Confissões de uma cadeira empoeirada
por Henrique Morrone
Não fui sempre assim.
Houve um tempo em que me ocupavam com frequência.
Não por conforto, nunca fui a mais confortável,
mas por envergadura.
Poucos estavam à altura.
Daqui, via-se melhor.
Os primeiros a sentar falavam pouco.
Observavam.
Aguardavam o momento certo de intervir.
Havia hesitação.
E, por isso, alguma responsabilidade.
Com o tempo, isso mudou.
As falas tornaram-se mais seguras.
Corriqueiras.
Às vezes, pueris.
As decisões, mais rápidas.
As dúvidas, menos visíveis.
Não sei dizer quando deixei de ser necessária.
Não houve aviso.
Apenas passei a ser evitada.
A mesa continuou sendo usada.
Os papéis continuaram circulando.
As vozes seguiram firmes.
Mas já não havia peso sobre mim.
Foi então que a poeira começou.
No início, era quase nada.
Um sinal leve de intervalo.
Depois, acumulou.
Ninguém a limpou.
Não por descuido.
Mas porque não fazia falta.
Ainda assim, tudo prosseguiu.
As decisões foram tomadas.
Registradas.
Divulgadas com clareza.
A famigerada ata sairia em breve.
Como sempre, à quarta-feira.
Nada, ao que consta, saiu do previsto.
Não me cabe julgar.
Tampouco confessar.
Fui feita para sustentar, não para decidir.
Mas aprendi a reconhecer ausência.
E posso dizer:
há decisões que continuam sendo tomadas
mesmo quando já não há quem esteja à altura delas.
Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário