23 de junho de 2026

A Suprema covardia do Supremo, por Aldo Fornazieri

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A Suprema covardia do Supremo

por Aldo Fornazieri

Aos golpes do oportunismo, do golpismo, da covardia, do sofismo e da falácia argumentativa, a maioria do STF derrubou a estátua da Justiça em praça pública, espatifou-a na frente da nação, rasgou a Constituição e, com ambas, estátua e Constituição, fez uma grande fogueira onde foram queimados os princípios da república, a igualdade perante a lei a punibilidade de políticos criminosos e a decência nacional. Cinco ministros, que não têm compromissos com a Constituição, mas com subserviência aos raposões corruptos do Senado, jogaram a gasolina. Carmen Lúcia acendeu o fogo e ainda jogou uma pá de cal sobre as cinzas, pintando o cinza o que já era cinza num país condenado a ser vítima de si mesmo por ser vítima de uma elite que não tem seriedade, que não tem responsabilidade e que não tem pudor.

Carmen Lucia mostrou não ter condições de presidir um centro acadêmico de uma faculdade de direito. Para desgraça do Brasil, no entanto, preside aquilo que deveria ser a mais alta Corte Constitucional do país, cuja virtude primeira dos seus componentes deveria ser a coragem. A partir da semana passada, o STF, que já havia se curvado aos políticos da Câmara e do Senado no processo da derrubada da presidente Dilma, decidiu, em ato formal, tornar-se um poder subordinado, abrindo mão de ser a Corte que decide em última instância.

A decisão da maioria do STF fere a Constituição e não se trata de engano. Basta comparar os argumentos que os juízes usaram quando do afastamento de Eduardo Cunha e os que usaram na decisão do último dia 12. Fica claro que a maioria da Corte votou em função das conveniências políticas e não do espírito e da letra da Constituição. A OAB deveria analisar se estes cinco juízes, mais a Carmen Lucia, não cometeram crime de responsabilidade. Sob o disfarce do julgamento de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, o que decidiram foi o caso específico de Aécio Neves entregando ao Senado a prerrogativa de devolver-lhe o mandato. O mesmo Senado que não cumpriu a Constituição quando decidiu não investigar e não julgar Aécio.

O STF criou uma desordem constitucional. Para casos diferentes, mas com a mesma natureza jurídica, aplicou decisões ao sabor das conveniências: uma para Eduardo Cunha, outra para Delcídio do Amaral, uma terceira para Renan Calheiros e uma quarta para Aécio Neves. A sociedade não pode ter fé e respeito a um tribunal que age dessa forma.

Os magistrados deveriam dignificar o honroso cargo que receberam, alguns sem as competências e/ou as virtudes necessárias. Deveriam ser um exemplo para a sociedade e para os futuros juízes. Deveriam pensar em proporcionar biografias relevantes, pois o bom exemplo e a vida correta são os maiores bens que podemos deixar nesta vida. Mas quem não tem dignidade não pensa em biografia.

Um dos fundamentos adotados pela maioria do Supremo sustenta a tese de que somente os representantes podem decidir acerca de um mandato que emana da soberania popular. Para manter uma coerência lógica, as decisões que afetarem vereadores, deputados estaduais e governadores também precisariam de um aval da Casa legislativa correspondente sempre que uma decisão judicial afetar um mandato.

O STF se tornou um dos principais fomentadores da crise institucional. Note-se a absurda argumentação de Dias Tofoli: “O Supremo Tribunal Federal não pode atuar, portanto, como fomentador de tensões constitucionais, o que ao meu ver viria a ocorrer caso se suprimisse do poder Legislativo o legítimo controle político de restrições de natureza processual penal que interferem no livre exercício do mandato parlamentar”.

A argumentação é absurda porque parte de um pressuposto falso: o STF deve julgar segundo a Constituição e não segundo se causa ou não causa tensões constitucionais. Ademais, em nenhum país  democrático o Legislativo tem a prerrogativa de fazer o controle político de restrições de natureza processual penal. Mesmo no processo de impeachment de um presidente, o Senado se transforma em tribunal para julgar politicamente, cabendo ao STF julgar a matéria de natureza penal.

A violação da Constituição

Para que uma Constituição seja democrática e republicana precisa fundamentar-se em alguns pressupostos: nenhum poder é ilimitado, nem mesmo a própria Constituição; Estado de Direito significa poder limitado, valendo isto para os três ramos do poder; os três poderes estão submetidos a uma relação de controles mútuos, de pesos e contrapesos, não existindo um poder soberano sem controle a acima dos outros; definidas as funções específicas de cada poder, com ingerências parciais um no outro, cabe ao tribunal constitucional as decisões últimas em matéria penal e no controle da constitucionalidade.

Uma Corte ou um tribunal constitucional são supremos exatamente porque têm a prerrogativa das decisões finais, indicadas no último item acima. Se não for assim, a Constituição deixa de ser  republicana e democrática. Foi este atentado, foi este crime contra a Constituição, que a maioria do STF perpetrou. A Corte constitucional tem a faculdade de interpretar o direito em vigor, a Constituição, as leis do Legislativo, com uma autoridade que estabelece uma obrigação constitucional dos outros dois poderes.

A prerrogativa de interpretação de uma Corte constitucional, porém, não é aberta e infinita. Ela tem dois limites: 1) a própria Constituição; 2) os princípios fundantes da Constituição republicana e democrática que não podem ser ultrapassados pelo poder constituinte soberano, por uma Corte Constitucional ou pelo poder que tem a prerrogativa de emenda constitucional – no caso, o Congresso. A maioria do STF violou a Constituição ao permitir que a Câmara e o Senado adquiram funções judiciais e possam tomar decisões finais acerca de atos delituosos de deputados e senadores.

O Brasil vive hoje uma situação insuportável do ponto de vista político, institucional e moral. Do ponto de vista político, o sistema e as instituições estão sem legitimidade e desacreditados junto à sociedade. Do ponto de vista institucional, há um  golpe em andamento, um presidente ilegítimo, o Congresso desacreditado com dezenas de políticos denunciados e um STF que viola a Constituição e não faz aquilo que as suas prerrogativas determinam. Do ponto de vista moral, o Brasil é governando por um presidente denunciado duas vezes e por um governo criminoso, que destrói os fundamentos éticos, as condições de futuro do país e  afronta a dignidade das pessoas.

O STF precisa responder à sociedade como é possível que o país seja governando por um presidente e por um governo sobre os quais recaem, não acusações vagas, mas provas evidentes de que se trata de entes delinquenciais. Nenhum país do mundo, minimamente sério e democrático, teria um governo que é expressão de inominável indignidade. O STF precisa responder à sociedade como é possível que ministros delinquentes continuam ministros; como é possível que  deputados e senadores corruptos continuam em seus cargos.

Deputados e senadores só são invioláveis, civil e penalmente, pelas suas opiniões, palavras e votos, diz a Constituição. Não o são por atos criminosos. Quando cometem crimes, precisam ser punidos na mesma condição dos demais cidadãos. Se não for assim, isto é contra os fundamentos e os princípios da Constituição. Se em algum lugar a Constituição garante proteção a políticos criminosos, isto é contra os fundamentos Constituição e o STF precisa pronunciar-se e adotar providências. Se não é assim, a nossa Constituição não é nem democrática e nem republicana. É uma Constituição refém de covardes, de sofistas e de corruptos.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

 

Aldo Fornazieri

Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política.

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12 Comentários
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  1. Romanelli

    16 de outubro de 2017 9:48 am

    Orra  ..pra que gastar tanta

    Orra  ..pra que gastar tanta titna e papel pra lembrar-nos do óbvio ?!

    O STF, (e não é de hoje né Quinzão Barbosa ?!) é um Poder de LAMBE BOTAS ..tal qual o SENADO, desenhado pra frear as mudanças mais urgentes

    ..nabadesco, voltando a interesses pessoais e internos, políticos  ..uma casta de supercidadãos que fazem suas compras e planejam suas aposentadorias na FLORIDA ..gente com direitos e benefícios exclusivos, OFENSIVOS, que estão a serviço das forças dominadoras desta pobre Nação 

    Convenhamos  ..MUITO ANTES ATÈ do que a APROVAÇÃO das Cotas RACISTAS (que dinamita o 5o artigo da Cosntituição) aquela turma já provava que desafiaca e desqualificava a nossa raquitica democracia

    aonde já se viu uma turma de poderosos que só sai de lá aposentada aos 70 ?!  ..com mandato vitalício e que a TODO dia ofende seu próprio código de conduta ética?!

    http://www.cnj.jus.br/publicacoes/codigo-de-etica-da-magistratura

    1. Cláudio Melo

      16 de outubro de 2017 12:18 pm

      Corrigindo: só saem de lá aos

      Corrigindo: só saem de lá aos 75, mermão!!! Só aos 75…, mas Carmem Lúcia nos prometeu sair no ano que vem. Que convença mais 10.

      1. Romanelli

        16 de outubro de 2017 2:10 pm

        obrigado pela lembrança ..tem

        obrigado pela lembrança ..tem razão  ..a idade mudou com a tal LEI DA BENGALA  ..a primeira etapa que ja dava base ao GOLPE que viria (isso em 2015  ..LC 152 de autoria de J.Serra, O GOLPISTA)

  2. Gloria Leite

    16 de outubro de 2017 10:11 am

    O Supremo é pior do que o

    O Supremo é pior do que o legislativo, é inconfiável, corruptível, a interpretação da constituição depende do freguès. Da mesma maneira que ninguém quer receber o Temer no exterior, chegará o momento em que os ministros do Supremo serão desconvidados e todos sentirão vergonha de aparecer a seu lado – como aconteceu com o gilmar em portugal.

  3. Fábio de Oliveira Ribeiro

    16 de outubro de 2017 10:35 am

    Ao rasgar a CF/88 para fazer

    Ao rasgar a CF/88 para fazer o Brasil afundar no neoliberalismo o se tornou uma Corte mínima cheia de minions e miniministros.

  4. Carlos Alberto Freitas Lima

    16 de outubro de 2017 10:40 am

    DEVERIAM PELO MENOS HONRAR OS AUXÍLIOS E OS ALTOS SALÁRIOS.

    “Os magistrados deveriam dignificar o honroso cargo que receberam, alguns sem as competências e/ou as virtudes necessárias. ” ou pelos menos deveriam honrar os auxílios e altos salários que ganham. Esse troço de golpe foi uma patifaria só, onde não se esperava conspiravam por conta de aumento de salários, é uma vergonha para gente se sente a elite de um país, mas quando ajuda um país virar um pé de banana se tornam bananas também. Roubaram os votos das pessoas na maior cara dura possível, aliás nem fazem mais contas de se mostrarem o que verdadeiramente são, como disse o senador Requião “canalhas, canalhas, canalhas.” Tomarem vergonha na cara seria o mínimo fazer.

     

  5. José Ricardo Romero

    16 de outubro de 2017 11:41 am

    O stf tem um ministro, Celso

    O stf tem um ministro, Celso de Melo, que diz que “la loi c`est moi”: a constituição é aquilo que o supremo acha que ela é, disse literalmente. Não dá nem prá argumentar. É uma nulidade completa e rastejante. Quem ele e seus coleguinhas pensam que são?
    É como o principio fundante do psdb, sua lógica interna: os fins justificam os meios. Inicialmente maus meios só podem produzir maus fins. Bons fins se consegue com bons meios. Além disso este principio norteador da cabecinha dos tucanos é de uma arrogância extrema porque pressupõe que eles sabem o que é bom e certo para os outros.

     

  6. Hildermes José Medeiros

    16 de outubro de 2017 11:46 am

    Essa é uma questão recorrente

    Essa é uma questão recorrente entre analistas da hoje oposição: o Supremo Tribunal acovardou-se, diante disso, diante daquilo. Não acovardou-se coisa nenhuma, e costuma ter seus ministros treinados e instrumentalizados no exterior pelo grande capital, que influencia na nomeação de cada um. O Suprêmio, como alguns já falam (desmoralizados, não?), por favorecer os golpistas, principalmente políticos do PSDB, não tem nada de acovardado. Mesmo porque são também golpistas de primeira hora, participaram da preparação do golpe, desde os idos do Mensalão, sob a batuta do Ministro Joaquim Barbosa e os inúmeros solos principalmente do Ministro Gilmar Mendes. Quem esquece o Ministro Ayres Britto com a batuta na mão? Haja agressão às Leis e à constituição. Até um leigo percebe. Deram suporte jurídico às ações no sentido do golpe do impeachment, e aos golpistas (todos, mas todos mesmo, inclusive Eduardo Cunha, que comprou votos para aprovar o impeachment), quando ocorreram denúncias envolvendo milhões de reais. Acovardados estariam caso existissem possibilidades de ações para impor a esses políticos de toga, que usam suas funções para favorecer o poder de fato, a quem no conjunto servem, no caso o capital multinacional e seus sócios internos, com apoio da mídia venal de sempre. Ninguém ousa duvidar que seja só por ideologia, de forma graciosa. Só uma quebra institucional, uma revolução, abriria as contas desses senhores inatingíveis da República, agentes do capital multinacional e seus sócios internos,  na vigência do Estado Democrático de Direito, que os mesmos agridem diuturnamente. Essa democradura que ajudaram a implantar os favorece e aos seus senhores.Estamos vendo quem vem ganhando com o desarranjo da economia, desemprego, desestatização e venda de riquezs do país. Não é o Brasil e seu povo.

     

     

  7. Nickname.

    16 de outubro de 2017 1:15 pm

    Encher linguiça.

    O GGN tem seus motivos pra manter Aldo Fornazieri como um de seus colunistas. Ele, um de nome Ion, p. ex., às vezes vêm com posts muito fracos. Talvez por motivos econômicos (são remunerados ou colaboram de graça pra vitrine?) não seja convi-dada ou não tenha gente que também colabora noutros blogs sites como NEXO, APUBLICA (infinitamente melhores do que o DCM – esta é uma opinião, claro). No livro há pouco tempo lançado A Crise das Esquerdas, org. por Aldo, entre Entrevistas e artigos mais aprofundados, os mais fracos são os de Aldo. Claro, talvez não sejam adequados ao público do GGN (não são leituras curtas, nem leves pra serem lidas e pensadas por smartphones, tablets, nem desktops (a correria com essas tecnolo-gias impede as pausas pra reflexão, senão a gente lê mal, conclui com ligeirezas, interpreta mal,, diz bobagens, inclusive este Nickname). O convênio tentado com o PT seria uma tragédia por tornar o blog oficioso, de visão única, contrariando a pluralidade e o respeito às opiniões diversas, que já é uma tendência no GGN há muito tempo. Manter tal linha e seu atual público é decisão do GGN e Equipe. A audiência em tantos mil números são… números cuja qualidade… é de se verificar.

  8. Clovis 50

    16 de outubro de 2017 2:02 pm

    Como democrata que sempre

    Como democrata que sempre quis ser, não posso aceitar que políticos eleitos democraticamente possam ser cassados por vontade de um juíz ou até mesmo de uma corte. Porém, penso assim só quando for por ações inerentes ao cargo, ainda que tenha ocorrido em períodos anteriores. Ou seja por questões políticas e administrativas legais.

    Aproveito a deixa, para dizer que essa prerrogativa de foro deve se extender para além do mandato quando o que está se discuntindo seja referente ao mandato. Nesse caso o Lula ou outros ex-políticos que estão sendo espezinhados por juízes de primeira, ou até de segunda instâncias, não deveriam passar por isso, mas responder como se mandato ainda estivessem.

  9. John Jahnes

    16 de outubro de 2017 3:10 pm

    STF, deveria ser SUPREMO, mas só é ÍNFIMO, ITF.

    Alguém tem dúvida que Gilmar manda e ela executa?

    Porque Gilmar ainda está lá?

    São todos covardes ou coniventes com os corruptos eleitos?

    Vergonhosamente hoje temosTRÊS PODRES PODERES nessa republiqueta das bananas que o golpe transformou o BRASIL , que LULA havia transformado em  5ª POTÊNCIA MUNDIAL.

     

  10. João de Paiva

    16 de outubro de 2017 5:23 pm

    Mais um artigo sob medida para psolistas e similares

    Prezados,

    Este artigo de AF cai como uma luva a afaga os egos de certa esquerda, por uns chamada de festiva, por outros de ingênua, por outros de extrema esquerda, mas que sempre se mostra a ‘esquerda que a direita ama e sempre pediu a Deus’. Não há qualquer originalidade no texto, repleto de clichês e lugares-comuns, pois qualquer cidadão alfabetizado conhece as mazelas do atual Congresso Nacional, o mais corrupto e reacionário da História. Mas o articulista insiste em dar ao STF uma credibilidade e respeitabilidade e um papel que JAMAIS demonstrou ter, o de ser guardião da CF e do Estado Democrático. Não há qualquer artigo da CF que confira poderes ao STF para cassar mandato parlamentar ou restringir a atuação de deputados e senadores; simples assim. Aécio é um criminoso, cujas provas são públicas; deveria ser cassado pelo Senado, que tem poderes para isso.

    Se a Lei e a CF/1988 não atendem aos intereses públicos, que sejam modificadas pelo poder eleito para isso: o Legislativo. além de golpista, por omissão, conivência ou participação na trama golpista, o STF, há mais de uma década vem se metendo onde não deve, usurpando do Congresso Nacional o poder que os eleitores conferirama deputados federais senadores: o de fazer ou modificar Leis. Essa invencionice de “interpretar” as leis, usada pelo STF para legislar segundo os interesses das oligarquias que ele representa e defende, é mais um ardil daqueles que representam as classes dominantes, que se mostram numericamente incapazes, de eleger de forma limpa, representantes em quantidade suficiente para fazer valer seus interesses no parlamento brasileiro.

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