7 de setembro de 2026

Uma política pública para o empreendedorismo, por Luís Nassif

É preciso reconhecer o novo padrão de trabalho, admitir a força das plataformas e definir ações para equilibrar a disputa.
Cândido Portinari

Novas formas de trabalho via plataformas geram flexibilidade, mas mantêm desigualdade entre capital e trabalho.
Trabalhadores em apps enfrentam ganhos irregulares e falta de direitos garantidos pela CLT, como férias e previdência.
Propostas incluem regulação, orientação, associativismo e transparência algorítmica para equilibrar relação trabalhista.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Republicado com informações sobre a Austrália

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Há uma enorme dificuldade dos chamados setores progressistas em entender as novas modalidades de trabalho. Tecnologia, plataformas e redes sociais abriram espaço para novas formas de ocupação, muitas vezes confundidas — deliberadamente, pelo discurso das próprias plataformas — com empreendedorismo.

Há uma mudança estrutural no mercado, mas que, no fundo, apenas repete, em nova roupagem, a velha disputa capital x trabalho.

Há o processo de uberização, os trabalhadores em aplicativos tem horário flexível, ganhos irregulares e uma perspectiva vaga de futuro. Muitos preferem a flexibilidade do trabalho à segurança, e às amarras, da CLT. Mas também porque há maior oferta de vagas nas plataformas.

Há, também, donas de casa oferecendo marmitas através dos aplicativos.

Há duas lógicas em jogo, e vale não confundi-las: a primeira é a flexibilidade do trabalho, poder escolher o turno, as horas. A segunda é a relação direta entre o esforço despendido e a receita auferida pelo entregador. Na CLT essa relação é mediada — o salário é fixo, independe do esforço do dia, e vem acompanhado de direitos (férias, 13º, FGTS, previdência) que o aplicativo não paga.

Especialistas já descreveram o violento processo de extração de riqueza trazida pelas plataformas, em todos os campos do trabalho, do trabalho artístico, esmagado pelas Spotifys da vida, ao trabalho de entrega. É justamente esse mecanismo de extração — o algoritmo que decide quem trabalha, quando e por quanto — que fica invisível para o trabalhador e para o regulador.

O primeiro passo é reconhecer a inexorabilidade do novo padrão de trabalho. O segundo, é admitir a diferença de força entre as plataformas e os trabalhadores. A terceira é definir o conjunto de ações para equilibrar a disputa.

Elas passam pelos seguintes pontos:

  1. Regulação

Definir piso de pagamento para viagens e trabalhos individuais, e regular os aspectos mais abusivos — desconexão arbitrária sem contraditório, mudança unilateral de regras de pontuação, exclusividade disfarçada.

2. Orientação

Oferecer assessoria para organização e melhoria da produção. Para pequenas indústrias e comércio já existe o sistema S. Para pessoas físicas, a orientação virtual — parceria entre Sebrae, sindicatos e centrais sindicais — é o caminho mais rápido, sem depender de estrutura nova.

3. Estímulo ao associativismo.

Criação de estruturas de apoio à Pequenas e Micro empresas e empresas individuais. Orientação jurídica, legal e microcrédito.

4. Transparência algorítmica

Sem isso, os três pontos anteriores operam no escuro. Não dá para negociar piso, orientar renda ou organizar associativismo sem saber como o algoritmo decide quem trabalha, quanto tempo e por quanto recebe. É preciso um direito de acesso do trabalhador aos critérios que definem sua remuneração e seu ranking na plataforma — uma espécie de habeas data algorítmico —, e obrigação de a empresa justificar desconexões e quedas bruscas de demanda direcionada a um usuário específico.

O caso australiano (com Inteligência Artificial)

Decisões da Austrália na proteção dos trabalhadores de aplicativos
A Austrália, sob o governo trabalhista (centro-esquerda), implementou uma das legislações mais avançadas do mundo para trabalhadores de plataformas digitais (entregadores, motoristas de app etc.):

  1. Marco legal (Closing Loopholes Act, 2023–2024) O Parlamento aprovou reformas que criaram a categoria de “trabalhador semelhante a empregado” (employee-like worker) — um meio-termo entre autônomo e empregado formal, aplicável a quem atende pelo menos dois destes critérios: baixo poder de negociação, remuneração igual ou inferior à de um empregado em função equivalente, ou pouca autonomia sobre a execução do trabalho.
  2. Poderes da Fair Work Commission (FWC) A partir de 26 de agosto de 2024, a FWC (órgão regulador trabalhista) passou a ter autoridade para determinar que as plataformas digitais cumpram padrões mínimos, incluindo:
    • Remuneração
    • Adicionais (penalty rates)
    • Aposentadoria (superannuation)
    • Prazos de pagamento
    • Manutenção de registros
    • Seguro
    • Regras de desativação de conta
    Importante: a FWC não pode regular horas extras nem escalas de trabalho — o governo argumenta que isso preserva a flexibilidade que atrai os trabalhadores para esse modelo.
  3. Piso salarial Trabalhadores de entrega por aplicativo passaram a ter direito a pelo menos A$ 31,30/hora (acima do salário mínimo nacional de A$ 26,44/hora), permanecendo responsáveis pelo seguro do veículo usado nas entregas.
  4. Proteção contra desativação injusta Desde 26 de agosto de 2024, esses trabalhadores estão protegidos contra desligamento arbitrário das plataformas. O Código de Desativação de Plataforma de Trabalho Digital (Digital Labour Platform Deactivation Code), em vigor desde 25 de fevereiro de 2025, obriga as empresas a seguir processos específicos (aviso prévio, justificativa, direito de resposta) antes de banir um trabalhador do app.
    Esse conjunto de medidas foi descrito pelo próprio governo como legislação “world-leading” — a mais abrangente do tipo aplicada até agora a economias de plataforma em nível nacional.
    Sources:
    • Austrália define salário mínimo e seguro para entregadores de aplicativos | CNN Brasil
    • World-leading legislation to protect gig workers | Ministers’ Media Centre
    • Australia reshapes gig economy regulation, introducing new rights and responsibilities
    • Unfair Deactivation: New Protections for Gig Economy Workers in Australia
    • ‘Gig workers’ get minimum standards from Monday. Here’s what will change
    • Minimum standards for contractors – Fair Work Ombudsman
    • Regulated workers and businesses hub | Fair Work Commission
    • Australia’s ‘World-Leading’ Minimum Pay And Insurance Rules for Gig Delivery Workers

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. J. Alberto

    17 de agosto de 2026 2:39 pm

    Muito desafiador, porque a regulação gerará inflação, na medida em que o regulador estabelecer que parte do dinheiro que circula na relação entre plataforma e empresa será destinado a seguro e aposentadoria.
    Portanto, a regulação precisa de timing certo para vigorar, fora de um período inflacionário. Senão, o trabalhador vai acusar o governo de gerar impacto negativo imediato na vida dele, mesmo que a intenção tenha sido o contrário.
    Além disso, embora o artigo tenha mencionado a regulação do poder das plataformas de banir os trabalhadores, eu particularmente continuo convencido de que o governo precisa ter MUITO fácil acesso aos registros para que as evidências da relação de trabalho não se percam com o tempo. E também prever uma multa pesada para quem banir arbitrariamente sem direito de defesa.
    Afinal, se um aplicativo deseja explorar mão de obra de forma regular, ele precisa consentir com que as evidências da relação do trabalho não podem desaparecer, nem mesmo se ele alegar que ele mesmo guarda essas informações e que pode fazer o que quiser com isso.

  2. c

    19 de agosto de 2026 9:46 am

    Baita analise… Muitos Municípios tentam fazer isso na base

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