Folha, não dá mais pra ler
por Laura Santos
Hoje já sou uma jovem senhora com um tanto de vergonha de dizer a idade talvez devido ao machismo. Mas comecei a ler jornal desde muito cedo. Fui meio que obrigada pelo meu pai, aos 12 anos, a ler a Folha de São Paulo aos domingos. Depois do susto inicial, tomei gosto pela coisa e aos 15, a assinante da Folha lá em casa era eu.
Adorava as colunas De Carlos Heitor Cony e Clovis Rossi. E às quintas-feiras, esperava ansiosamente pela coluna do Contardo Calligaris na Ilustrada. Se não me falha a memória, Rubem Alves também tinha uma coluna semanal ou aparecia por lá com frequência, em seu Quarto de Badulaques. E Ferreira Gullar também também tinha uma coluna especial.
Adorava o Gilberto Dimenstein, o Marcelo Gleiser, o Demétrio Magnoli que depois na universidade descobri ter opiniões questionadíssimas , adorava odiar a Eliane Catanhede desde sempre e amava saber da existência dos dinossauros Antônio Ermínio de Moraes e José Sarney.
Adorava as tirinhas do Angeli, do Gonzalez (Niquel Náusea), mas a minha preferida desde sempre se chama Laerte. Sorria com o Macaco Simão Urgente.
Também adorava a Ilustríssima aos domingos, mas não me lembro bem se tinha esse nome. Foi lá que conheci Safatle e Chico de Oliveira. E também me encantava sempre que saía algo relacionado à literatura brasileira.
O tempo passou.
Depois de um milhão e quinhentas voltas que o mundo dá, entrei na universidade, aprendi as palavras de Marx, a cada dia lia o jornal mais desconfiada e chegou aquele ponto. Eu não aguentava mais. Nem pra saber o ponto de vista de parte da sociedade brasileira. Não dava.
Não sei se a Folha foi se deteriorando, se eu fui ficando mais exigente ou os dois. Só sei que depois de mensalão, de golpe do Vampirão e de Lava-a-jato, impossível ler o jornal sem passar muito mal. Na verdade, vou poupar minha ex-amada Folha. Impossível ler a imprensa comercial sem ter um troço. O caso do Lulinha é o mais novo velho exemplo de como as coisas funcionam na chamada Grande Imprensa, apelidada de PIG (Partido da Imprensa Golpista) pelo saudoso Paulo Henrique Amorim.
Mas para além da política propriamente dita, um simples fato nos últimos meses conseguiu me deixar estupefata. O jeito como alguns colunistas da Folha trataram as pessoas trans. Não sei se cometeram crime ou não. Mas penso que (isso não quer dizer que seja verdade porque não sou autoridade no assunto) a opinião de alguns deles foi transfóbica. E ponto. Nada mais.
Assim como considero racismo quando antigamente a Igreja Católica e Companhia dizia que negros não possuiam alma, considero transfobia pura e simples o fato de, em 2026, uma pessoa trans ou qualquer pessoa não binária ser questionada. Racismo não se defende abertamente nem nos jornais comandados por bilionários. Transfobia também deveria ser assim.
Os tempos são outros. As ideias retrógradas não. Esperar o que de um jornal que já apoiou o golpe de 1964, publicou editoriais contra a política de cotas e outros inúmeros etcéteras que jamais escreverei aqui para não correr o risco de ultrapassar os limites de nossa Carta Magna? Por ora, na singela opinião de quem adorava ler notícias e acumulava pilhas e pilhas do jornal que ora critica, ouso a afirmar o seguinte: Folha, não dá mais pra ler.
Laura Santos – Neguinha da Fé, também conhecida como Laura Santos, advogada e doutoranda em Filosofia Política pela Universidade Federal de Sergipe. Parte de sua pesquisa, em andamento, foi realizada na Universidade de Westminster, na cidade de Londres/UK.
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