14 de setembro de 2026

A rede do crime que agasalha Flávio Bolsonaro, por Benedito T. César

O que Fabrício Queiroz, Adriano da Nóbrega, Frederick Wassef, Daniel Vorcaro, Mário Frias, Karina Gama e um contador preso têm em comum?
Flávio Bolsonaro avança em direção ao Palácio do Planalto acompanhado por personagens e relações que atravessam mais de duas décadas de sua trajetória política. Crédito: Ilustração produzida por inteligência artificial para a Rede Estação Democracia.

Fabrício Queiroz, Adriano da Nóbrega e outros ligados a Flávio Bolsonaro são investigados por crimes como rachadinhas e milícias.
Flávio Bolsonaro recebeu homenagens a policiais ligados a crimes; investigações envolvem Banco Master, Dark Horse e fraudes no INSS.
Contador preso no caso INSS tem ligação com escritório de Flávio; rede de operadores e empresas conecta passado à campanha presidencial.

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A rede do crime que agasalha Flávio Bolsonaro, por Benedito Tadeu César

De Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega ao Banco Master, Dark Horse e às conexões recentes com investigados no caso do INSS, a trajetória de Flávio Bolsonaro é atravessada por personagens envolvidos em alguns dos maiores escândalos criminais das últimas décadas.

O que Fabrício Queiroz, Adriano da Nóbrega, Frederick Wassef, Daniel Vorcaro, Mário Frias, Karina Gama e um contador preso na investigação das fraudes do INSS têm em comum?

Em momentos diferentes, todos entraram no raio de relações políticas, pessoais, profissionais, empresariais ou financeiras de Flávio Bolsonaro e de seu entorno. Alguns foram condenados. Outros, denunciados ou investigados. Há também empresários e operadores que aparecem em investigações ainda em andamento.

O que importa aqui não é uma relação isolada. É a recorrência. São mais de duas décadas em que personagens envolvidos com rachadinhas, milícias, lavagem de dinheiro, Banco Master, recursos públicos e, mais recentemente, fraudes contra aposentados aparecem, desaparecem e reaparecem ao redor da trajetória política de Flávio Bolsonaro.

Agora ele disputa a Presidência da República. E alguns personagens do passado voltaram à cena enquanto novos nomes entram no mapa. A questão, portanto, deixou de interessar apenas à biografia do candidato.

Interessa ao futuro do país.

Queiroz nunca foi apenas Queiroz

Fabrício Queiroz é o personagem que melhor atravessa essa história. Amigo antigo de Jair Bolsonaro, ex-policial militar e assessor de Flávio, foi apontado pelo Ministério Público como operador financeiro do esquema das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Em novembro de 2020, o MP denunciou Flávio, Queiroz e outras 15 pessoas por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita. Segundo a acusação, servidores devolviam parte dos salários e Queiroz recolhia e movimentava o dinheiro.

Flávio não foi absolvido dessas acusações em julgamento de mérito. As principais provas foram anuladas por questões processuais, o que esvaziou a investigação.

Queiroz também não foi banido do círculo político de Flávio. Em 2024, recebeu seu apoio público ao disputar uma vaga de vereador em Saquarema. Em 2026, voltou a apoiar o amigo na campanha presidencial.

De Adriano às 527 homenagens

Queiroz conduz diretamente a Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelo Ministério Público como liderança da milícia de Rio das Pedras e associado ao Escritório do Crime.

A relação com Flávio foi extensa. Queiroz apresentou Adriano a ele; Adriano deu-lhe instrução de tiro; recebeu de Flávio uma moção e teve posteriormente proposta pelo deputado a Medalha Tiradentes. Flávio e Jair Bolsonaro o visitaram na prisão. Raimunda Veras Magalhães, mãe de Adriano, e Danielle Mendonça da Costa da Nóbrega, sua então mulher, trabalharam no gabinete de Flávio. Segundo o MP, Danielle transferiu pelo menos R$ 150 mil para Queiroz, parte dos recursos passando por contas controladas por Adriano.

A sequência é reveladora: Queiroz → Adriano → familiares de Adriano → gabinete de Flávio → dinheiro → Queiroz.

Adriano tampouco foi um caso solitário. Levantamento da revista Piauí encontrou 495 moções e 32 medalhas concedidas por Flávio a integrantes das forças de segurança durante seus quatro mandatos de deputado estadual: 527 homenagens. Ao menos 23 homenageados tornaram-se réus ou condenados por crimes que iam de homicídio a lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraude em licitação.

Entre eles estão Ronald Paulo Alves Pereira, posteriormente apontado como liderança da milícia de Rio das Pedras e alvo da Operação Intocáveis, e Edson Alexandre Pinto de Góes, posteriormente condenado por lavagem e ocultação de bens.

Uma coincidência pode ser coincidência.

Vinte e três já formam um padrão que merece ser explicado.

Wassef estava lá

Quando a investigação das rachadinhas apertou o cerco sobre Queiroz, outro personagem do círculo Bolsonaro entrou definitivamente na história: Frederick Wassef.

Foi numa propriedade utilizada por Wassef, em Atibaia, que Queiroz foi localizado e preso em junho de 2020. O advogado já atuava para Jair e Flávio Bolsonaro.

Passaram-se seis anos. Em julho de 2026, Wassef subiu ao palco no lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, em São Paulo.

O passado estava de volta à campanha.

Do gabinete ao Banco Master

Se Queiroz, Adriano e Wassef formam o núcleo histórico, Banco Master e Dark Horse abriram uma dimensão financeira muito maior.

Flávio procurou Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, para captar recursos destinados à cinebiografia de Jair Bolsonaro. Documentos e mensagens reunidos pela Polícia Federal mostram negociações de aproximadamente US$ 24 milhões e remessas superiores a US$ 12 milhões, por meio de uma cadeia de operadores e empresas no Brasil e nos Estados Unidos.

A PF investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros crimes. Dark Horse, porém, não termina em Vorcaro.

A investigação alcançou Mário Frias, roteirista e produtor-executivo do filme; Karina Gama, responsável pela Go Up Entertainment e dirigente de entidades que receberam recursos públicos; emendas parlamentares; intermediários financeiros; e empresas abastecidas por um contrato da Prefeitura de São Paulo que, depois de um aditivo, chegou a aproximadamente R$ 157 milhões.

Cerca de 5 mil páginas da investigação paulista tiveram o sigilo levantado em setembro. Elas revelaram uma extensa circulação de recursos entre o Instituto Conhecer Brasil, dirigido por Karina, empresas subcontratadas e outras entidades ligadas ao mesmo núcleo.

O caso do filme começava a revelar algo muito maior que um filme.

As redes começam a se cruzar

Uma empresa contratada pelo ICB relaciona-se a um homem apontado pelo Ministério Público paulista como integrante do PCC. Outra empresa atingida pela investigação de Dark Horse, a Recovery Black, também aparece nas apurações sobre as fraudes do INSS.

A Polícia Federal procura reconstruir esses circuitos e determinar a origem e o destino dos recursos. O que já aparece documentalmente é uma sucessão de empresas, entidades, contratos públicos, emendas e transferências que convergem para o mesmo ambiente empresarial e político da produção de Dark Horse.

A conexão com o INSS chega ainda mais perto de Flávio. Alexandre Caetano dos Reis, contador de seu escritório de advocacia, foi preso na investigação das fraudes contra aposentados. A empresa contábil de Alexandre também atendia companhias relacionadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. E Letícia Caetano, irmã de Alexandre, administra o escritório de Flávio.

Há ainda a Bravo Grafeno, empresa da qual Flávio foi sócio e que compartilhou endereço em Brasília com empresas relacionadas ao Careca do INSS.

O mapa continua crescendo.

O problema não é uma fotografia. É o mapa

Queiroz poderia ser tratado como um caso. Adriano, como outro. Wassef, como um terceiro. O Banco Master poderia ser apresentado separadamente de Dark Horse. O contador preso no caso do INSS poderia ser considerado apenas mais uma coincidência.

É exatamente assim que essa história costuma aparecer: fragmentada.

Quando as peças são colocadas sobre a mesma mesa, surge outra imagem.

Queiroz operou o gabinete. Adriano foi homenageado e teve familiares empregados por Flávio. Outros policiais homenageados acabaram envolvidos em organizações criminosas e crimes graves. Queiroz foi preso numa propriedade usada por Wassef. Wassef reapareceu no lançamento da candidatura. Flávio procurou Vorcaro para financiar Dark Horse. O dinheiro atravessou operadores e empresas no Brasil e nos Estados Unidos. A produção se conecta a entidades abastecidas por recursos públicos. E o contador do escritório de Flávio foi preso na investigação do INSS.

Não estamos mais diante de uma fotografia.

Estamos diante de um mapa.

Quem entra pela mesma porta?

E o mapa ganha outro significado quando Flávio Bolsonaro deixa de disputar apenas uma cadeira no Senado e passa a disputar a Presidência da República.

Um presidente não chega sozinho ao Palácio do Planalto. Chega acompanhado das relações de confiança que construiu, de seus operadores políticos, advogados, empresários, financiadores, assessores, familiares e aliados.

Flávio apresenta-se ao eleitorado prometendo segurança e combate ao crime. Ao mesmo tempo, Queiroz continua aliado, Wassef reapareceu no lançamento de sua candidatura e investigações envolvendo Dark Horse, Banco Master, recursos públicos e pessoas de seu entorno poderão continuar abertas quando o próximo presidente tomar posse, em 1º de janeiro de 2027.

Por isso, o passado de Flávio Bolsonaro não é apenas passado.

É também uma pista sobre as relações que poderão cercar o poder presidencial.

E deixa a pergunta que abre esta série: quem dessa rede está chegando com Flávio Bolsonaro às portas do Palácio do Planalto?


Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Foi docente da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), jornalista e diretor dos jornais Posição (ES) e Sul 21 (RS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED – Rede Estação Democracia.

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Benedito Tadeu César

Benedito Tadeu César é mestre em antropologia social e doutor em ciências sociais, ambos pela UNICAMP, cientista político e professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Especialista em democracia, partidos políticos e análise eleitoral, poder e soberania, integra a Coordenação do Comitê em Defesa da Democracia e do Estado Democrático de Direito e é diretor da RED Rede Estação Democracia.

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