3 de agosto de 2026

A joia da Coroa, por Gustavo Tapioca

A eleição brasileira passou a integrar a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.
Imagem gerada por ChatGPT

Em 2026, a eleição presidencial brasileira integra disputa geopolítica entre EUA e China, com o Brasil como peça central.
Flávio Bolsonaro intensifica laços com Trump e ultradireita internacional, ampliando influência externa na campanha.
Lula responde fortalecendo parceria com China e defende soberania contra interferências, tema central da campanha.

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A joia da Coroa

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por Gustavo Tapioca

Durante décadas, as eleições presidenciais brasileiras foram disputadas essencialmente dentro das fronteiras nacionais. Partidos, empresários, movimentos sociais e lideranças políticas definiam os rumos da sucessão presidencial. A política externa influenciava o ambiente, mas permanecia em segundo plano. 

Em 2026, esse quadro mudou. 

Pela primeira vez desde a redemocratização, a disputa pelo Palácio do Planalto passou a integrar uma competição geopolítica mais ampla, na qual Estados Unidos e China disputam influência sobre a América do Sul. É nesse contexto que o Brasil ocupa uma posição singular. 

A estratégia trumpista 

No final de 2025, a administração Donald Trump divulgou sua nova Estratégia de Segurança Nacional. O documento parte de um diagnóstico claro: os Estados Unidos enfrentam uma competição estratégica com a China, perderam influência em diversas regiões do mundo e pretendem recuperá-la, sobretudo no Hemisfério Ocidental. 

Dentro dessa estratégia, a América Latina voltou ao centro da política externa norte-americana. E nenhum país possui peso comparável ao Brasil. 

Maior economia da região, integrante dos BRICS e principal parceiro da China na América Latina, o Brasil reúne recursos naturais estratégicos, capacidade industrial, liderança regional e projeção internacional que o transformam em peça decisiva da disputa entre Washington e Pequim. 

O cientista político Pedro Costa Júnior sintetizou essa realidade numa expressão que resume o momento: o Brasil tornou-se a joia da coroa. 

A metáfora ajuda a compreender por que episódios aparentemente desconexos — tarifas comerciais, pressões diplomáticas, ofensivas contra os BRICS, disputas em torno das plataformas digitais, aproximação entre Donald Trump e Flávio Bolsonaro e crescente interesse norte-americano pelo processo eleitoral brasileiro — revelam uma mesma estratégia. 

Desde seu retorno à Casa Branca, Trump recolocou a América Latina entre as prioridades de Washington. O objetivo declarado é conter a expansão da influência chinesa e recuperar a liderança norte-americana sobre o continente. 

Nesse cenário, o Brasil assume uma posição decisiva. 

Hoje, o Brasil permanece fora do conjunto de governos de direita, centro-direita ou extrema direita que, em diferentes graus, mantêm alinhamento político com Washington. Nenhum outro país da América do Sul reúne, simultaneamente, liderança regional, participação nos BRICS e uma parceria estratégica tão profunda com a China. 

Por isso, a eleição presidencial de 2026 passou a envolver muito mais do que a escolha do próximo presidente da República. Ela também ajudará a definir qual orientação internacional prevalecerá na maior economia da América Latina. 

A campanha atravessa as fronteiras 

É nesse ponto que a candidatura de Flávio Bolsonaro passa a adquirir um significado que ultrapassa a política doméstica. Quanto maiores suas dificuldades para ampliar alianças dentro da direita brasileira, maior se torna sua importância para a estratégia internacional liderada por Donald Trump. 

Desde o início do ano, o candidato do PL intensificou seus contatos com Donald Trump, Marco Rubio e outras autoridades norte-americanas. Ao mesmo tempo, sua campanha incorporou temas recorrentes da ultradireita internacional: denúncias de censura, defesa irrestrita das plataformas digitais, ataques ao Judiciário e questionamentos antecipados sobre a segurança do sistema eleitoral. 

O método não é novo. Foi empregado por Donald Trump após a eleição norte-americana de 2020, que desembocou na invasão do Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. E repetido por Jair Bolsonaro em 2022, que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023 à Praça dos Três Poderes. 

Lançar dúvidas sobre as urnas antes da votação, manter mobilizada uma base inconformada e, diante de uma eventual derrota, contestar a legitimidade do resultado. A novidade de 2026, porém, está em outro aspecto. 

Essa narrativa deixou de circular apenas dentro das fronteiras brasileiras. Passou a integrar um ecossistema internacional formado por governos, think tanks, plataformas digitais, influenciadores e movimentos políticos articulados em torno da liderança exercida por Donald Trump sobre a ultradireita contemporânea. 

A campanha presidencial brasileira deixou de ser apenas uma disputa nacional. Passou a integrar uma disputa geopolítica de alcance internacional. 

O anticristo 

A internacionalização da eleição brasileira não se limita à geopolítica. Ela alcança também a comunicação, as plataformas digitais, as redes sociais e a religião. 

Em entrevista ao Brasil 247, o pastor e teólogo Ariovaldo Ramos observou que parte da ultradireita internacional passou a instrumentalizar a fé cristã como instrumento de mobilização política — fenômeno consolidado nos Estados Unidos e hoje reproduzido em diferentes países da América Latina. Nesse contexto, o pastor afirmou que Lula enfrentaria “um anticristo” nesta eleição, numa referência a Donald Trump. 

A observação evidencia uma mudança importante: a disputa de 2026 mobiliza valores culturais, identidades religiosas e redes internacionais de comunicação. 

O mesmo ocorre no ambiente digital. 

Muito antes da propaganda eleitoral, a campanha já se desenvolvia em torno das plataformas digitais, da chamada liberdade de expressão, da aproximação de autoridades norte-americanas com influenciadores brasileiros e da antecipação do debate sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas. 

Observados em conjunto, esses movimentos mostram que a eleição brasileira passou a integrar um ambiente transnacional no qual diplomacia, tecnologia, comunicação, política e religião atuam de forma articulada. 

Lula reage 

Foi diante desse cenário que o governo Lula começou a responder de maneira cada vez mais explícita. Primeiro, no plano diplomático. 

Em artigo publicado no Washington Post, Lula dirigiu-se diretamente à opinião pública norte-americana para defender a soberania brasileira e rejeitar qualquer tentativa de interferência externa.  Na sequência veio a resposta estratégica. 

Em longa conversa telefônica com Xi Jinping, Lula ampliou a coordenação entre Brasil e China em áreas como inteligência artificial, satélites, minerais estratégicos e inovação tecnológica. Mais importante do que os acordos, porém, foi o conteúdo político da conversa. 

Segundo a agência oficial chinesa Xinhua, Xi Jinping reafirmou o apoio da China ao Brasil na rejeição a interferências externas. Lula respondeu defendendo o aprofundamento da parceria estratégica entre os dois países e o fortalecimento da coordenação no âmbito dos BRICS e do Sul Global. 

Foi na Convenção Nacional do PT, que oficializou a candidatura à reeleição, que essa interpretação ganhou sua formulação mais explícita. 

Eixo central da campanha 

Ao afirmar que o Brasil precisava estar preparado para impedir que acontecesse aqui o que ocorreu recentemente na Venezuela, Lula deslocou a campanha para um terreno muito mais amplo do que a disputa eleitoral. Em seguida, sintetizou essa preocupação numa frase que se tornou um dos momentos centrais de seu discurso: 

“Eu quero estar preparado para que ninguém invada esse país para levar o presidente como ele invadiu. Eu quero estar preparado para a paz, não é para a guerra. Quero estar preparado para ninguém ousar se fazer de besta conosco.” 

Essa declaração marca uma inflexão importante. Pela primeira vez desde a redemocratização, um presidente candidato à reeleição coloca a defesa da soberania nacional entre os eixos centrais da campanha. 

Ao lado do artigo publicado no Washington Post, da conversa com Xi Jinping e da reação brasileira às pressões externas, ela revela uma mudança de escala: a eleição presidencial deixa de ser tratada apenas como uma disputa política interna e passa a ser apresentada também como uma questão de soberania nacional. 

É essa mudança que ajuda a compreender por que a sucessão presidencial brasileira passou a despertar atenção muito além de suas fronteiras. Ela passou a integrar uma disputa mais ampla sobre o lugar que o Brasil ocupará na reorganização da ordem internacional. 

O que realmente está em disputa 

A eleição presidencial de 2026 passou a integrar uma disputa geopolítica que ultrapassa as fronteiras nacionais.  Não está em jogo apenas quem governará o Brasil nos próximos quatro anos. Também se discute qual será o lugar do país na reorganização da ordem internacional. 

De um lado, está a estratégia norte-americana de recuperar influência sobre a América Latina e conter o avanço da China. De outro, a continuidade de uma política externa baseada na autonomia estratégica, no fortalecimento dos BRICS, na parceria com a China e na aproximação com o Sul Global. 

Essa dimensão internacional não substitui os temas que tradicionalmente definem uma eleição presidencial — emprego, renda, inflação, saúde, educação, segurança pública. Mas amplia o significado da escolha dos eleitores. 

O resultado das urnas será acompanhado pelas principais potências do mundo porque suas consequências ultrapassam o território brasileiro. É justamente nesse contexto que a metáfora proposta por Pedro Costa Júnior revela toda a sua força. Na disputa pela influência sobre a América do Sul, o Brasil tornou-se a joia da coroa. 

Mas a imagem exige uma ressalva. Joias podem ser disputadas. Nações soberanas, não. Nenhuma potência estrangeira — aliada, adversária ou parceira comercial — possui legitimidade para decidir o futuro político do Brasil. Essa decisão pertence exclusivamente aos brasileiros.  

Em outubro de 2026, os eleitores escolherão um presidente da República. Mas escolherão também qual será o lugar do Brasil em um mundo cada vez mais marcado pela competição entre as grandes potências. 

É essa a dimensão histórica desta eleição. Porque, no fim, a verdadeira joia da coroa nunca foi apenas o território brasileiro, suas riquezas naturais ou sua posição estratégica. Sempre foi o direito soberano do povo brasileiro de decidir, pelo voto, o seu próprio destino. 

E, como diz Lula em seus discursos recentes: “soberania não se negocia.” 

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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