8 de outubro de 2026

Projetos que interferem na eleição brasileira, por Celso P. de Melo

Há alguns anos, alguém propôs jocosamente a criação de um “índice de coincidências inverossímeis”. O caso relatado chega nos trends

Documento de 22 páginas de André Marinho propõe aliança Brasil-EUA focada em minerais críticos e tecnologia para 2026.
A proposta reflete mudança geopolítica pós-2019, alinhando Brasil à estratégia dos EUA contra dependência chinesa.
Circulação de pessoas e ideias entre Brasil e EUA sugere influência indireta, sem evidências de financiamento ou comando.

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Como ideias, pessoas e projetos atravessaram o caminho entre Washington e uma candidatura presidencial brasileira

por Celso P. de Melo

“As ideias dos economistas e dos filósofos políticos, estejam elas certas ou erradas,
são mais poderosas do que geralmente se imagina.”
John Maynard Keynes, The General Theory of Employment, Interest and Money, 1936. [1]

Vinte e duas páginas

Em 19 de março de 2026, André Marinho produziu um documento de 22 páginas.

Escrita em inglês, a apresentação trazia na capa a inscrição “Flávio Bolsonaro | 2026 Campaign” e, nas páginas seguintes, o nome do senador acompanhado de duas palavras: Prosperity Partnership. Segundo a reportagem que revelou o documento, os metadados identificavam Marinho como autor, informação posteriormente confirmada por ele próprio [2].

Marinho fez, porém, uma ressalva essencial: afirmou que o estudo fora uma iniciativa exclusivamente pessoal, sem relação com a campanha de Flávio Bolsonaro, que não recebera pedido ou orientação nesse sentido e que jamais apresentara seu conteúdo a autoridades norte-americanas [2].

Seria possível encerrar o assunto aí, não fosse uma sucessão curiosa de circunstâncias.

Sete anos antes, em 19 de março de 2019, Jair Bolsonaro estava em Washington. Na declaração conjunta divulgada pela Casa Branca depois de seu encontro com Donald Trump, os dois presidentes anunciaram que Brasil e Estados Unidos construiriam uma Prosperity Partnership destinada a aumentar empregos e reduzir barreiras ao comércio e ao investimento [3].

Mesmo nome, mesmo dia e mês, exatamente sete anos de distância.

Há alguns anos, alguém propôs jocosamente a criação de um “índice de coincidências inverossímeis”. Aplicado ao caso, seu ponteiro provavelmente começaria a se aproximar da faixa vermelha.

Coincidências, porém, não são provas. E o que torna aquelas 22 páginas interessantes não é apenas o nome que receberam ou a data em que foram produzidas, mas o mundo que descrevem.

Em 2019, a Prosperity Partnership tratava sobretudo de empregos, comércio, investimentos e boas práticas regulatórias [3]. Sete anos depois, a expressão reaparecia num documento que associava o Brasil a minerais críticos, terras raras, processamento industrial, tecnologia, capital norte-americano e redução da dependência das cadeias chinesas [2].

O nome permanecera. A geopolítica mudara.

Três meses antes, em dezembro de 2025, os Estados Unidos haviam lançado a Pax Silica, iniciativa voltada à construção, entre parceiros considerados confiáveis, de cadeias seguras para a economia da inteligência artificial, articulando minerais críticos, energia, refino e processamento, manufatura avançada, semicondutores, infraestrutura digital, logística e investimento privado [4, 5].

Era uma gramática notavelmente semelhante à que apareceria pouco depois no documento brasileiro.

Cerca de duas semanas depois da data atribuída à apresentação, Marinho viajou aos Estados Unidos e reuniu-se com o vice-presidente J.D. Vance. Sua irmã, Giulia, é casada com Conor Kennedy, filho de Robert F. Kennedy Jr., integrante do governo Trump [2]. A relação familiar estabelece um canal social verificável com o círculo Kennedy, mas não demonstra, por si só, influência política.

Também não há evidência pública de que Marinho tenha discutido com Vance o Prosperity Partnership ou a questão dos minerais críticos; o próprio Marinho afirma jamais ter apresentado o estudo a qualquer autoridade norte-americana [2].

Marinho aparece ainda em reportagens sobre conversas para uma possível implantação da Rockbridge Network no Brasil. Pouco depois surgiriam documentos propondo uma estrutura brasileira relacionada à organização e um Technology Council, reunindo empresários e investidores em torno de tecnologia e setores estratégicos [6]. Segundo os envolvidos, porém, algumas dessas iniciativas nunca chegaram a funcionar; pessoas relacionadas nos documentos disseram não ter autorizado sua inclusão, enquanto a Rockbridge norte-americana afirmou que a entidade jurídica criada para o Brasil nunca recebeu recursos nem entrou em operação [6].

Essas ressalvas são essenciais porque esta história não é sobre aquilo que podemos imaginar que aconteceu, mas sobre aquilo que conseguimos demonstrar. Uma proposta não é uma instituição; um nome numa lista não significa participação; um encontro não é coordenação; uma relação familiar não demonstra influência política; e semelhança entre documentos não prova transmissão.

Mas, quando as coincidências começam a fazer fila, surge uma pergunta que já não pode ser descartada como simples curiosidade: o que atravessou a ponte?

Quando as coincidências começam a fazer fila

Entre a Prosperity Partnership anunciada por Trump e Bolsonaro em março de 2019 e o documento produzido sete anos depois, o mundo mudou.

A pandemia expôs a vulnerabilidade de cadeias de suprimento excessivamente concentradas, a competição tecnológica entre Estados Unidos e China se aprofundou, semicondutores passaram a ser tratados também como ativos estratégicos; minerais críticos ganharam nova centralidade, enquanto a inteligência artificial multiplicava a demanda por chips, energia, centros de dados e infraestrutura. Aquilo que durante décadas fora organizado prioritariamente pela eficiência econômica começava a ser redesenhado também em torno de segurança e confiança: já não bastava perguntar quanto custava produzir alguma coisa, mas também onde, por quem e dentro de qual arquitetura geopolítica ela seria produzida.

Em dezembro de 2025, essa transformação encontrou expressão particularmente clara na Pax Silica. A declaração assinada em Washington relacionava inteligência artificial à demanda por energia, minerais críticos, manufatura, hardware tecnológico e infraestrutura; propunha cooperação em semicondutores, manufatura avançada, logística, refino e processamento mineral, além de mobilizar a capacidade financeira e tecnológica da indústria privada para aumentar a segurança das cadeias [4].

A matéria-prima voltava, assim, ao centro da geopolítica.

Para o Brasil, possuidor de importantes recursos de lítio, grafite, nióbio, terras raras e outros minerais estratégicos, abria-se a possibilidade de ocupar posição relevante nessa reorganização. A questão era qual: continuar fornecedor de minério e concentrados ou participar também do processamento, da fabricação de materiais e componentes e do domínio das tecnologias que definem os elos mais valiosos da cadeia?

É nesse mundo que, três meses depois do lançamento da Pax Silica, aparece o documento de André Marinho.

Segundo a apresentação revelada pela imprensa, o Prosperity Partnership propunha que um eventual governo Flávio Bolsonaro posicionasse o Brasil como fornecedor e centro de processamento de minerais críticos alinhado ao Ocidente no Hemisfério Ocidental. O país não deveria permanecer mero exportador de matérias-primas nem substituir essa condição por dependência estrutural das cadeias chinesas de processamento, mas alinhar-se aos Estados Unidos na construção de um sistema alternativo de abastecimento [2].

A semelhança com a nova gramática estratégica de Washington é evidente. Seu significado, porém, exige cautela.

Termos como “minerais críticos”, “China”, “cadeias de suprimento”, “processamento” e “segurança nacional” já circulavam amplamente no debate geoeconômico. Encontrá-los em dois documentos não demonstra transmissão. Uma hipótese mais forte exigiria combinações incomuns de conceitos, sequências argumentativas semelhantes, instrumentos ou números coincidentes, expressões raras ou, sobretudo, evidência de circulação efetiva entre os autores.

Até agora, essa evidência não apareceu.

As pessoas, entretanto, circulavam.

O homem no meio da ponte

André Marinho é particularmente interessante porque diferentes caminhos desta história passam próximos a ele. Filho do empresário Paulo Marinho, suplente de Flávio Bolsonaro no Senado, já circulava pelo ambiente político brasileiro; por meio da irmã, casada com Conor Kennedy, tinha também um canal social incomum com o círculo Kennedy nos Estados Unidos. Relações familiares não estabelecem cadeias de comando, mas podem abrir portas – e Marinho chegou ao vice-presidente J.D. Vance poucas semanas depois da elaboração do Prosperity Partnership [2].

Outro caminho começara anos antes. Chris Buskirk, que mais tarde estaria entre os fundadores da Rockbridge Network, organização estreitamente ligada a J.D. Vance, já havia cruzado o ambiente bolsonarista em março de 2019, quando participou, em Washington, de um jantar com Jair Bolsonaro na residência do embaixador brasileiro. Estavam também presentes Steve Bannon, Olavo de Carvalho, Eduardo Bolsonaro, Paulo Guedes e Sergio Moro. Três meses depois, Buskirk participou, no Itamaraty, de um seminário sobre “globalismo” promovido pelo Ministério das Relações Exteriores e pela Funag [7].

Esses encontros não demonstram continuidade organizacional entre 2019 e os projetos de 2026. Mostram, porém, que a circulação de pessoas e ideias entre o conservadorismo norte-americano e o ambiente bolsonarista precedia em vários anos a tentativa de implantação da Rockbridge no Brasil. É nesse contexto que Marinho reaparece nas reportagens sobre as conversas em torno de uma estrutura brasileira ligada à organização [6].

Por intermédio de Marinho, Pedro Sang declarou ter conhecido a Rockbridge nos Estados Unidos, em outubro de 2025. Meses depois, seu nome apareceria em documentos relacionados ao projeto brasileiro e à proposta de um Technology Council [6].

Em 12 de maio de 2026, foi constituída no Wyoming a Rockbridge Brazil LLC. O registro identifica Chris Applegate como organizer, função ligada à constituição formal da empresa e que não implica, por si só, propriedade ou administração [7, 8].

A existência jurídica da empresa é documentável; sua operação efetiva, não. A Rockbridge norte-americana afirmou que o projeto fora rejeitado e que a empresa nunca recebeu recursos nem iniciou atividades. Sang disse que a iniciativa havia sido suspensa, enquanto Tallis Gomes declarou que o Technology Council permaneceu apenas como proposta e jamais chegou a reunir-se [6].

Isso não torna os documentos irrelevantes. Um projeto que não chegou a existir revela, ainda assim, aquilo que alguém imaginou construir. A proposta do Technology Council é particularmente significativa: o documento confidencial, destinado a Flávio Bolsonaro – embora não haja evidência de que tenha sido efetivamente entregue a ele – previa um conselho de 23 empresários, 19 deles estrangeiros, concebido simultaneamente como instrumento de campanha e plataforma para um eventual governo. Abrangia tecnologia, energia, data centers, defesa, segurança e minerais estratégicos e projetava impacto econômico superior a US$ 100 bilhões em dez anos. Vários dos executivos e empresas mencionados afirmaram, contudo, não ter sido consultados nem autorizado a inclusão de seus nomes [6, 7].

Proposta não é execução. Mas sua arquitetura merece atenção. Em março, o Prosperity Partnership associava minerais críticos, processamento, capital norte-americano e reorganização das cadeias diante da China; pouco depois, outro documento imaginava uma estrutura capaz de aproximar uma candidatura presidencial brasileira de empresários e investidores estrangeiros em alguns desses mesmos setores estratégicos.

Não é preciso supor uma sala onde alguém distribuísse instruções para perceber que ideias semelhantes circulavam por ambientes próximos. Talvez a imagem adequada não seja a de uma cadeia de comando, mas a de uma ponte.

Ideias não precisam de passaporte

Quando se fala em influência estrangeira sobre a política de um país, a imagem que surge quase automaticamente é a do dinheiro atravessando fronteiras: financiadores ocultos, organizações intermediárias, campanhas abastecidas por interesses externos. Essa forma de influência existe, pode ser investigada e está submetida às regras da legislação eleitoral, mas não é a única maneira pela qual ideias e interesses circulam.

Ideias viajam em documentos, conferências e reuniões; acompanham empresários e investidores; passam por universidades, fundações, think tanks, redes políticas e relações pessoais. Ao atravessarem a fronteira, podem ser traduzidas e adaptadas até se apresentarem como respostas domésticas a problemas domésticos.

Por isso, rastrear ideias é mais difícil do que seguir uma transferência financeira, que deixa remetente, destinatário, valor e data. Semelhanças, ao contrário, podem enganar: governos chegam independentemente à mesma conclusão, documentos compartilham o vocabulário de uma época e empresários podem defender políticas semelhantes sem que um tenha influenciado o outro.

É preciso resistir à tentação de transformar afinidade em causalidade, mas também ao erro inverso de imaginar que, na ausência de financiamento demonstrado ou de uma ordem escrita, não possa haver influência. Entre o comando e a coincidência existe um território amplo, no qual operam acesso, persuasão, formação de agendas, circulação de diagnósticos e construção de consensos.

Não há, nas fontes examinadas para este artigo, demonstração de que a Rockbridge tenha financiado a campanha de Flávio Bolsonaro, de que J.D. Vance tenha transmitido instruções a André Marinho, de que o Prosperity Partnership tenha sido encomendado ou adotado pela campanha ou de que a Pax Silica tenha servido de texto-fonte para o documento brasileiro.

Há, entretanto, evidências jornalísticas de circulação programática. Tallis Gomes afirmou à Folha de S. Paulo ter mantido conversas frequentes com Flávio Bolsonaro sobre inteligência artificial, energia e investimentos e colocado algumas ideias por escrito a pedido do candidato. Negou, ao mesmo tempo, representar a Rockbridge no Brasil, integrar formalmente a campanha ou intermediar recursos estrangeiros [9].

As duas informações são perfeitamente compatíveis: conversar com um candidato não significa comandar seu programa, mas significa algo mais preciso – ideias circularam.

A pergunta seguinte é quais ideias.

A mesma gramática

Minerais críticos, energia, inteligência artificial, processamento industrial, capital privado, cadeias de suprimento, redução de dependências e integração com parceiros considerados confiáveis. Separadamente, nenhuma dessas expressões surpreende; juntas, começam a descrever uma maneira particular de enxergar o mundo.

Uma gramática.

Quem aprende uma gramática não precisa repetir as mesmas frases; aprende a construir frases novas segundo regras semelhantes. A Pax Silica oferece um bom exemplo ao conectar semicondutores, manufatura avançada, minerais críticos, refino e processamento, energia, infraestrutura e logística, mobilizando a indústria privada e parceiros considerados confiáveis [4].

O Prosperity Partnership de 2026 parte dos recursos minerais brasileiros, defende que o país avance no processamento e na industrialização, procura evitar dependência das cadeias chinesas e propõe uma associação com os Estados Unidos para construir uma alternativa [2].

Colocadas lado a lado, as duas arquiteturas apresentam semelhança difícil de ignorar, mas que não demonstra que Marinho tenha recebido instruções de Washington, utilizado a Pax Silica como fonte ou sequer lido sua declaração. A política norte-americana de minerais críticos, redução de dependências e cadeias seguras vinha sendo construída havia anos, e um autor atento à geopolítica contemporânea poderia chegar independentemente a muitas das mesmas formulações.

Por isso, palavras isoladas valem pouco. Mais reveladoras são as relações entre elas: qual problema vem primeiro, que solução aparece depois, quais setores são conectados, quem financia e fornece tecnologia, onde ocorrerá o processamento, qual país aparece como risco, qual como parceiro e, sobretudo, qual lugar é reservado ao Brasil nessa nova divisão internacional do trabalho.

É aí que surge a gramática geoeconômica, e o Prosperity Partnership brasileiro parece falá-la com considerável fluência.

Como a aprendeu?

Talvez não exista resposta única. Ideias chegam por documentos públicos, conferências, investidores, relações políticas, empresários que circulam entre países e organizações que aproximam pessoas. Procurar uma única seta – Pax Silica → André Marinho – talvez seja formular mal o problema.

A circulação contemporânea de ideias se parece menos com uma carta entregue de uma pessoa a outra do que com uma rede.

E algumas redes deixam rastros materiais.

Do minério ao ímã

Um desses rastros conduz ao mundo dos investimentos e das terras raras.

Chris Buskirk, que aparece nesta história por sua associação com a Rockbridge, é também cofundador da 1789 Capital, empresa de investimentos da qual Donald Trump Jr. se tornou sócio. Em agosto de 2025, a 1789 participou de uma rodada de investimento na Vulcan Elements, fabricante norte-americana de ímãs de terras raras [10].

O salto de uma rede política para um componente industrial é menos abrupto do que parece. Ímãs permanentes de alto desempenho são essenciais a tecnologias que vão de veículos elétricos e turbinas eólicas a robótica, sistemas aeroespaciais e aplicações militares, e alguns dos mais importantes dependem de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio.

Outro elo precisa, contudo, ser tratado separadamente. Em agosto de 2024, a Meteoric Resources, então responsável pelo Projeto Caldeira, em Minas Gerais, assinou com a Ucore Rare Metals um memorando de entendimento destinado a avançar para um acordo vinculante de fornecimento de material de terras raras à futura instalação da Ucore na Louisiana. O documento previa um mínimo de 3.000 toneladas anuais de óxidos totais de terras raras quando ambas as partes estivessem em produção [11].

Esses fatos permitem enxergar uma arquitetura industrial, mas não autorizam transformar todos os atores numa rede coordenada. O investimento da 1789 na Vulcan constitui uma relação; o memorando entre Meteoric e Ucore, outra; o Projeto Caldeira, uma terceira; e a participação de Buskirk na Rockbridge, um vínculo distinto. Não dispomos de evidência que permita reuni-los numa cadeia de comando comum. Não dispomos de evidência que permita fundi-las numa cadeia de comando comum.

Cada seta precisa carregar apenas o peso que a documentação permite.

A materialidade da estratégia, contudo, permanece. “Reduzir a dependência chinesa” deixa de ser uma abstração quando perguntamos como se fabrica um ímã: é preciso encontrar o depósito, extrair e concentrar o minério, separar e refinar os elementos, transformá-los em metais e ligas, produzir o material magnético, fabricar o ímã e integrá-lo ao motor, gerador, drone, robô ou sistema de defesa.

Quem controla apenas o primeiro elo possui o recurso; quem domina os demais controla a cadeia.

É por isso que Caldeira importa para esta história, não porque tenhamos demonstrado uma operação coordenada envolvendo Rockbridge, 1789 Capital, Vulcan, Ucore ou uma candidatura brasileira – não demonstramos –, mas porque torna concreta a pergunta colocada pelos documentos estratégicos: quem controlará os diferentes elos das novas cadeias de terras raras construídas fora da China?

O Brasil possui matéria-prima para estar no início de algumas delas.

Uma ponte tem duas margens

Até aqui seguimos a ponte quase sempre numa direção: partimos de documentos e personagens brasileiros, encontramos ideias que circulavam em Washington e chegamos a interesses industriais ligados às novas cadeias de minerais críticos.

Mas toda ponte tem duas margens.

Talvez tenhamos começado, por isso, pela pergunta mais fácil: o que os Estados Unidos querem do Brasil? A Pax Silica explicita o interesse em cadeias de suprimento seguras, minerais críticos, energia, refino e processamento, semicondutores, manufatura avançada, infraestrutura e parceiros confiáveis [4, 5].

Nada disso é ilegítimo. Estados possuem interesses, empresas procuram mercados, investidores buscam retornos e governos constroem alianças compatíveis com seus objetivos estratégicos.

A questão relevante para nós é outra: o que o Brasil quer?

A resposta não pode ser simplesmente “investimentos”. Eles podem construir capacidade produtiva ou enclaves, transferir tecnologia ou apenas utilizar tecnologia importada, formar engenheiros e fornecedores locais ou trazer sistemas prontos. Podem deixar conhecimento; podem levar minério.

Uma jazida é imóvel. O conhecimento não.

Uma empresa pode adquirir direitos minerais, construir uma planta, operar durante décadas e exportar sua produção. Ao final, o recurso terá diminuído; uma sociedade que domina geologia, separação, química, materiais, metalurgia, equipamentos, controle de processos e fabricação de componentes, ao contrário, acumulou algo que não se esgota com a mina: capacidade.

Por isso, “agregar valor” é uma formulação insuficiente. O problema não é apenas o valor do que sai da fábrica, mas também o conhecimento que acumulamos ao produzi-lo. Nas terras raras, possuir o depósito não significa dominar a separação; separar não significa produzir metais; produzir metais não significa dominar ligas magnéticas; produzir a liga não significa fabricar ímãs de alto desempenho; e fabricar o ímã ainda não significa dominar os sistemas nos quais ele será empregado.

A cadeia não é apenas uma sucessão de preços, mas também de capacidades.

Quando uma potência estrangeira propõe integrar recursos brasileiros às suas cadeias estratégicas, não basta perguntar quanto dinheiro será investido. Precisamos saber quais capacidades ficarão aqui, quem dominará a tecnologia, onde estarão os laboratórios, quem projetará processos e fabricará equipamentos, quantos fornecedores nacionais serão desenvolvidos, onde ficará a propriedade intelectual e se o próximo elo será construído aqui ou em outro país.

Essa discussão não exige hostilidade aos Estados Unidos nem à China, mas sim que o Brasil tenha uma estratégia própria.

O Prosperity Partnership atribuído a André Marinho identifica corretamente parte do problema ao reconhecer os limites de permanecermos simples exportadores de matérias-primas [2]. Mas soberania não está garantida pela presença de uma fábrica dentro das fronteiras nacionais: uma fábrica também pode ser uma caixa-preta. A questão é se ela se torna parte de um sistema brasileiro capaz de aprender.

Uma cadeia segura para os Estados Unidos não é necessariamente uma cadeia que maximize a autonomia tecnológica do Brasil. As duas coisas podem ser compatíveis, desde que essa compatibilidade seja negociada e construída.

É nesse ponto que a margem brasileira da ponte começa – não para impedir a travessia, mas para que ela não termine sempre do outro lado.

O que atravessou a ponte?

Voltemos às 22 páginas.

Ao longo deste percurso, pessoas, documentos, organizações e interesses foram aparecendo ao redor delas. Algumas conexões estão documentadas; outras permanecem possíveis; outras, ainda, não puderam ser demonstradas. A tentação de reunir tudo numa grande rede é compreensível, mas seria justamente o passo que a evidência disponível não autoriza.

Podemos, então, retornar ao nosso jocoso “índice de coincidências inverossímeis”. Seu valor continuaria elevado, mas coincidências, por mais numerosas que sejam, não se transformam automaticamente em provas. O material examinado não demonstra financiamento estrangeiro da campanha, comando da Rockbridge sobre a formulação de um programa de governo, nem que Washington tenha escrito o Prosperity Partnership ou que André Marinho tenha copiado a Pax Silica.

Sustenta algo menos espetacular e, talvez por isso, mais interessante: pessoas circularam, documentos foram produzidos e ideias encontraram canais de interlocução. Em um curto intervalo, diferentes atores passaram a discutir, em ambientes próximos, uma mesma constelação de temas – minerais críticos, energia, inteligência artificial, processamento, capital privado, China, Estados Unidos e segurança das cadeias de suprimento.

Talvez essa seja a história: não uma conspiração com um centro claramente identificável, mas uma infraestrutura de circulação.

A influência política não precisa apresentar-se dizendo seu nome. Pode operar aproximando pessoas, selecionando problemas, oferecendo diagnósticos, construindo vocabulários e ajudando a definir aquilo que passa a parecer possível – e, pouco depois, necessário.

Democracias vivem da circulação de ideias. O problema não está em ideias estrangeiras atravessarem fronteiras, mas em não sabermos quem as faz circular, com quais interesses, por quais canais e com que capacidade de transformá-las em políticas públicas.

Talvez ainda seja cedo para dizer quem construiu toda a ponte, quem decidiu atravessá-la ou se todos caminhavam na mesma direção. Podemos, porém, voltar à pergunta que aquelas 22 páginas colocaram no início desta investigação: o que atravessou a ponte?

Dinheiro, não conseguimos demonstrar; ordens, tampouco. Pessoas atravessaram, ideias circularam e documentos deixaram rastros.

Nosso “índice de coincidências inverossímeis” pode continuar marcando alto, mas talvez já não seja isso o que mais importa. Porque, para o Brasil, a pergunta decisiva não é quantas coincidências cabem em 22 páginas.

É saber se, quando minerais, tecnologia, capital e poder atravessarem essa ponte, o conhecimento também atravessará – e de que lado ficará quando a travessia terminar.

Bibliografia

1.    Keynes, J.M., The general theory of employment, interest and money. 1936, London: Macmillan and Co., Limited. 403.

2.    Amado, G. e J.P. de Campos, “Prosperity Partnership”: documento mostra como EUA explorariam terras raras em governo de Flávio Bolsonaro, in Amado Mundo. 2026.

3.    United States. White House, Joint statement from President Donald J. Trump and President Jair Bolsonaro. 2019: Washington, D.C.

4.    Pax Silica, The Pax Silica Declaration. 2025.

5.    United States. Department of State, United States and Japan will sign Pax Silica Preamble. 2025: Washington, D.C.

6.    Folha de São Paulo, Rockbridge, grupo conservador do vice-presidente dos EUA, iniciou instalação no Brasil, in Folha de S.Paulo. 2026: São Paulo.

7.    Olliveira, C., G. Lobato, e N. Cleveland-Stout, Rede trumpista Rockbridge tentou esconder início de operação no Brasil, in Intercept Brasil. 2026.

8.    Amado, G. e J.P. de Campos, Registro de empresa ‘Rockbridge Brazil’ nos EUA tem nome de assessor de J.D. Vance, in Amado Mundo. 2026.

9.    Folha de São Paulo, Empresários ligados ao grupo Rockbridge ajudaram Flávio Bolsonaro com relatórios e consultoria, dizem aliados, in Folha de S.Paulo. 2026: São Paulo.

10.  Massa, A., Malik’s 1789 said to back defense, rare-earth magnet startups, in Bloomberg. 2025.

11.  Ucore Rare Metals, Inc. and N.L. Meteoric Resources, Ucore Rare Metals and Meteoric Resources sign MOU for offtake of Caldeira Project MREC in Brazil to USA oxide production project. 2024.


Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Celso Pinto de Melo

Doutor em Física (UCSB, 1980), mestre em Física (1975) e engenheiro químico (1973) pela UFPE, é Professor Titular aposentado da UFPE e Pesquisador 1-A do CNPq. Atuou como Fulbright Senior Scholar no MIT (1986–1987). Lidera pesquisas em polímeros condutores, transporte em filmes finos e nanocompósitos aplicados à interface com sistemas biológicos e sensores. É autor de mais de 160 artigos e diversas patentes nacionais e internacionais, e orientou mais de 60 alunos de pós-graduação. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Física (2009–2013), vice-presidente e conselheiro da SBPC, além de diretor do CNPq e pró-reitor da UFPE. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Pernambucana de Ciências. Recebeu a Comenda (2002) e a Grã-Cruz (2009) da Ordem Nacional do Mérito Científico, além da Ordem de Rio Branco (2007), por suas contribuições às ciências físicas no Brasil.

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