4 de agosto de 2026

Confissões de uma cadeira empoeirada, por Henrique Morrone

A mesa continuou sendo usada. / Os papéis continuaram circulando. / As vozes seguiram firmes.
Dreamstime-Marjancermelj - Reprodução

A cadeira, antes ocupada por pessoas responsáveis, foi gradualmente evitada e acumulou poeira.
Decisões continuaram a ser tomadas com segurança, mesmo sem a presença daqueles à altura delas.
O texto reflete sobre ausência e responsabilidade, escrito pelo economista Henrique Morrone.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Confissões de uma cadeira empoeirada

por Henrique Morrone

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Não fui sempre assim.

Houve um tempo em que me ocupavam com frequência.
Não por conforto, nunca fui a mais confortável,
mas por envergadura.

Poucos estavam à altura.

Daqui, via-se melhor.

Os primeiros a sentar falavam pouco.
Observavam.
Aguardavam o momento certo de intervir.

Havia hesitação.
E, por isso, alguma responsabilidade.

Com o tempo, isso mudou.

As falas tornaram-se mais seguras.
Corriqueiras.
Às vezes, pueris.

As decisões, mais rápidas.
As dúvidas, menos visíveis.

Não sei dizer quando deixei de ser necessária.

Não houve aviso.

Apenas passei a ser evitada.

A mesa continuou sendo usada.
Os papéis continuaram circulando.
As vozes seguiram firmes.

Mas já não havia peso sobre mim.

Foi então que a poeira começou.

No início, era quase nada.
Um sinal leve de intervalo.

Depois, acumulou.

Ninguém a limpou.

Não por descuido.
Mas porque não fazia falta.

Ainda assim, tudo prosseguiu.

As decisões foram tomadas.
Registradas.
Divulgadas com clareza.

A famigerada ata sairia em breve.
Como sempre, à quarta-feira.

Nada, ao que consta, saiu do previsto.

Não me cabe julgar.
Tampouco confessar.

Fui feita para sustentar, não para decidir.

Mas aprendi a reconhecer ausência.

E posso dizer:

há decisões que continuam sendo tomadas
mesmo quando já não há quem esteja à altura delas.

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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