do Observatório Internacional do Século XXI
O Memorando Estados Unidos-Irã
por Wagner Sousa
1. O acordo
O Memorando de Entendimento, assinado no dia 17 de junho de 2026, entre Washington e Teerã representou, fundamentalmente, um freio de arrumação tático diante de uma escalada que, para a administração Trump, se tornou econômica e politicamente muito custosa. Estruturado em 14 pontos, o documento tentou costurar um equilíbrio precário: de um lado, a exigência norte-americana de garantias permanentes contra a nuclearização militar iraniana; de outro, as demandas históricas de Teerã pela suspensão do sufocamento econômico, liberação de ativos congelados e autorização para a comercialização de seu petróleo bruto.
Todavia, a fragilidade desse arranjo provisório de 60 dias revelou-se de forma quase imediata. Ao condicionar o alívio das sanções a contrapartidas de segurança que esbarram na soberania regional do Irã — e ao não conter Israel em seus ataques ao Líbano —, as bases desse acordo nasceram sob o signo da desconfiança mútua, especialmente do lado iraniano, que sofreu ataques quando ainda se tentava uma solução negociada. O subsequente anúncio de novas sanções financeiras por Washington e as violações do cessar-fogo demonstram que o memorando não foi o prelúdio de uma possível nova arquitetura de paz, mesmo porque não há o mínimo grau de consenso para isso, mas sim, ao que parece, a continuação de um “estado de guerra” constante, o que quer dizer que a guerra pode eclodir a qualquer momento frente a uma paz frágil.
2. A Crise Estrutural e o Eixo de Ormuz
A fricção entre os Estados Unidos e o Irã insere-se na dinâmica de transição hegemônica do sistema mundial e na disputa pelo controle dos fluxos energéticos globais. O bloqueio e a subsequente disputa em torno do Estreito de Ormuz evidenciam como a geografia e a infraestrutura do capitalismo global são também teatros de operações da segurança internacional.
Desde o início das hostilidades e dos bombardeios no início de 2026, ficou claro que a estratégia americano-israelense de “choque e pavor” econômico e militar encontrou limites materiais severos. A resistência do Estado iraniano não decorre apenas de sua capacidade de mobilização militar interna, mas de sua inserção nas alianças estratégicas do Sul Global. Rússia e China têm dado apoio ao Irã no conflito com os Estados Unidos e Israel, com suprimentos militares e informações de inteligência. O fracasso histórico das sanções ocidentais contra a Rússia levou ao surgimento de rotas alternativas de escoamento e financiamento; no caso do Irã, a interrupção do tráfego de navios-tanque em Ormuz gerou pressões inflacionárias globais imediatas, demonstrando que o estrangulamento de Teerã impõe custos que podem se tornar proibitivos às próprias economias centrais.
3. A Dinâmica Regional: Israel, o Líbano e as Forças de Resistência
Outro vetor de instabilidade que dificulta a eficácia do memorando é a desconexão entre as prioridades globais de Washington e os imperativos de segurança regional de seus aliados locais, notadamente o governo de Benjamin Netanyahu. A insistência de Israel em manter total liberdade de operações no Líbano colide frontalmente com a exigência iraniana de uma cessação abrangente das hostilidades que inclua toda a sua rede de alianças regionais.
Teerã tem sido explícita: não sacrificará seu papel de liderança no chamado “eixo de resistência” em troca de concessões financeiras parciais e reversíveis. A liderança iraniana compreende que o desmantelamento de sua projeção de poder regional (o apoio aos seus aliados regionais Hezbollah, Hamas, Houthis e outros) conforme demandado pelos EUA e principalmente por Israel, equivaleria a uma grande derrota estratégica.
4. Cenários Futuros e Possibilidades a partir do Impasse
Diante do colapso precoce das expectativas do memorando, o cenário do conflito se divide em dois caminhos possíveis:
a) A Recaída na Guerra de Desgaste de Alta Intensidade: Caso a retaliação militar substitua em definitivo os canais diplomáticos paralisados, o retorno aos bombardeios sistemáticos e ao fechamento estrito de Ormuz provocará uma nova onda de choque na economia política internacional. Este cenário é de soma zero: o Ocidente amplia o isolamento formal do Irã, mas arca com uma grave crise nos mercados de energia e a aceleração da inflação global.
b) A Consolidação de uma “Trégua Cinza” (Nem Paz, Nem Guerra): O cenário mais provável reside na manutenção de um estado de fricção controlada. Nele, o memorando deixa de ser um roteiro para um tratado definitivo e passa a operar como um teto regulador da violência. Ambas as partes mantêm a retórica maximalista para consumo interno, mas evitam o transbordo para um conflito total que destruiria a infraestrutura petrolífera da região.
5. Considerações Finais
O impasse contemporâneo entre os EUA e o Irã corrobora a tese de que a hegemonia norte-americana não se sustenta como antes, seja pela supremacia bélica ou pelo poder financeiro. A interdependência assimétrica das redes globais de valor confere aos Estados periféricos e intermediários dotados de posições geográficas estratégicas um poder de barganha e de veto considerável. Foi o que pôde aferir o Irã, ao ser atacado. Os ataques, no momento da escrita deste texto, voltaram com força e se iniciaram a partir do ataque iraniano a navios que, direcionados pela marinha norte-americana a escapar do controle do Irã sobre o Estreito de Ormuz, margeando a costa de Omã, tentaram, portanto, “driblar” a autoridade de Teerã sobre a passagem. O Irã vê o controle de Ormuz como fundamental do ponto de vista estratégico e também considera ter ganhos econômicos, cobrando pela passagem. Tal cogitação não existia antes dos ataques americano-israelenses. É o que vários analistas já descreveram como o “Momento Suez” da hegemonia norte-americana, em comparação ao que significou a perda do Canal de Suez para a hegemonia britânica. O que se percebe é que a mudança de status do Estreito de Ormuz veio para ficar e a correlação de forças naquela região já se alterou, com o Irã mais poderoso, os Estados Árabes do Golfo Pérsico tendendo a querer depender menos de Washington e o eixo Moscou-Pequim exercendo mais influência.
Wagner Sousa – Doutor em Economia Política Internacional pela UFRJ. Pós-Doutorado em Relações Internacionais pela Unesp. Atualmente é pós-doutorando em Economia Política Internacional na UFRJ com pesquisa sobre a política externa alemã e suas relações com grandes potências (EUA, Rússia e China).
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