 horas.

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Carioca

Correção ao artigo. A bonaza

Correção ao artigo. A bonaza estava na esquina. Aqui no Rio ela foi assaltada e sequestrada quando lá esteve.

Não sei em outras cidades/estados mas, por aqui o que se vê de lojas fechadas no centro da cidade é uma enormidade.

Fica a pergunta: Aonde esses caras veem progresso ?

Alguem tá levando para divulgar extase em aumento de 0,0001% para 0,0002% ...

Alguem tem notícias de 2019, 2020 ?

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As tolices do Armínio. O que

As tolices do Armínio. O que impede o crescimento é o "risco Lula" mas o que aumenta o "risco Lula" e a falta de crescimento, logo seria simplissimo para os investidores afastar do horizonte a nuvem escura do sapo barbudo. Era só investir na economia para o Brasil crescer e com isso diminuir as chances de Lula voltar.

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jose antonio santosjj

Iguais

Leio as declarações desses jornalistas do PIG e penso no Trump.

Ouço o Trump e penso nesses jornalistas brasileiros.

Os dois são uns farsantes.

O Trump vai acabar por ser impichado. Os jornalistas vão ficar por ai fazendo terrorismo.

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A desgraça confirmada. O incrível desprezo da China.

Nada caracteriza melhor o desastre provocado pelo golpe da midia e do judiciário do que a atual expulsão do Brasil do grupo do brics.

Se a china, sem pretenções políticas, neutra e só preocupada com a economia ampla e universal, despreza um gigante como o Brasil, é porque ela sabe que depois do golpe estamos perdidos, nos entregamos, passamos a ser um joguete bobo de quem nem se preocupa conosco, o eua.

Só mesmo esta "rede nojo de televisão" impede que um desastre tão grande seja exposto e chorado. Até estranho que o nassif não dê o destaque que tem o fato.

E não há como deixar de afirmar: SÓ O LULA MUDARIA  ESTA  SITUAÇÃO DE DESASTRE. 

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Quem não desconfia de si próprio não merece a confiança dos outros (ditado árabe)

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Antonio C.

Comentário.

"Afinal, sonhavam com um futuro bem mais róseo e um pouco menos problemático do que a realidade que vivemos atualmente em nosso País."

Trata-se de um aritifício retórico do autor, né?

Se não for, bom... então, o autor reza de pé junto que aquilo que prometiam (sic) era o que eles tinham de boa fé... e tem!

Ou  me engano?

Engraçado ter um golpe de estado e ele ser feito com a melhor das intenções.

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Carlos M

E..... olhem .....nunca votei

E..... olhem .....nunca votei no PT. Até hoje, pois na próxima mesmo que erre quero minha vingança.
Lula 2018 na cabeça.

Ruim com Dilma mas......muito,muito ,muito pior com Temer e os bandidos do PSDB.
FHC > entreguista bandido.
José Serra > entreguista bandido e cínico.

Aécio > cheirador de pó.

Não é ódio ,é constatação.

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José Soares

Aprovação das reformas e ilusão de fim de crise

Me parece que a ofensiva da imprensa golpista nos últimos dias, fazendo uma narrativa desesperada de fim da crise, não precisa ser muito consistente nem durar muito. A ilusão basta durar até a aprovação das reformas trabalhista e previdenciária. Depois, que venha o dilúvio. Até o presidente postiço poderia ser dispensado.

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