5 de outubro de 2026

E se o filho do seu Jair ganhar?, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Se for eleito e diplomado, o primeiro embate de Flávio Bolsonaro será com o STF, para que possa subir a rampa junto com seu pai.

Flávio Bolsonaro disputa eleição com chance real de segundo turno, herdeiro político de Jair Bolsonaro preso e condenado.
Conflitos esperados com STF incluem posse do pai preso e anistia a condenados pelo ataque de 8 de janeiro de 2023.
Militares rejeitaram golpe de Jair Bolsonaro; Flávio é civil e dependerá de apoio, mas enfrentará resistência institucional.

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E se o filho do seu Jair ganhar?

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Por Fábio de Oliveira Ribeiro

Algumas horas antes de sair de casa para votar resolvi sentar no computador para escrever algo sobre as eleições. Por razões óbvias, o meu candidato não é o filho do seu Jair. Não pretendo ser eleitor de nenhum outro candidato de direita ou de extrema direita, seja ele anão ou descendente dos eternos proprietários de Goiás. Não votarei nulo, nem em branco. Mesmo assim não direi aqui quem é meu candidato, porque a legislação me outorga o direito de preservar minha escolha em segredo.

Todavia, existe algo que não é secreto. A imensa preocupação que a vitória do filho do seu Jair desperta nos defensores da democracia brasileira, sejam eles eleitores ou não de Lula. Então eu farei aqui um exercício mental para exorcizar esse medo.

Quando seu Jair foi sugado para o centro do poder pelo vazio político criado pelo golpe de 2016 disfarçado de Impeachment sem crime de responsabilidade, muitos ficaram realmente preocupados. Isso porque ele foi um militar educado durante a ditadura militar e sempre se mostrou comprometido com os ideais autoritários e sanguinários daquele regime político. Seu Jair estava cercado de militares da ativa e aposentados que compartilhavam seus ideais macabros e nomeou alguns deles para cargos importantes no primeiro e no segundo escalão.

Desde o primeiro dia o então novo presidente colocou em ação uma agenda política que somente poderia desaguar na restauração da ditadura com ou sem ruptura violenta. Ele armou os adeptos da extrema direita e agrediu sistematicamente as Universidades tratando-as como focos de resistência potencial ao novo regime. O Congresso Nacional, dominado por políticos de direita e de centro foi facilmente seduzido pela distribuição de prebendas (o Orçamento Secreto foi, sem dúvida alguma, a maior delas).

Inevitável, o enfrentamento com o Judiciário foi levado a cabo mediante o desgaste da Suprema Corte. Durante seu mandato, o ex-presidente atual presidiário promulgou dezenas de Decretos acintosamente inconstitucionais. Quando a inconstitucionalidade deles era decretada pelo STF ele jogava seus seguidores contra os juízes e reafirmava sua disposição de ser a única fonte de legalidade. “Eu sou a constituição”, disse publicamente seu Jair em certo momento.

Seu Jair se esforçou muito para projetar a imagem de governante forte, capaz de dobrar seus adversários com uma pistola na cinta. Mas a verdade é que no front militar nem tudo era um mar de rosas. Isso ficou claro quando o primeiro Ministro da Defesa caiu e quando os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica renunciaram. Hoje sabemos o verdadeiro motivo dessa renúncia: eles se recusaram a participar do golpe de estado planejado pelo seu Jair.

Com sua liderança enfraquecida e sendo mais e mais desafiada durante a pandemia chegou moribundo à eleição. Isso o levou a endossar ou pelo menos a não proibir os famosos acampamentos na frente dos quartéis exigindo intervenção militar. A derrota eleitoral e a diplomação e posse de Lula levou seu Jair a fazer o impensável. Todavia, o assalto ao poder foi derrotado em Brasília resultado apenas na destruição parcial do Congresso, do STF e do Palácio do Planalto em 08 de janeiro de 2023.

O golpismo do seu Jair foi reprimido de maneira exemplar pelo MPF e pelo STF. Milhares de pessoas foram presas e denunciadas. Dezenas de militares também foram acusados de participar do planejamento ou da execução do golpe de estado. As condenações foram duras, mas proferidas com base na legislação aplicável e levando em conta as provas muitas vezes fornecidas pelos telefones celulares dos próprios acusados.

Recolhido à prisão, seu Jair oscilou entre rosnar desafiadoramente e soluçar sem parar até ser internado. A coesão entre os Bolsonaro ficou comprometida, pois Eduardo fugiu para os EUA, Jair Renan é agressivo demais, Carlos se encolheu e Flávio teve que se esforçar para sobreviver à sua própria capivara criminal. Bem sucedido nessa empreitada, Flávio foi nomeado herdeiro político do seu Jair e hoje disputa a eleição com chance real de chegar ao segundo turno.

Não votarei no filho do seu Jair, mas não posso deixar de reconhecer aqui que se ele for eleito o TSE terá que empossá-lo. Sendo assim, farei aqui um exercício de reflexão acerca do que poderá ocorrer durante seu desgoverno.

Se for eleito e diplomado, o primeiro embate de Flávio Bolsonaro será com o STF. Isso porque ele tentará cumprir a promessa de fazer o pai subir a rampa do Palácio ao lado dele no dia da posse. Seu Jair foi condenado e cumpre pena. Nenhum presidiário tem o privilégio de ir à posse do filho. Mesmo que assine um decreto perdoando o pai, a execução do mesmo será inevitavelmente impedida pela Suprema Corte a pedido de qualquer instituição legitimada para questionar a constitucionalidade do respectivo decreto.

Outro foco de conflito entre Flávio Bolsonaro e a Suprema Corte será a questão da anistia aos terroristas condenados pelo que fizeram em 08 de janeiro de 2023. Essa medida não poderá ser imposta por Medida Provisória, se o for a constitucionalidade do instrumento escolhido pelo novo presidente para soltar quem o STF condenou terá sua constitucionalidade questionada. Projetos de Lei podem se arrastar durante anos no Congresso e o “custo orçamentário” de fazer aprovar uma anistia ampla geral e vergonhosa pode se tornar impraticável a depender da nova composição da Câmara e do Senado.

Em julho de 2021 defendi no JornalGGN o maior legado do seu Jair seria o fake militarismo. Os fatos comprovaram que minha tese não era muito teratológica. As Forças Armadas não se deixaram governar pela ideologia autoritária e golpista do capitão que agora corre o risco de perder a patente militar por decisão do STM. Flávio Bolsonaro certamente tem apoio de alguns militares da ativa e da reserva, mas falta a ele o pedigree verde e amarelo. Os militares nunca poderão dizer “Flávio Bolsonaro é um dos nossos”, até porque o filho do seu Jair gosta mais do luxo da mansão que comprou do que da simplicidade árida de um quartel.

Flávio Bolsonaro parece ter adquirido alguma experiência ao lidar com milicianos. Entretanto, militares da ativa são profissionais altamente treinados e não amadores armados adeptos do banditismo. Quando o assunto diz respeito aos interesses corporativos e institucionais da caserna, os militares geralmente preferem lidar com seus iguais e não gostam das interferências dos civis. Apesar da retórica militarística, Flávio Bolsonaro é um civil e ele sempre será visto como um civil.

Os comandantes das Forças Armadas se recusaram a obedecer Jair Bolsonaro. Eles preferiram pedir demissão a participar de uma aventura golpista. Esse precedente histórico se repetirá durante um governo Flávio Bolsonaro? Caso Lula seja derrotado somente o futuro responderá essa pergunta. Todavia, se o filho do seu Jair der murros na mesa e tentar se impor como ditador o mais provável é ele ficar falando sozinho como ocorreu com Jânio Quadros.

Citei Jânio Quadros, mas não vou compará-lo aqui Flávio Bolsonaro. Essa comparação seria ofensiva e injusta.

Jânio Quadros foi um líder político de envergadura, experiente, ardiloso, ambicioso e audacioso. No auge da Guerra Fria, ele foi capaz de dar uma comenda a Che Guevarra e de obrigar o embaixador dos EUA a ficar esperando na antessala dele após ter sido obrigado a entrar no Palácio do Planalto pela porta dos fundos. O filho do seu Jair, a seu turno, não esconde que pretende dar a chave do Itamaraty e do governo brasileiro à Donald Trump, algo que Jânio Quadros jamais cogitaria ser possível ou necessário.

Pressionado por uma conjuntura que não era muito favorável à sua versão do autoritarismo, Jânio Quadros renunciou. Não sei se Flávio Bolsonaro será obrigado a renunciar caso as Forças Armadas se recusem a ser transformadas em forças submissas ao Pentágono e submetidas à ambição dos EUA de travar uma guerra contra a China. Uma aventura norte-americana na Ásia imediatamente destruiria a economia brasileira, pois a China responde por cerca de 31,6% de todas as exportações brasileiras (dados do primeiro semestre de 2026), mantendo-se de forma isolada como o maior parceiro comercial do Brasil há 17 anos consecutivos.

Seu Jair projetou a imagem de líder forte, mas era fraco e fracassou quando tentou dobrar os militares. Flávio Bolsonaro gosta de luxo e de boa vida, fraqueja e desmaia quando precisa debater com os adversários. Talvez ele consiga sobreviver se deixando governar pelas Forças Armadas. De qualquer maneira, se for eleito e empossado ele será um presidente fraco totalmente depende do apoio submisso que demonstra a Washington. O maior problema do desgoverno dele será como sempre o policial da esquina… e o miliciano parceiro dele. Mas isso não significa que devemos confiar nas Forças Armadas: apesar de terem resistido aos arroubos golpistas do seu Jair, o histórico delas continuará sendo mais ruim do que bom.

O crime organizado pelos Bolsonaro vai desgovernar o Brasil com ajuda de Donald Trump. Agentes IA, pastores dinheiristas e jornalistas da Folha, Estadão e Rede Globo cozinharam o resultado. As primeiras vítimas do novo regime serão os índios, depois os idosos aposentados serão reduzidos a miséria e começarão a cometer suicídio. Os pobres doentes que usam o SUS serão exterminados lentamente por estrangulamento orçamentário do Ministério da Saúde.

O que é ruim para o Brasil pode ser bom para os estrangeiros. As fábricas de armamentos “made in USA” e “made in Israel” terão lucros fabulosos nos próximos anos. E todos nós seremos espionados o tempo todo pela ABIN verdadeira e pela nova ABIN paralela também.

A bem da verdade o Supremo nunca esteve à altura de sua missão desde que Lula ganhou a primeira missão. Sob o comando de Gilmar Mendes o STF virou comitê político da oposição, fato que se intensificou durante o Mensalão e, depois, durante a Lava Jato. O golpe contra Dilma Rousseff disfarçado de Impeachment foi dado “com o STF, com tudo”.

Nos próximos 4 anos a Suprema Corte colherá o que plantou enquanto o povo comerá comida mais cara e mais envenenada produzida pelos ruralistas ligados aos Bolsonaro. Como o SUS será desmantelado, as vítimas da epidemia de câncer no estomago e/ou intestino terão que sacrificar galos a Asclépio porque nem mesmo os pastores cuidam de quem não tem nada a oferecer ao deus dinheiro deles.

Minha intuição me diz que Flávio Bolsonaro era, é e continuará sendo um espantalho de vento assoprado pela imprensa por causa de um antipetismo mofado aliado aos interesses financeiros como de costume (reciclagem do dinheiro sujo do PCC na Faria Lima incluído). Mas é claro que eu posso estar errado. Afinal, na política não é incomum espantalhos de vento ganharem vida própria e se tornarem monstros fora de controle que devoram apoiadores ocasionais que acreditaram poder controla-los.

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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Fábio de Oliveira Ribeiro

Fábio de Oliveira Ribeiro, 22/11/1964, advogado desde 1990. Inimigo do fascismo e do fundamentalismo religioso. Defensor das causas perdidas. Estudioso incansável de tudo aquilo que nos transforma em seres realmente humanos.

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