7 de julho de 2026

“Perigo de transformação do milicianismo em paramilitarismo”, alerta Sebastián Ronderos

Sebastián Ronderos é PhD pela Universidade de Essex, pós-graduado em Cultura de Paz, Conflito, Educação e Direitos Humanos pela Universidade de Granada

“Perigo de transformação do milicianismo em paramilitarismo” é alerta do analista político Sebastián Ronderos

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por Arnaldo Cardoso

Nesta segunda parte da entrevista com o analista político colombiano Sebastián Ronderos, concedida no contexto da posse do novo governo colombiano, uma elaborada e consistente combinação de conhecimentos históricos, políticos, econômicos e culturais, interpretados através de refinada teoria política atenta aos atores, contextos, motivações, discursos e ações,  o leitor brasileiro – especialmente os interessados em América Latina – tem a oportunidade de conhecer particularidades da realidade política colombiana, bem como reconhecer fenômenos políticos e sociais que – guardadas as diferenças – contém pertinentes ensinamentos e alertas tendo em vista os graves problemas vividos pelo povo colombiano em sua luta pela autonomia, liberdade, paz e prosperidade em confronto com a pesada herança colonial.

Sebastián Ronderos é PhD pela Universidade de Essex, pós-graduado em Cultura de Paz, Conflito, Educação e Direitos Humanos pela Universidade de Granada – Espanha, em Teoria Crítica no The Birkbeck Institute for the Humanities em Londres e especialista em resolução de conflitos pela Pontifícia Universidade Javeriana da Colômbia. Atualmente, Ronderos vive em São Paulo e leciona na Fundação Getúlio Vargas.

A primeira parte desta entrevista, foi publicada neste Jornal GGN com o título “Novo governo colombiano potencializa mudança na correlação de forças na América Latina, avalia o analista político Sebastián Ronderos”.

AC – Você já apontou em outras ocasiões a existência na Colômbia de uma “relação simbiótica entre traficantes de drogas, generais e políticos”.

Pelo quanto você conhece de pesquisas nesse campo, considera que coisa similar ocorre no Brasil?

SR – O bipartidarismo elitista na Colômbia, organizado historicamente nos partidos Conservador e Liberal, conjuntamente com as estruturas mercenárias e paraestatais desenvolvidas desde os anos 1940 e de modo mais formal e diretamente vinculadas ao narcotráfico a partir dos anos 1980, configuraram uma estrutura de domínio territorial e de liderança nacional nos quais outras elites da região fracassaram precisando de intervenções de atores castrenses. Isto resultou em experiências de ditaduras militares, entre elas a ditadura militar brasileira, como uma sobreposição de alguns setores militares a um golpe prévio feito por elites antidemocráticas nos seus anseios por conduzir os rumos nacionais.

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Na Colômbia, na contramão do que ocorreu em muitos territórios latino-americanos, prescindiu-se de ditaduras militares, no entanto, produzindo números de desaparecimentos forçados em democracia, superiores aos que foram apresentados, por exemplo, pelas ditaduras argentina e chilena somadas.  

Nessas condições, então, os aparelhos criminosos e as interlocuções gestadas entre atores do Exército, narcotraficantes e políticos consolidaram marcos de domínio e profissionalização de máfias e setores criminosos na prevalência de seus interesses por acumular território e recursos e controlar contingentes populacionais relevantes para alcançar – como alcançado em 2002 por Álvaro Uribe – o controle do Estado.

O fenômeno das milícias no Brasil tem um caráter muito mais urbano enquanto na Colômbia os grupos paramilitares têm uma prevalência rural.

No Brasil, o vínculo entre milícias, latifundiários, políticos e garimpeiros pressagia um perigo de transformação do milicianismo em paramilitarismo, cuja experiência da Colômbia dos anos 1990 pode ser vista como um modelo.

AC – Na Colômbia das últimas décadas a fraude eleitoral, especialmente no processo de contagem de votos, se inseriu no roteiro para deter lideranças progressistas rumo ao poder.

Você considera que a investida de Bolsonaro para desacreditar as urnas eletrônicas no Brasil se insere nessa mesma estratégia para fraudar resultados eleitorais?

SR – Acredito que sim. As bases do golpismo contemporâneo se baseiam em processos eleitorais inescrutáveis e para tais anseios as urnas eletrônicas se apresentam como um impasse.

Hoje na Colômbia governa uma força progressista, pois teve a capacidade de juntar um caudal eleitoral que superou a fraude eleitoral do voto impresso, ligada em boa medida aos dinheiros do narcotráfico, e porque foram desarticuladas as tentativas de assassinato e sabotagem diferente do que se viu no final dos anos 1980 e 90 quando foram assassinados quatro candidatos presidenciais.

A expansão das milícias no Brasil e um hipotético desmantelamento do sistema de urnas eletrônicas consolidariam as condições para o desenvolvimento de estruturas de fraude eleitoral em grande escala.

AC – Tem sido recorrente nas análises políticas no Brasil o alerta sobre a gravidade do fenômeno político e cultural do bolsonarismo.

Você acredita que o bolsonarismo se manterá no Brasil pós-Bolsonaro, com suas organizações criminosas, assim como – respeitadas as diferenças – o uribismo na Colômbia e o fujimorismo no Peru?

SR – Vejo a figura de Bolsonaro mais como um sintoma do que como uma doença. As bases das quais o bolsonarismo se nutre vão muito além do Bolsonaro como liderança. Vejo as transformações nas relações de trabalho onde a precariedade e a gramática do empreendedorismo tomam conta do espaço outrora ocupado pela organização do trabalho assalariado; uma crise da representatividade democrática que não se restringe ao Brasil mas onde forças progressistas brasileiras não conseguiram de forma decidida nomear no campo do discurso político se restringindo a uma gramática muito mais alinhada ao mundo da gestão e uma história nacional que consolida afetos populares e lealdades políticas a visões de ordem e progresso nos quais os movimentos sociais e as forças progressistas são enxergadas com impasses e ameaças.

Deve se dar uma importante batalha cultural pela ressignificação da cultura popular brasileira e na incorporação de lutas históricas de resistências democráticas. Cabe ainda, se conectar também com os insumos emancipatórios que não prosperaram a partir de junho de 2013 no reconhecimento de uma crise de representação que transcende a manipulação e as notícias falsas e atacar decididamente a desigualdade e a ausência do Estado que favorece a expansão de estruturas criminosas.

As bases que avivaram o bolsonarismo estavam presentes no momento virtuoso do ciclo progressista brasileiro. Estas subsistem e tem se aprofundado ainda hoje. Assim, considero que a disputa política no Brasil está aberta e os insumos que dão fôlego ao bolsonarismo hoje estarão disponíveis para uma transformação organizacional amanhã, independentemente do resultado eleitoral de outubro.

Acredito que a disputa política que se abriu a partir dos ciclos de protestos de junho de 2013 é de longa duração e não será resolvia nos próximos quatro anos.

AC – Uma Colômbia alinhada aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos na região foi muitas vezes vista como obstáculo para propostas de integração de políticas de segurança na América do Sul e, particularmente no relacionamento com o Brasil, atritos político-diplomáticos ocorreram em torno da temática da soberania, como em negociações sobre ampliação da presença militar norte-americana na Colômbia.

Nessa delicada área, o que se pode esperar de mudanças sob o governo Gustavo Petro?

SR – Com efeito a Colômbia tem sido um território central nos processos e desarticulação das tentativas de integração regional mais recentes com uma presença explícita de tropas norte-americanas e desde onde tem se adiantado planos de espionagem para favorecer sabotagens a governos vizinhos, como foi o caso do processo de impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff e de sabotagem como foi o assassinato do presidente do Haiti Jovenel Moïse com a participação de ex-militares colombianos.

A narrativa construída historicamente de um inimigo interno incorporado pelas guerrilhas e pelo fantasma do comunismo consolidou consensos sociais relevantes que ajudaram na manutenção desses acordos com os Estados Unidos permitindo uma relação militar cada vez mais promíscua na capacidade de ingerência e de ação em território colombiano e, portanto, também uma capilaridade em inteligência e ação em nível regional. Desde a assinatura dos Acordos de Paz de 2016 se observa uma transformação importante da opinião pública em relação a necessidade do conflito armado, se fragmentam os insumos discursivos que veio justificando uma guerra civil e que sustentaram o uribismo durante duas décadas fortalecendo processos de um clamor popular por uma democracia de maior intensidade.

A retomada dos Acordos de Paz que foram sabotados sistematicamente durante o governo Duque são centrais na desmilitarização do território nacional, na separação da polícia e do Ministério da Defesa restituindo seu caráter propriamente civil e prescindindo e rescindindo os acordos de cooperação militar com os Estados Unidos.

Estes ânimos não me deixam dúvida de que só encontrarão reprovação por parte de Washington. Os esforços nacionais por fortalecer a soberania territorial não poderão colher bons frutos caminhando solitariamente. Ou a América Latina aprende a caminhar junta ou, como posto por Gabriel Garcia Márquez estaremos os povos latino-americanos condenados a mais cem anos de solidão.

Arnaldo Cardoso, sociólogo e cientista político formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), escritor e professor universitário.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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1 Comentário
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  1. José de Almeida Bispo

    22 de agosto de 2022 8:33 pm

    É impressionante o fetiche exercido na classe intelectual por esse tal “movimento das ruas” em 2013.

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