A entrevista de Horácio Piva, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), merece uma reflexão.
Integrante da família Klabin, responsável por um dos mais sólidos grupos empresariais nacionais, Piva também presidiu o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), entidade que, em tese, reúne empresas com condições de liderar uma nova etapa da industrialização brasileira.
A trajetória da Klabin ajuda a compreender o papel que o Estado já exerceu na formação de grandes grupos nacionais. Durante o governo Vargas, a empresa foi parceira de uma política de substituição de importações. No fim da década de 1920, já produzia papel, mas ainda dependia fortemente da celulose importada, justamente em um período de escassez cambial.
Para viabilizar a expansão, o governo ofereceu empréstimos, proteção cambial e condições de mercado, além da infraestrutura necessária, incluindo um ramal ferroviário. Após as negociações, foi firmado o acordo de financiamento que permitiu a construção da fábrica de Monte Alegre.
Nas negociações de Vargas com Franklin D. Roosevelt para a criação da Companhia Siderúrgica Nacional, houve ainda um entendimento paralelo que assegurou à Klabin o fornecimento de insumos.
Hoje, a Klabin é a maior produtora e exportadora brasileira de papéis para embalagens e uma das principais recicladoras do setor. Mantém cerca de 25 unidades industriais em dez estados brasileiros e uma na Argentina. Sua operação é verticalmente integrada, do manejo florestal ao produto final.
Seria, portanto, candidata natural a integrar uma nova estratégia de fortalecimento de grupos nacionais, ao lado de Gerdau, Votorantim, Suzano, Itaúsa, Cosan, WEG, Coteminas e Vicunha.
Um novo Plano de Metas poderia ter mobilizado essas empresas e, ao mesmo tempo, lançado as bases de outra etapa da industrialização — agora voltada às cadeias tecnológicas, à transição energética e aos minerais estratégicos.
O ponto de partida seria mapear as competências de cada grupo e articulá-las em torno de uma estratégia comum:
Mineração e geologia — da jazida ao concentrado
- Vale — única mineradora nacional com escala, logística e capacidade de licenciamento ambiental comparáveis às empresas estrangeiras que hoje avançam no setor, como Serra Verde/USA Rare Earth, Meteoric, Viridis e St George.
- CBMM, do grupo Moreira Salles — embora não integre o IEDI, constitui o principal exemplo brasileiro de controle nacional e integrado de um mineral estratégico, do início ao fim da cadeia. A empresa domina grande parte do mercado mundial de nióbio, e sua planta de Araxá fica ao lado do projeto de terras raras da St George.
- Votorantim — já atua na mineração e no processamento de metais, como zinco e alumínio, e dispõe de experiência para operar em escala industrial.
- ADL Mineração — empresa brasileira de menor porte, mas com operação concreta e embarque de monazita em 2026; poderia participar de uma joint venture com um dos grandes grupos nacionais.
Processamento químico e separação hidrometalúrgica — o principal gargalo apontado pelo CGEE
- Unigel e Unipar Carbocloro, integrantes do IEDI — dominam processos químicos industriais complexos, uma competência que pode ser adaptada à separação por solventes.
- Galvani Fertilizantes, também integrante do IEDI — processa fosfato, atividade que apresenta sinergia técnica direta com o aproveitamento da monazita, uma das fontes de terras raras.
Metalurgia e ligas
- Gerdau, integrante do IEDI — reúne a maior competência metalúrgica nacional. Embora concentrada no aço, sua experiência poderia ser direcionada ao desenvolvimento de ligas especiais.
- CBMM — já domina a metalurgia de nióbio de alta pureza, tecnologia próxima à requerida pelas cadeias de terras raras.
Demanda-âncora — condição para criar escala no mercado interno
- WEG, integrante do IEDI — maior fabricante nacional de motores elétricos e cliente natural de ímãs de neodímio e disprósio produzidos no país.
- Embraer, integrante do IEDI — poderia incorporar esses materiais em aplicações aeroespaciais e de defesa, setores considerados prioritários pelo próprio Ministério de Minas e Energia.
Ciência, tecnologia e formação de pessoal — o gargalo invisível
- CETEM/MCTI, IPT, Senai Cimatec e Poli-USP — concentram competências que poderiam recuperar o conhecimento acumulado pela antiga Nuclemon, que chegou a produzir óxidos de terras raras de alta pureza antes de ser desmontada nos anos 1990.
- Essas instituições ajudariam a enfrentar a escassez de especialistas em separação de minerais e fabricação de ímãs, apontada pelo CGEE como um dos principais riscos à execução de uma política nacional para o setor.
Caberia ao Estado coordenar essas frentes, como fizeram Getúlio Vargas, em seu segundo governo, e Juscelino Kubitschek, com o Plano de Metas. Até agora, porém, pouco se avançou além de declarações genéricas sobre soberania.
Se Lula for eleito para um quarto mandato – e torcemos para que sim -, uma das primeiras medidas deveria ser a criação de grupos de trabalho capazes de reunir governo, empresas nacionais, universidades e centros de pesquisa em torno dessa estratégia. O que transparece na entrevista de Horácio Piva é o desencanto de uma liderança empresarial com a falta de projeto para o país. Mais do que lamentar esse desalento, seria preciso convertê-lo em agenda: reconstruir a capacidade do Estado de formular, coordenar e sustentar uma política de desenvolvimento.
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