Maira Vasconcelos
Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN. Escreve crônicas para o GGN, desde 2014.
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Quem é quem no 2º turno: Sergio Massa parece um estadista perto de Javier Milei

Qual Massa governaria como presidente é uma incógnita, e Milei é um passo certo ao autoritarismo e perda de direitos conquistados

Quem é quem no 2º turno: Sergio Massa parece um estadista perto de Javier Milei

por Maíra Vasconcelos

Especial para Jornal GGN

Tendo como oponente o candidato Javier Milei, “La Libertad Avanza”, com muito pouco um candidato pode parecer um estadista. Por outro lado, o peronismo apresentou para estas eleições um político de centro e ortodoxo, tal como é Sergio Massa, “Unión por la Patria”,  mesmo que ainda não se saiba qual Massa poderia governar o país, caso seja eleito neste domingo, 19 de novembro. O atual ministro da Economia carece de uma imagem peronista, que, talvez, esteja em formação no transcorrer desta campanha eleitoral, e que pode continuar em processo caso seja eleito. Sendo hoje pouco aceito até mesmo entre seus “pares”, quer dizer, por determinada ala dentro do peronismo. Também sabe-se que há uma ampla parcela de eleitores peronistas que votarão bastante descontentes neste que, algum dia, foi considerado um traidor. Mas a impossibilidade em poder definir qual Massa governaria como presidente, se dá por suas diferentes etapas na política, um perfil oportunista e conciliador, segundo seus interesses pessoais. Um político de muitas facetas. Um candidato que não é kirchnerista e que, tampouco, caiu na tentação de atuar como tal. Aliás, chegou a bradar, em sua época de oposição, que a hoje vice-presidente Cristina Kirchner deveria ser presa.

Por isso, talvez, a própria candidatura do atual ministro, mas não somente, signifique publicamente o início do fim do movimento kirchnerista, ou ao menos uma queda sem previsão de retorno ou não. Assim, Massa, que não tem conseguido controlar a inflação – ainda que o índice de 8,3% do mês de outubro tenha servido de comemoração aos seus eleitores – e nem mesmo estabilizar o câmbio em relação ao peso argentino, o candidato apresenta ligeira vantagem para o segundo turno contra o despreparado e experimental Javier Milei, segundo as últimas pesquisas de opinião.

Ainda assim, a presença do ultradireitista no cenário político argentino, visto como um fenômeno exitoso, já que soube captar as demandas e descontentamentos atuais da sociedade argentina, conseguiu também romper com a polarização que vinha sustentando a política local, há vinte anos, entre macristas versus kirchneristas. E mesmo considerando que ocorra uma derrota de Javier Milei, este domingo, a ultradireita quando chega a consolidar um candidato nas eleições, ainda que perca a presidência, a inclinação política de seus seguidores permanece como uma força que se consolida socialmente, a exemplo do bolsonarismo no Brasil, comentário comparativo bastante presente na imprensa local. O Brasil tem servido de exemplo para dizer sobre a crescente onda da extrema-direita na Argentina, guardadas as suas devidas diferenças.

Mas, quando se considera um cenário de vitória para Sergio Massa, e de continuidade do peronismo no poder, o atual ministro representa ainda uma incógnita. Como escrito pelo jornalista Sebastián Lacunza, no jornal “El DiarioAR”. “Por razões e caprichos da história, o candidato peronista pode vir a ser o escolhido para vencer os pesadelos. É de se perguntar qual Massa seria o que hipoteticamente irá governar. O do oportunismo, das lealdades difusas e das tramas ocultas de poder, ou o líder que aprendeu com seus erros e é chamado a assumir a presidência em um momento crucial”, termina assim o artigo “La doble amenaza de Milei no oculta el mar de dudas que despliega Massa”.

Considerando que nenhuma pesquisa de opinião conseguiu prever que Milei sairia vencedor nas eleições Primárias deste ano, e que também a maioria não refletiu a vitória de Massa no primeiro turno, as últimas pesquisas para o segundo turno divulgam uma leve diferença para Massa, ao redor de 3%, mas que ainda assim está bem rente à margem de erro. Vale dizer que logo após terminado o pleito de 22 de outubro, Milei aparecia nas pesquisas com certa vantagem sobre Massa.

Outro fator que tem sido considerado como possibilidade de mudança no cenário eleitoral, seja para um ou outro candidato, é o debate do último domingo, 12, em que o despreparo e a inexperiência do ultradireitista Javier Milei, ficaram evidentes, após perder por nocaute para o preparado Sergio Massa, que tem conduzido uma campanha extremamente profissional. O candidato, além do mais, segundo o jornalista Carlos Pagni, contratou profissionais brasileiros expertos em debate eleitoral, e teria usado e repetido técnicas que o presidente Lula da Silva utilizou contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, em debates da última eleição, no Brasil, em 2022.   

Direita e ultradireita: de mãos dadas também na Argentina

A tradicional direita argentina, ou direita mainstream, representada pela coalizão “Juntos por el cambio”, após a derrota de Patricia Bullrich, no primeiro turno das eleições, correu para abrigar-se e também apoderar-se do projeto político da ultradireita de Javier Milei, os chamados libertários.

O PRO, que em seus inícios era um partido mais de centro-direita, hoje lidera a aliança política que, principalmente por causa do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), fundador e líder do PRO, tem contribuído para fortalecer a emergente extrema-direita. Macri não escondeu sua alegria, quando o minarquista Milei despontou em primeiro lugar nas eleições Primárias, em agosto deste ano, pleito onde cada partido apresenta seus pré-candidatos para que a população escolha qual deles irá às eleições gerais. Não sendo novidade que Macri tenha decidido levar adiante essa aliança, já que os flertes com Milei vêm, ao menos, desde 2001. E, além do mais, Massa é um dos políticos que Macri mais detesta, no âmbito pessoal. Ainda que o atual representante do peronismo tenha apoiado o governo de Macri, em 2015.

A campanha de Bullrich insistiu em polarizar e permaneceu apostando no discurso contra o kirchnerismo, quando o próprio movimento entrou em fase de declínio e o peronismo, como dizem, está em “processo de transformação”. É como se “Juntos por el cambio” tivesse levado adiante uma campanha passada, por assim dizer, e então era o antiperonismo ou nada.

A comentada mudança no tabuleiro político argentino, a partir destas eleições, também tem levado a considerar que o Proposta Republicana tem um futuro incerto, já que o seu líder, Macri, decidiu apoiar os libertários, correndo o risco de que o partido perca sua identidade. Seguindo assim o mesmo caminho das direitas tradicionais que se aliam às novas direitas neofascistas, pela ansiosa gana de chegar mais rápido ao poder. Mas, se Milei ganhar, Macri ficará com os louros, e se perder, o fundador do PRO carregará parte do fracasso.

A vice de Milei, Victoria Villarruel: uma política a favor de genocidas


Milei é um fenômeno político e isso é uma afirmação que tem sido repetida, há meses, na imprensa argentina. Mas também a sua companheira de fórmula, a candidata a vice-presidente Victoria Villarruel, tem aparecido com bastante destaque, dada a sua aceitação popular, mas também porque demonstra preparo e capacidade para a atuação pública em entrevistas e debates, ainda que se considere a conduta colaborativa, digamos, de alguns jornalistas entrevistadores. E, assim como Milei, sua companheira também expõe pautas de uma política neofascista. O discurso de Villarruel é em favor de genocidas que foram condenados por lesa humanidade, por crimes cometidos na última ditadura cívico-militar argentina (1976-1983). Um jornal local chegou a enumerar os genocidas que Villarruel já defendeu publicamente, e esmiuçou o perfil de cada um dos militares.

Para citar um exemplo, a candidata a vice defendeu Juan Daniel Amelong, torturador que tem cinco condenações, sendo três perpétuas, no último debate televisionado, dedicado aos candidatos a vice-presidente, no último 8 de novembro. “”O que eu acho importante é reconhecermos que houve vítimas do terrorismo aqui que não têm direitos humanos. Muitas dessas pessoas também estão detidas hoje. Por exemplo, Amelong é uma pessoa cujo pai foi assassinado por Montoneros, na cidade de Rosário. Ele era civil, engenheiro, pai de 11 filhos, e hoje seu filho está preso por crimes contra a humanidade”. Amelong é um torturador que fazia parte do 121º Destacamento de Inteligência do Exército, em Rosário.

Em outro momento, ainda neste segundo turno das eleições, com convicção e bastante firme, em um dos canais de televisão mais vistos da Argentina, Villarruel disse que com base em argumentos científicos é necessário reabrir o debate sobre o aborto, sendo que a interrupção legal e voluntária da gravidez é lei no país, desde 2020. “Infelizmente a lei na Argentina acaba sendo estendida ao infinito”, e completou, “somente alegando problemas psicológicos a mãe pode fazer um aborto”.

Muito a vontade no programa “Todo noticia”, do canal de televisão TN, a candidata pela aliança “La Libertada Avanza” também pediu uma auditoria do sistema de indenização para vítimas de terrorismo de Estado, algo que está previsto nas chamadas “leis reparatórias”, e defendeu, ainda, a abertura das instalações do antigo centro de detenção clandestino, a ex-Esma (Escola de Mecânica da Marinha), hoje transformada em museu sobre a memória da ditadura. “Um local como a ESMA tem 17 hectares que também poderiam ser aproveitados por todo o povo argentino, especialmente porque, na época, ele foi planejado para ser usado como uma escola”, afirmou Villarruel ao defender algumas de suas pautas antidireitos humanos.

Maíra Vasconcelos – jornalista, mora em Buenos Aires, publica artigos sobre política argentina no Jornal GGN e cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina.

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Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN. Escreve crônicas para o GGN, desde 2014.

1 Comentário

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  1. “Ainda assim, a presença do ultradireitista no cenário político argentino, visto como um fenômeno exitoso, já que soube captar as demandas e descontentamentos atuais da sociedade argentina, conseguiu também romper com a polarização que vinha sustentando a política local, há vinte anos, entre macristas versus kirchneristas”.
    Alguém aí me explica como todos os palhaços sinistros usados para desestabilizar vários países com a mesma receita “captaram as demandas e descontentamentos…etc”

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