O “retorno” do Império e a velha Doutrina sob novas formas
por Wesley Sousa
A retomada da Doutrina Monroe pela política externa estadunidense sob Donald Trump, apresentada em sua formulação contemporânea como uma espécie de “Doutrina Donroe”, permite pensar o presente não apenas como uma conjuntura geopolítica específica, mas como manifestação de contradições mais profundas do capitalismo: a expansão territorial, o domínio de povos “estrangeiros” e a guerra como máquina de aceleração de capital. O que está em jogo, nesse movimento, não é simplesmente o retorno de uma política imperialista conhecida, mas a atualização de uma forma histórica de dominação diante de uma ordem mundial em transformação: as potências tecnológicas que, agora, têm gestões políticas como nunca antes vistas, atuam também como peças centrais no tabuleiro da luta de classes. A prioridade atribuída pelos Estados Unidos ao hemisfério ocidental, acompanhada da tentativa de restringir a presença de potências extra-hemisféricas, sobretudo a China, recoloca a América Latina no interior de uma estratégia de disputa por recursos, territórios, mercados e posições geopolíticas.
Para lembrar György Lukács, o que se coloca em primeiro plano é o problema da relação entre continuidade histórica e transformação da forma. A Doutrina Monroe, formulada em 1823, já continha uma contradição fundamental: ao mesmo tempo em que se apresentava como princípio de oposição às intervenções coloniais europeias, estabelecia as bases para a constituição do próprio hemisfério como esfera privilegiada de influência estadunidense. Ao longo do século XX, essa matriz foi depois reelaborada — do Corolário Roosevelt ao Corolário Kennan e ao Corolário Reagan — até encontrar, no governo Trump, uma nova configuração. Não se trata, assim, de uma simples repetição histórica. A permanência da estrutura de poder manifesta-se justamente através de sua capacidade de assumir novas formas.
Essa atualização da Doutrina Monroe pode ser compreendida também à luz da formulação da cientista política Ellen Meiksins Wood, em O império do capital. Para a autora, o imperialismo capitalista moderno distingue-se das formas anteriores de império porque sua dominação não depende necessariamente da conquista territorial ou da administração colonial direta, mas da capacidade de submeter diferentes Estados aos imperativos econômicos do capital, preservando na fachada a sua soberania política. O poder econômico, contudo, não dispensa a coerção extraeconômica: ao contrário, depende dela para garantir as condições gerais de reprodução das relações capitalistas. Essa formulação permite compreender a atualidade da política estadunidense para a América Latina: a retomada de uma linguagem explicitamente hemisférica não significa de pronto o retorno ao imperialismo territorial do século XIX, mas a combinação entre pressão econômica, controle de mercados e recursos estratégicos, poder financeiro e capacidade militar.
Com a nova organização da extrema-direita em nível global, a transformação política das formas institucionais não elimina, mas aprofunda, suas determinações anteriores; frequentemente, conserva-as agora sob novas configurações. A dialética entre permanência e transformação torna-se, desse modo, fundamental para compreender fenômenos históricos que parecem retornar, mas que retornam em condições modificadas.
Essa perspectiva permite evitar duas interpretações igualmente insuficientes do atual momento. A primeira seria compreender a política de Trump como uma ruptura absoluta com a ordem internacional anterior. A segunda consistiria em afirmar que nada mudou e que estaríamos somente diante da velha política imperialista estadunidense. A questão decisiva encontra-se precisamente entre essas duas posições: há continuidade na estrutura de dominação, mas transformação na forma histórica pela qual ela se realiza. O chamado “Corolário Trump” procura reconstruir a hegemonia estadunidense no hemisfério ocidental em um contexto no qual a supremacia dos Estados Unidos já não possui o mesmo caráter incontestado de décadas anteriores. A presença econômica e estratégica da China/Rússia, a disputa por influências regionais, as transformações nas cadeias globais de produção e o aprofundamento das categorias sociais mais essenciais do capitalismo (expansionismo, expropriação e acúmulo de capital, etc.) modificaram as condições nas quais a hegemonia estadunidense precisa ser exercida.
Nesse sentido, pensar a posição latino-americana no atual contexto não constitui um espaço externo ao centro do sistema, tampouco pode ser compreendida como uma região inteiramente determinada de fora. O que a conjuntura atual evidencia é que a periferia continua ocupando uma posição decisiva na reprodução capitalista. A disputa contemporânea não se limita aos mercados consumidores latino-americanos. Ela envolve recursos energéticos, alimentos, terras, infraestrutura, rotas comerciais e posições geopolíticas. A América Latina tem espaço estratégico de uma economia mundial marcada pela disputa entre grandes potências. O que parecia, em determinado momento, uma questão periférica vai se mostrar como questão preponderante. O Brasil, óbvio, não fica de fora.
A conjuntura agora recoloca, em escala geopolítica, um problema que é da ordem do discurso, qual seja, o da soberania nacional. Ele “convive” com relações econômicas assimétricas; a defesa do livre mercado convive com medidas protecionistas; a linguagem da “democracia” convive, sem dúvidas, com práticas de coerção internacional; a defesa da ordem internacional convive com sua violação quando os interesses estratégicos das grandes potências estão em jogo. A contradição não é um acidente exterior ao sistema: ela constitui sua forma de funcionamento.
A violência econômica e política pode aparecer sob a linguagem da segurança; a intervenção pode ser apresentada como cooperação; a disputa por recursos pode aparecer como defesa da estabilidade; a subordinação geopolítica pode ser convertida em “parceria estratégica”. A ideologia não funciona apenas porque oculta a realidade, mas porque consegue apresentar relações contraditórias como se fossem racionalmente necessárias. No Brasil, isso pode ser notado pelo trato normalizado que as mídias tradicionais e as instituições têm dado ao problema.
Nesse contexto, a atualidade da Doutrina pode ser compreendida como um caso privilegiado dessa tensão. A linguagem contemporânea da segurança hemisférica transforma uma relação histórica de poder em uma questão aparentemente técnica: combate ao narcotráfico, controle migratório, segurança energética, proteção das cadeias de suprimentos e contenção da influência estrangeira. O conteúdo político dessas categorias, contudo, não desaparece; ao contrário, torna-se mais difícil de perceber justamente porque é incorporado a uma linguagem administrativa e securitária. A nova forma da hegemonia não precisa necessariamente declarar-se imperial para produzir efeitos imperialistas.
Essa questão aproxima-se também daquilo que Paulo Arantes, por sua vez, identificou em sua reflexão sobre a modernização brasileira e sobre a posição periférica: a periferia não é simplesmente um estágio anterior do desenvolvimento, mas um espaço em que as contradições do capitalismo podem aparecer de maneira particularmente concentrada. A periferia funciona, nesse sentido, como uma espécie de laboratório histórico no qual se tornam visíveis processos que, posteriormente, podem alcançar o centro. A precarização, a excepcionalidade permanente, a militarização da vida social e a combinação entre modernização tecnológica e regressão social são elementos que desafiam a oposição simples entre centro moderno e periferia atrasada.
Essa inversão é importante para interpretar o presente. Talvez a questão já não seja apenas compreender como a periferia se aproxima do centro, mas perguntar se determinadas características atribuídas à periferia não estão se tornando cada vez mais gerais. A justificada descrença com a “democracia liberal”, o naufrágio da fé na “esfera pública” racional, a expansão da militarização, o fortalecimento de formas da extrema-direita, a concentração econômica e a transformação da política em administração permanente da crise – com o avanço das BigTechs – indicam que algumas experiências antes consideradas específicas do mundo periférico passam a adquirir uma dimensão global.
Na América Latina, lembrando aqui Roberto Schwarz, a relação entre modernização e dependência, entre soberania formal e subordinação material, entre instituições liberais e estruturas oligárquicas, entre desenvolvimento econômico e desigualdade extrema, constitui uma experiência histórica que pode iluminar a configuração atual do capitalismo mundial. Se a forma social periférica é resultado de uma combinação específica entre determinações universais do capitalismo e condições históricas particulares, então ela pode revelar aspectos do universal que permanecem ocultos quando observados exclusivamente a partir do centro.
A atualidade da Doutrina Monroe é a continuidade da problemática da forma em termos do presente. O imperialismo não desapareceu, certamente; aprofundou, sem dúvidas, a sua forma. A dependência não desapareceu; transformaram-se seus mecanismos de maiores ingerências externas. A periferia não foi superada pela globalização; sua posição foi reconfigurada como “condição” permanente na escala mundial de produção de mercadorias. E a hegemonia estadunidense não opera com as mesmas condições do século XX, porque o mundo que a sustentava sofreu profundas transformações.
A chamada “Doutrina Donroe” pode ser entendida, desse ponto de vista, como uma tentativa de produzir uma nova forma política para uma hegemonia em processo de reacomodação. A dureza e ojeriza da linguagem trumpista não deve ser tomada apenas como excentricidade pessoal ou como desvio da tradição diplomática estadunidense. Ela exprime, sem máscaras, uma transformação mais profunda: diante da perda relativa de capacidade de dominar unilateralmente o sistema mundial de mercadorias, a hegemonia tende a recorrer de maneira mais explícita aos instrumentos de coerção, pressão econômica, controle territorial e militarização dos países através de governos sicários – quando não realizadas as “missões humanitárias”.
Isso permite compreender por que o momento atual exige uma teoria capaz de articular história, forma e estrutura. A questão não é saber se os Estados Unidos “voltaram” ao imperialismo, mas compreender que tipo de imperialismo emerge quando a ordem mundial que sustentava sua hegemonia se encontra em crise. Do mesmo modo, não basta perguntar o quanto a América Latina continua dependente; é necessário investigar como a dependência se reorganiza em um capitalismo marcado pela disputa entre grandes potências, pela crise ambiental, pela reorganização das cadeias produtivas/expropriativas e pela crescente centralidade dos recursos estratégicos e informacionais.
Em suma, de acordo com a interpretação de Wood, temos algo que se intensifica ainda mais: menos do que uma contingência, a necessidade da forma da dominação resulta da particularidade da existência inexorável das relações imperialistas na batuta dos “Estados Nacionais”. Nesse sentido, a chamada “nova Doutrina Monroe” pode ser interpretada como uma tentativa de assegurar, por meios econômicos e geopolíticos combinados, as condições de reprodução da hegemonia estadunidense em uma ordem mundial na qual sua supremacia econômica já não é mais incontestada.
Nos últimos anos, diversos países latino-americanos passaram a serem geridos por governos alinhados à extrema-direita, em consonância ideológica e discursiva com o léxico do império estadunidense. O uso discurso da “agente conservadora” tem como pressuposto prático a invenção fantasmagórica da “luta contra o narcotráfico”, o “terrorismo” e a “esquerda woke”. Assim, a retomada da Doutrina Monroe pelo governo Trump (com a submissão da União Europeia) torna visível a seguinte estrutura: aquilo que aparece como uma “nova política externa estadunidense” é, ao mesmo tempo, a expressão de uma transformação da ordem mundial e a atualização de uma relação histórica que atravessa a formação do capitalismo latino-americano. Essa é a atualidade do império do capital, agora sob novas formas.
Referências:
ARANTES, Paulo Eduardo. O novo tempo do mundo: e outros estudos sobre a era da emergência. São Paulo: Boitempo, 2014.
LUKÁCS, György.O romance histórico. Tradução de Rubens Enderle. 1° edição. São Paulo: Boitempo, 2011.
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro. 4° edição. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2000.
WOOD, Ellen Meiksins. O império do capital. Tradução de Paulo Castanheira. São Paulo: Boitempo, 2014.
Wesley Sousa – Doutorando em Filosofia pela UFMG. Um dos organizadores da “Quadrilogia Filosofia da Música” – 4 vols. (Ed. PPGFILUFMG, 2025 & 2026).
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário