Ensino público à distância em período de isolamento social: como minimizar o aumento da desigualdade, por Jorge Alexandre Neves

Em muitas unidades da Federação, a solução imediata pensada foi a do ensino à distância fazendo uso de recursos da internet. Essa saída é viável?

do Observatório Social da Covid-19

Ensino público à distância em período de isolamento social: como minimizar o aumento da desigualdade

por Jorge Alexandre Neves

A desigualdade educacional no Brasil é enorme. Embora tenha caído no passado recente, ela ainda é muito elevada (1). A principal variável para explicar essa desigualdade é o nível socioeconômico das famílias dos alunos (2). Portanto, no Brasil, já temos uma enorme desigualdade educacional causada pelas assimetrias entre famílias. Essa realidade nos mantém muito distantes do que seria uma sociedade justa definida pela esmagadora maioria das teorias da justiça, como a de John Rawls (3).

Se a desigualdade educacional tem como principal causa as assimetrias entre famílias, quanto mais a educação formal depender das famílias, maior será a desigualdade de resultados entre os alunos. Neste momento de isolamento social, no qual os alunos de escolas públicas (o caso das escolas privadas é diferente e não será tratado aqui) estão todos em casa aos cuidados de familiares, tendemos a elevar sobremaneira a desigualdade educacional. Em muitas unidades da Federação, a solução imediata pensada foi a do ensino à distância fazendo uso de recursos da internet. Essa saída é viável?

Vamos analisar a situação de acesso à internet, dos brasileiros. A PNAD Contínua de 2017 contou com um suplemento sobre o assunto. O professor Marden Campos e a pesquisadora Cláudia Ayer Noronha fizeram um levantamento sobre o assunto com base na PNAD Contínua de 2017 (4). Os resultados das análises mostraram que:

  • Ao todo, 42 milhões de brasileiros não têm acesso à internet em casa: essa população reside em cerca de 17 milhões de domicílios, nos quais nenhum morador da residência tem acesso à internet por meio de microcomputador, tablet, telefone celular ou outro equipamento.
  • Desses, sete milhões são estudantes, 95% em escolas públicas, e 71% estão no ensino fundamental.
Leia também:  Covid GGN: Brasil continua liderando total de óbitos no mundo

Esses alunos não têm condição de acompanhar o ensino via internet. Todavia, o problema é ainda maior. Muitos dos domicílios de baixa renda que têm algum tipo de acesso à internet o fazem via celular e, em muitos casos, com acesso restrito a certas redes sociais, sem possibilidade de acesso a conteúdos em diferentes plataformas da internet (como Google ou YouTube). A prefeitura de São Paulo desistiu do ensino à distância via internet ao verificar que 40% dos alunos de suas escolas municipais não teriam condições de acessar os conteúdos (5). Qual a solução encontrada? Enviar cadernos de conteúdo e exercícios para a residência de cada estudante. Esta não é uma boa solução, pois irá reforçar muito a desigualdade educacional, visto que colocará uma enorme responsabilidade sobre os ombros das famílias. A assimetria nos níveis socioeconômicos das famílias vai se impor sobre os resultados alcançados pelas crianças e pelos adolescentes. A desigualdade de resultado que já é enorme ficará ainda maior.

Visto tudo o que foi exposto acima, que solução poderia ser pensada? A resposta está nos dados da mesma PNAD Contínua de 2017 (6). Ao contrário da internet, a televisão tem um alcance praticamente universal no Brasil. Por sua vez, o país tem uma longa tradição de ensino à distância via rádio (iniciada na década de 1930) e TV (iniciada na década de 1950) (7). A TV Escola, que teve suas atividades iniciadas em 1996, tem uma grande quantidade de material didático já pronto. Urge que prefeituras e governos de estado se movam no sentido de buscar realizar convênios com a TV Escola e a rede nacional de TVs públicas para fazer um programa arrojado de ensino à distância em todo o território nacional voltado a estudantes de escolas públicas enquanto durar o período da pandemia. Bons materiais didáticos que contenham conteúdos que permitam às crianças e aos adolescentes conferir via TV os resultados corretos das atividades realizadas em casa levará a uma menor demanda por apoio didático das famílias, contribuindo, assim, para que a desigualdade de resultados educacionais não se eleve tão mais durante o período de isolamento social.

Leia também:  As marcas também boicotam: discursos do ódio, capitalismo, publicidade e negócios, por Antonio Hélio Junqueira

Jorge Alexandre Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997. Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

Ver: https://link.springer.com/content/pdf/10.1007%2F978-981-13-0298-5.pdf

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

1 comentário

  1. Para que convênios com prefeituras, etc? Pioraria a desigualdade. O governo federal pode fazer com que as emissoras criem canais educativos, nos casos de transmissão digital, ou requisitar horários se ainda houver analógicos. A cada meia hora, cinco minutos de anúncios, para ajudar a economia, mais um pagamento básico por ouvinte comprovado. , Ajuste uniforme dos programas, podendo coordenar com ENEM, etc. Melhor que dar dinheiro para os bancos.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome