No dia 30 de abril de 2019, o artigo “A mãe que derrotou a Globo em defesa de seus filhos” abria assim:
“Esses dias que antecedem o Dia das Mães nos deixam mais propensos a um mergulho emotivo, esquecendo por instantes o país selvagem que emergiu nos últimos tempos, vítima de oportunistas e da covardia generalizada das instituições, o país do preconceito, da xenofobia, do racismo.
Acordo de manhã, e na caixa postal do Messenger, uma mensagem curta que me aquece a alma, da médica Leticia Fernandes, anunciando a certidão de nascimento, assegurando a adoção plena da menina Stephanie Fernandes Silva”.
Foi uma luta de anos contra o sensacionalismo no maior veículo de comunicação do país – o programas Fantástico, da Rede Globo, secundado pelo Jornal Nacional – criando denúncias cabulosas contra famílias de Indaiatuba, que foram adotar crianças em Monte Santo.
O escândalo envolveu um conjunto grande de interesses. Começou com a CEDECA (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente da Bahia), sediada em Salvador, com ambição de avançar sobre a atribuição dos conselhos tutelares municipais. A denúncia foi passada para o repórter da Globo, José Raimundo.
Na época, a Globo tinha dificuldades em alavancar a audiência de sua novela “Salve, Jorge”, que versava sobre tráfico de pessoas. Raimundo deu o tema que virou campanha na Globo.
De um lado cinco famílias de Indaiatuba sendo acusadas de tráfico. Depois, uma juíza de Santa Catarina, para continuar alimentando a farsa. No meio, uma CPI do Tráfico, com deputados de voz flamejante despejando dardos de hipocrisia sobre vítimas indefesas.
Foi um crime do mesmo tamanho da Escola Base.
Esta semana, o Superior Tribunal de Justiça rejeitou alegações dos advogados da Globo, em uma ação proposta por Letícia Fernandes, uma jovem médica de Indaiatuba, que tornou-se uma apaixonada mãe do coração.
Abaixo, um resumo do que foram as reportagens do Jornal GGN.
1. Síntese
O caso das adoções de Monte Santo foi tratado pelo Jornal GGN como um dos maiores crimes de imprensa da história recente do Brasil, comparável ao caso Escola Base. Em outubro de 2012, às vésperas da estreia da novela “Salve Jorge” — cujo enredo tratava de tráfico de pessoas —, o Fantástico e o Jornal Nacional veicularam uma série de reportagens do repórter José Raimundo denunciando uma suposta quadrilha de tráfico de crianças que teria retirado cinco irmãos de uma família pobre de Monte Santo, no sertão baiano, para entregá-los a famílias paulistas de Campinas e Indaiatuba, com suposta participação do juiz da comarca. A série de reportagens do GGN, baseada nos documentos do processo, sustentava que não havia quadrilha alguma: havia uma medida de proteção legalmente fundamentada, tomada diante de situação de risco comprovada, que a cobertura da Globo transformou em espetáculo — com consequências devastadoras para as crianças, as famílias adotivas e o juiz responsável.
2. Os fatos que antecederam as adoções (2010–2011)
A reconstituição documental publicada pelo GGN (“Caso Monte Santo: o processo que tirou as crianças da mãe“, 08/05/2013) mostra que a retirada das crianças não foi ato arbitrário nem súbito. O Conselho Tutelar de Monte Santo acumulava denúncias contra a mãe, Silvânia, desde pelo menos 3 de maio de 2010, quando a cunhada Conceição Souza denunciou maus-tratos, abandono e alcoolismo. Em 21 de maio de 2010, o próprio pai, Jerôncio de Brito Souza, denunciou a ex-companheira por deixar as crianças sozinhas e não aplicar os recursos do Bolsa Família nos filhos. Em 2 de dezembro de 2010, o Conselho Tutelar lavrou Termo de Advertência contra Silvânia por “expor as crianças a risco iminente, devido a práticas de negligência e desleixo”.
Em 2011, a sequência se acelerou: nova denúncia de negligência em 23 de março; visitas do Conselho Tutelar em abril constatando crianças em situação de risco; relatório do CREAS de 5 de maio identificando as cinco crianças em condições precárias de higiene e saúde, sem vacinação completa e sem nenhuma pessoa da família em condições de exercer a guarda. Em 12 de maio de 2011, a promotora Monia Lopes de Souza Ghignone requereu medida de proteção urgente. Como não havia abrigo na cidade nem famílias locais aptas ao acolhimento, o juiz Vitor Manoel Xavier Bizerra concedeu a guarda provisória das crianças (Ricardo, 6; Daniel, 4; Danilo, 2; Luan, 1 ano e 3 meses; e a recém-nascida Estefane) a famílias de Campinas e Indaiatuba, em maio–junho de 2011.
O GGN documentou ainda o perfil real dos pais biológicos, omitido pela Globo: Jerôncio tinha extensa ficha criminal (assalto à mão armada, atentado violento ao pudor, estupro) e ameaçou de morte funcionários do Ministério Público; Silvânia, em depoimento ao MP-BA em 2 de agosto de 2012, admitiu o alcoolismo, a dependência de drogas no passado e que deixava os filhos para ir beber.
3. A cobertura da Globo (outubro–dezembro de 2012)
O GGN catalogou a sequência de matérias (“As reportagens sobre as crianças adotadas na Bahia”, 06/05/2013): em 14/10/2012, o Fantástico exibiu a denúncia inicial da suposta quadrilha; no dia seguinte, o Jornal Nacional anunciou que a Polícia Federal investigaria as “adoções suspeitas”; em 21/10 — um dia antes da estreia de “Salve Jorge” — nova matéria sobre “quadrilha que atua no tráfico de crianças”; em 28/10, “golpistas realizam adoções irregulares no sertão da Bahia”; em 4/11, matéria de perseguição ao juiz Bizerra; em 18/11, a generalização de que a “prática de adoção ilegal no sertão da Bahia já dura mais de dez anos”; e em 23/12, a exibição da volta das crianças à família biológica.
A ministra Maria do Rosário, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, endossou publicamente a tese da organização criminosa — inclusive em entrevista ao GGN —, mas a Secretaria jamais realizou investigação própria: baseou-se apenas no CEDECA (ONG que articulou as denúncias com a Globo) e na Pastoral da Criança. Confrontada ponto a ponto com os documentos do processo, a nota oficial da SNDH foi desmentida pelo GGN em pelo menos seis itens. As acusações de quadrilha chegaram à CPI do Tráfico de Pessoas no Congresso, onde nada foi comprovado.
4. A reversão e o “juiz herói”
Sob o impacto da cobertura, o juiz Bizerra foi afastado e substituído por Luiz Roberto Cappio, tratado pela Globo como herói. Em novembro de 2012, Cappio revogou as guardas e determinou o retorno das cinco crianças à mãe biológica, após um ano e cinco meses de convívio com as famílias paulistas — cenas de remoção que o GGN classificou entre as mais cruéis da história da televisão brasileira. Sob cobertura intensa da Globo, as duas crianças foram retiradas da casa de Letícia. Abraçaram chorando a mãe do coração e rumaram para uma viatura que as levou de volta a Monte Santo.
A esta altura, Letícia perdeu o emprego e passou a ser ameaçada, nas ruas da cidade, acusada de integrar uma quadrilha.
Cappio posou para fotos com a família biológica no dia do retorno das crianças, em dezembro de 2012, e acusou o colega Bizerra e as famílias de integrarem o esquema de tráfico, sem jamais apresentar provas.
Na sequência, os papéis se inverteram: a médica Letícia Fernandes, foi a Monte Santo, armada exclusivamente de um celular, e, com apoio da população, confrontou publicamente o repórter José Raimundo; o repórter da Globo foi flagrado dando dinheiro ao pai biológico; e a própria Silvânia, arrependida — após deixar de receber o suporte financeiro que a emissora lhe dava —, decidiu devolver as crianças às famílias afetivas, admitindo não ter condições de criá-las.





Em 26 de maio de 2015, o Tribunal de Justiça da Bahia anulou por unanimidade a decisão de Cappio, acolhendo pedido das mães adotivas e do próprio Ministério Público baiano, por parcialidade do magistrado: ele não ouvira famílias, crianças nem psicólogos. Cappio foi afastado da comarca por decisão unânime do TJ-BA e submetido a junta médica para atestar sua sanidade. E foi o herói fabricado pela Globo, aparecendo de colete à prova de balas, para fortalecer a fantasia de que enfrentava uma poderosa quadrilha de traficantes.
5. Desdobramentos judiciais e a Operação Faroeste
Em maio de 2014, o juiz Sérgio Fernandes, da 2ª Vara Cível de Indaiatuba, acolheu ação movida contra a Rede Globo, o patrocinador O Boticário e dois jornalistas da emissora — sentença que o GGN apontou como marco na discussão sobre os limites de concessionárias de serviço público.
O desdobramento mais grave veio em 2021 (“Crianças de Monte Santo: a Escola Base do Fantástico e a Operação Faroeste“, 23/10/2021). Pouco antes das denúncias da Globo, o juiz Vitor Bizerra havia encaminhado ao TJ-BA denúncias sobre venda de sentenças por desembargadores em operações de grilagem de terras na região. O GGN registrou que a delação premiada da ex-desembargadora Sandra Inês Rusciolelli Azevedo e de Vasco Rusciolelli Azevedo, no âmbito da Operação Faroeste, comprovou as denúncias feitas pelo juiz à época. Bizerra era a única resistência à grilagem de terras na região. Por isso mesmo, o TJ-BA valeu-se do carnaval da Globo para afastá-lo.
A conclusão do jornal: o sensacionalismo da Globo serviu de álibi para afastar um juiz que incomodava um esquema de corrupção judicial, garantindo a sobrevida da quadrilha — transformando “um juiz desequilibrado em herói, e um juiz sério em traficante”.
6. Conclusões da série do GGN
O caso condensa, na leitura do GGN, uma convergência perversa: uma emissora buscando promover sua novela com “casos reais” de tráfico de pessoas; uma ministra que endossou acusações sem investigação própria; ONGs em disputa com conselhos tutelares; e um Judiciário estadual interessado em afastar um juiz incômodo. No centro, cinco crianças usadas como joguetes — retiradas de situação de risco, entregues a famílias que as acolheram, arrancadas dessas famílias diante das câmeras e, por fim, devolvidas quando a novela acabou e o interesse jornalístico se esgotou. Nenhuma prova de tráfico de crianças jamais foi produzida.
Fontes (Jornal GGN)
- Um crime de imprensa: como o Fantástico matou o futuro de cinco crianças (maio/2013, atualizado)
- As reportagens sobre as crianças adotadas na Bahia (06/05/2013)
- Caso Monte Santo: o processo que tirou as crianças da mãe (08/05/2013)
- Juiz acolhe ação contra a Globo pelo episódio das crianças de Monte Santo (09/05/2014)
- Crianças de Monte Santo: a Escola Base do Fantástico e a Operação Faroeste (23/10/2021)
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