“Estou há 24 anos na política…” — e daí, Flávio Bolsonaro?
por Luís Delcides
Vinte e quatro anos de vida pública e nem uma resposta coerente. Flávio Bolsonaro foi ao Canal Livre para bancar o bravo, mas saiu como sempre: no grito, no desvio e na completa incapacidade de dizer algo que não seja “papai” ou “indignação”. O tempo não substitui competência — e a entrevista deixou isso mais claro do que nunca.
Assistir ao ‘Canal Livre’ do último domingo foi um exercício de paciência quase sobre-humano. Ver o senador Flávio Bolsonaro ocupar aquele espaço com a desenvoltura de quem acredita que o tempo — e não a competência — é o que credencia um homem a liderar o país é, no mínimo, indigesto. Flávio é o retrato acabado do que há de pior na política brasileira contemporânea: o ódio travestido de indignação, a vociferação que substitui o argumento, a seletividade moral de quem aponta o dedo para os outros mas esquece de olhar para o próprio umbigo.
“Estou há 24 anos na política”, repetiu ele, como quem entoa um mantra vazio. Vinte e quatro anos. Um número curioso, aliás, para alguém que construiu sua trajetória não no mérito, mas no sobrenome. Vinte e quatro anos e o que Flávio Bolsonaro tem a mostrar? Uma lojinha de chocolates em um shopping do Rio de Janeiro? Um gabinete que empregava parentes e agregados em plena “rachadinha”? Ou será que os 24 anos se referem ao tempo que ele passou aprendendo a arte da escapatória, do “não sei”, do “não me recordo”?
Quando o mediador Rodolfo Schneider, com a precisão de quem conhece o ofício, perguntou sobre economia — o que o senador tem a apresentar ao eleitor sobre plano e projeto para o país? —, a resposta foi um show de pieguice e desvio. Flávio começou a “chorar” falando do pai. Do legado. Da missão. Da indignação. Mas de economia, silêncio. De projeto, nada. É o velho truque do “tio do pavê”, do irmão Horácio da Igreja Batista que ia para o culto com a Bíblia, um revólver 38 e uma cartela de remédio para pressão: muito espetáculo, pouco conteúdo.
E então veio o discurso do “homem cordial” — aquele que se diz indignado com a suposta epidemia da impunidade, mas faz questão de desrespeitar um ministro do Supremo Tribunal Federal e o Presidente da República em exercício. Crítica? Não. O que se ouviu foi o mais puro papo de balcão de padaria, daquela conversa de café tirado no copo da Nadir Figueiredo (e que fique claro: nada contra a Nadir Figueiredo!). Flávio enche a boca para falar em “quadruplicar penas” — ah, Flávio, não me faça rir. Proposta que nem passa no Congresso e, se passar, será barrada pelo Supremo. Nosso ordenamento jurídico veda o retrocesso, caro senador. Mas você, que é advogado, deveria saber disso, não?
O problema não é bancar o bravo. O problema é que, quando a competentíssima jornalista Adriana Araújo perguntou sobre a rejeição de 10 pontos entre o eleitorado feminino e as propostas para o combate à violência contra a mulher, Flávio se enrolou como quem tenta desembaraçar um novelo de lã com as mãos sujas de graxa. Misturou alhos com bugalhos — vagabundos, operações, independência financeira, duas viaturas. Resposta? Nenhuma. Demonstrando, com sua própria fala, um desconhecimento profundo das competências constitucionais que um advogado deveria dominar.
E quando Fernando Mitre perguntou sobre as urnas eletrônicas, o senador se enredou ainda mais. Enrolou-se, gaguejou, desviou. Como sempre. É o suco da escapatória, da frouxidão intelectual de quem não tem estofo para o debate, mas insiste em ocupar um espaço que exige, no mínimo, preparo.
Flávio, o argumento dos “24 anos de vida pública” não cola. Não se sustenta. Não basta repeti-lo como se fosse um salvo-conduto para a incompetência. A política não é um posto vitalício herdado do pai. Não é sobre estar há 24 anos em algum lugar, mas sobre o que se fez nesse tempo. E, pelo visto, o que Flávio tem a mostrar é um vazio retórico, uma incapacidade crônica de responder perguntas diretas e uma arrogância que só faz aumentar o fosso entre ele e o eleitor.
“Qualquer coisa se usa como narrativa”, disse ele. Pois é, Flávio. Mas narrativa sem proposta é apenas choradeira. E a sua, convenhamos, já está mais gasta do que os 24 anos que você insiste em exibir como troféu.
Luís Delcides – Advogado e jornalista
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