27 de outubro de 2026

A última dança de Lula: os desafios do PT e o futuro da esquerda, por Daniel Costa

O resultado tem importância histórica, mas não deve ser confundido com a resolução dos problemas que marcaram os últimos anos.
Lula em manifestação na Av. Paulista - Foto de Paulo Pinto - Agência Brasil

Lula venceu a eleição presidencial de 2022 após reverter resultado do primeiro turno e derrotar Flávio Bolsonaro.
PT e aliados elegeram 88 deputados e 4 governadores no Nordeste, mas renovação política e participação social são desafios.
Governo Lula enfrenta dificuldades para conciliar prioridades com coalizão ampla e precisa fortalecer mobilização popular.

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A última dança de Lula: os desafios do PT e o futuro da esquerda, por Daniel Costa

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A última dança do presidente Lula teria que ser mesmo emocionante. Não apenas por representar o último capítulo de sua trajetória à frente do Palácio do Planalto, mas porque sua história se confunde com alguns dos episódios mais emblemáticos da política brasileira nas últimas décadas. Das greves do ABC paulista à chegada à Presidência, em 2002, das derrotas eleitorais à prisão pela Lava Jato, Lula atravessou momentos em que muitos apostavam que sua carreira política havia chegado ao fim. Em diferentes ocasiões, porém, os acontecimentos trataram de demonstrar o contrário.

Derrotado por Fernando Collor de Mello em 1989 e por Fernando Henrique Cardoso em 1994 e 1998, Lula chegou à Presidência em 2002 e foi reeleito quatro anos depois. Em 2010, conseguiu eleger sua sucessora, Dilma Rousseff, que venceria novamente em 2014. A sequência foi interrompida pelo golpe jurídico-parlamentar de 2016. Dois anos depois, preso no contexto da Operação Lava Jato, Lula ficou impedido de disputar as eleições, vencidas por Jair Bolsonaro. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou suas condenações por questões relacionadas à competência da Justiça Federal de Curitiba e reconheceu a parcialidade do então juiz Sergio Moro no caso do tríplex. Em 2022, Lula retornou à Presidência após derrotar Bolsonaro em uma das disputas mais acirradas da história recente do país.

A vitória deste último domingo acrescenta um capítulo inédito a essa trajetória. Depois de terminar o primeiro turno atrás de Flávio Bolsonaro, com 45,16% dos votos válidos, contra 47,03% do adversário, Lula conseguiu reverter o resultado e venceu o segundo turno com 64,2 milhões de votos, equivalentes a 51,79%. Flávio recebeu 59,8 milhões, ou 48,21%. A diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos garantiu a Lula mais quatro anos no Palácio do Planalto e marcou a primeira virada desse tipo em uma eleição presidencial brasileira desde a redemocratização.

O resultado tem importância histórica, mas não deve ser confundido com a resolução dos problemas que marcaram os últimos anos. Lula derrotou novamente um representante da família Bolsonaro, mas a votação expressiva de seu adversário demonstra que a extrema direita continua mobilizando uma parcela significativa da sociedade brasileira. A eleição impediu uma nova vitória do bolsonarismo, mas não eliminou as condições políticas e sociais que alimentam seu crescimento. A vitória abre uma oportunidade; não dispensa a organização, a mobilização e a disputa de ideias necessárias para aproveitá-la.

É nesse ponto que a idade do presidente ganha relevância política. Lula completa 81 anos neste 27 de outubro. Sua trajetória é excepcional, mas seria um erro transformar essa excepcionalidade em justificativa para adiar indefinidamente a renovação do campo progressista. O desafio não consiste apenas em identificar quem poderá ocupar o lugar de Lula no futuro. Trata-se de construir condições para que a esquerda tenha capacidade de formular projetos, organizar maiorias e disputar os rumos do país sem depender permanentemente da presença de uma única liderança.

Os resultados eleitorais do PT ajudam a dimensionar essa tarefa. O partido elegeu 70 deputados federais, enquanto a federação formada com PCdoB e PV conquistou 88 cadeiras. Também elegeu quatro governadores, todos no Nordeste: Bahia, Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte. Há, portanto, uma presença institucional relevante, mas ela não resolve, por si só, o problema da renovação. A questão decisiva é o que o partido fará com essa força e em que medida ela será capaz de produzir novas lideranças, ampliar sua participação social e formular respostas para os desafios que se apresentam.

A renovação política não pode ser reduzida à substituição de nomes antigos por nomes mais jovens. Ela exige mudanças nas condições de participação e decisão, na formação de quadros e na relação entre o partido, os movimentos sociais e a população. Novas lideranças precisam ter espaço para formular propostas, disputar os rumos da organização e assumir responsabilidades que não se restrinjam às campanhas eleitorais. Caso contrário, a renovação corre o risco de se limitar a uma mudança geracional sem alterar as estruturas que concentram as decisões.

A história do PT oferece experiências importantes para essa reflexão. O orçamento participativo, desenvolvido inicialmente em Porto Alegre, mostrou que a atuação do partido podia ir além da disputa eleitoral, criando mecanismos para que a população participasse da definição das prioridades do poder público. Essa experiência não deve ser idealizada, nem tratada como uma fórmula que possa ser simplesmente reproduzida em qualquer contexto. Seu legado, porém, ajuda a lembrar que a participação popular precisa ter consequências concretas sobre as decisões de governo. Renovar a esquerda também significa recuperar sua capacidade de construir formas de organização e participação que aproximem a política institucional das necessidades cotidianas da sociedade.

A chegada de novas lideranças à Câmara dos Deputados pode contribuir para esse processo. Ana Júlia, no Paraná, e Ana Elisa, em Minas Gerais, estão entre os quadros mais jovens eleitos pelo PT. No Nordeste, Rosa Amorim, em Pernambuco, e Lucas Reis, na Bahia, também representam trajetórias que podem contribuir para renovar a representação parlamentar do partido. Esses nomes não constituem, evidentemente, uma lista definitiva de sucessores ou uma garantia de renovação. O que importa é que tenham condições de participar efetivamente da formulação política e das decisões estratégicas, contribuindo para construir um projeto coletivo que não dependa indefinidamente de suas figuras históricas.

O Nordeste merece atenção especial nesse debate. A região tem papel decisivo nos resultados eleitorais do campo progressista e reúne experiências políticas, lideranças e organizações sociais que precisam ocupar um lugar mais importante na definição dos rumos nacionais da esquerda. Não basta reconhecer sua importância quando se trata de conquistar votos. É necessário que essa força também se traduza em participação nas instâncias de decisão, na formulação do programa político e na construção das estratégias nacionais do partido. Uma renovação que mantenha as mesmas concentrações de poder corre o risco de reproduzir, sob novos nomes, as estruturas que pretende transformar.

Outro desafio diz respeito à relação entre o governo e a chamada frente ampla. A escolha de Geraldo Alckmin para a vice-presidência e a composição de uma aliança que reuniu partidos e lideranças de diferentes orientações políticas foram importantes para ampliar as possibilidades eleitorais de Lula em 2022. A construção de alianças voltou a desempenhar papel relevante na disputa de 2026. Em um sistema político fragmentado, a negociação com diferentes forças é parte da realidade de qualquer governo. O problema começa quando a necessidade de construir maiorias passa a ser tratada como justificativa suficiente para o afastamento das prioridades que deram sentido à vitória eleitoral.

A experiência recente mostra os limites dessa relação. Em maio de 2023, a Câmara dos Deputados aprovou o texto-base do novo arcabouço fiscal por 372 votos a 108, em uma negociação que expôs as dificuldades do governo para conciliar suas prioridades com as exigências do Congresso. Em outra frente, o Congresso derrubou a maior parte dos vetos presidenciais relacionados ao marco temporal das terras indígenas. Em setembro de 2025, a Câmara aprovou, por 311 votos a 163, a urgência de um projeto de anistia relacionado às manifestações antidemocráticas posteriores a 30 de outubro de 2022.

Esses episódios têm naturezas distintas e não devem ser tratados como se fossem equivalentes. Tampouco significam que todos os partidos de centro e de direita atuem da mesma maneira ou que a negociação política deva ser abandonada. Eles evidenciam, entretanto, que a existência de uma coalizão ampla não garante apoio automático às prioridades do governo, muito menos ao conjunto de compromissos assumidos diante do eleitorado. É preciso distinguir a negociação necessária para governar da acomodação política que pode esvaziar o programa eleito nas urnas.

A questão, portanto, não é escolher entre uma aliança ampla e o isolamento político. É construir uma relação em que a busca por maiorias parlamentares não impeça o governo de sustentar suas prioridades e de enfrentar interesses contrários à ampliação de direitos e à melhoria das condições de vida da população. Uma frente ampla pode ser um instrumento importante para derrotar a extrema direita e garantir governabilidade, mas não substitui a organização social, a mobilização popular e a disputa política fora do Congresso. Sem essas bases, o governo corre o risco de ficar excessivamente dependente de negociações institucionais cujos resultados nem sempre correspondem às expectativas de seus eleitores.

O desafio dos próximos quatro anos, assim, vai além de concluir o mandato com bons índices de aprovação ou de apresentar resultados como marcas da gestão. É preciso transformar a vitória eleitoral em avanços concretos, fortalecer as organizações políticas e sociais do campo democrático e criar condições para que novas lideranças assumam responsabilidades. Isso exige enfrentar as contradições internas da esquerda, rever práticas que limitam a participação e compreender que a unidade eleitoral, embora necessária em determinados momentos, não substitui a construção de um projeto político de longo prazo.

A última dança de Lula no Palácio do Planalto precisa ser emocionante, sim. Não porque encerre a história de um personagem que continuará a exercer influência na política brasileira, mas porque pode ajudar a preparar o que virá depois dele. A vitória eleitoral impediu uma nova vitória do bolsonarismo, mas não eliminou as condições que alimentam a extrema direita, tampouco resolveu os dilemas do PT, as dificuldades da esquerda ou os limites da conciliação política. O legado desse mandato não será medido apenas pelas realizações do governo, mas também pela capacidade de fortalecer organizações, ampliar a participação popular e criar condições para que novas lideranças assumam responsabilidades. Isso exigirá organização, disputa de ideias, capacidade de mobilização e disposição para enfrentar conflitos que não desaparecerão apenas porque Lula venceu o pleito.

Daniel Costa é jornalista, mestre em História pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador na área de História do Brasil e Moderna, além de temas ligados à cultura popular e ao samba paulista.

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Daniel Costa

Daniel Costa é graduado em História pela Unifesp, instituição onde atualmente desenvolve pesquisa de mestrado. Ainda integra o G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga onde além de compositor, desenvolve pesquisas relacionadas a História do samba de São Paulo e temas ligados a cultura popular participando das atividades e organização do centro de documentação da entidade (CedocK – Centro de Documentação e Memória – José e Deolinda Madre). Possui especializações na área de museologia (IBRAM), arquivologia (Arquivo Nacional), Educação Patrimonial (IPHAN) e História Oral (FGV/CPDOC).

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