Entre duas ultracentrífugas
Álvaro Alberto, Othon Pinheiro e a longa busca brasileira para transformar recursos em conhecimento e conhecimento em soberania
por Celso P. de Melo
“Sem tecnologia não há esperança.”
Othon Luiz Pinheiro da Silva
Nota: Este ensaio tem como ponto de partida a apresentação “Almirante Othon: Um Herói Brasileiro – A Quem Incomoda o Programa Nuclear Brasileiro?”, realizada em 23 de julho de 2018, como parte da programação da Sociedade Brasileira de Física durante a 70ª Reunião Anual da SBPC, em Maceió (AL).
O homem que mudava de trem
Berlim, início da década de 1950. Um homem entra no metrô e percebe que está sendo seguido.
Muda de percurso. Faz uma baldeação. Depois outra. Desce, toma outro trem. Os mesmos homens reaparecem. Já não parece coincidência.
O homem não é um agente secreto.
É um almirante brasileiro.
Álvaro Alberto da Motta e Silva está na Alemanha em uma missão que poucos conhecem. Cientista, oficial da Marinha e presidente do recém-criado Conselho Nacional de Pesquisas, procura uma tecnologia que as grandes potências tratam como assunto de segurança nacional: ultracentrífugas destinadas à separação isotópica do urânio [1, 2]. A Alemanha ainda vive sob as restrições impostas pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial. A pesquisa nuclear é rigidamente controlada. Mesmo assim, autorizado pelo governo de Getúlio Vargas, Álvaro Alberto estabelece contatos com cientistas alemães e negocia a construção de três ultracentrífugas destinadas ao Brasil [1, 2].
Uma geração depois, outro almirante brasileiro despertaria semelhante atenção internacional. E, novamente, no centro da história estaria uma ultracentrífuga.
Seu nome era Othon Luiz Pinheiro da Silva.
Mas havia uma diferença fundamental.
Álvaro Alberto procurava no exterior uma máquina que o Brasil ainda não sabia construir.
A geração de Othon aprenderia a construí-la.
Entre essas duas ultracentrífugas existe muito mais do que a história de dois militares. Há uma longa trajetória de tentativas, derrotas, acordos, pressões, instituições, cientistas, engenheiros e técnicos em torno de uma questão que atravessa a história brasileira moderna: o que separa um país que possui recursos estratégicos de um país capaz de transformá-los em poder tecnológico?
Para entender por que um almirante brasileiro estava sendo seguido na Alemanha, porém, é preciso recuar alguns anos.
E começar por algo aparentemente muito menos extraordinário.
Areia.
Tudo começara com areia
Durante muito tempo, as areias monazíticas espalhadas por trechos do litoral brasileiro pareciam apenas uma peculiaridade geológica. A revolução científica e tecnológica do século XX mudou seu significado.
A monazita contém terras raras e tório. Com o avanço da física nuclear, minerais antes vistos sobretudo como matérias-primas industriais adquiriram uma nova dimensão estratégica.
O Brasil possuía reservas importantes.
Mas possuir o minério e dominar a tecnologia necessária para utilizá-lo eram coisas inteiramente diferentes.
Essa assimetria aparece de maneira quase exemplar em fevereiro de 1945, quando o secretário de Estado norte-americano Edward Stettinius visitou o Brasil.
Em 17 de fevereiro, Stettinius reuniu-se com Getúlio Vargas. Depois de tratarem de outros assuntos, o secretário de Estado introduziu o tema do tório. Um memorando enviado seis dias depois ao general Leslie Groves, responsável operacional pelo Projeto Manhattan, registra que Stettinius chamou então à reunião seu assessor, o major John Vance.
O documento é revelador. Stettinius fora orientado a abrir caminho para futuras negociações que assegurassem aos Estados Unidos acesso privilegiado à monazita brasileira. Washington pretendia que o Brasil não vendesse o mineral a terceiros sem seu consentimento e demonstrava interesse em adquirir toda a produção destinada à exportação. Sem ainda conhecer a importância estratégica que o tório adquirira, Vargas mostrou-se disposto a negociar, ressalvando que qualquer acordo dependeria da aprovação de seu governo [3].
A Segunda Guerra ainda não terminara. A bomba atômica sequer havia sido utilizada. Mas Washington já tratava a monazita brasileira como um recurso estratégico.
Nos anos seguintes, acordos e exportações colocariam esse mineral no centro de controvérsias crescentes. Duas empresas teriam um papel importante nessa história. A MIBRA – Monazita e Ilmenita do Brasil S.A., ligada ao empresário Boris Davidovitch, explorava e beneficiava as areias monazíticas de Guarapari. A Orquima – Indústrias Químicas Reunidas S.A., da qual o poeta e empresário Augusto Frederico Schmidt era diretor e acionista, avançara mais na cadeia tecnológica: processava a monazita e dominava técnicas de separação de terras raras em elevado grau de pureza. Chegou a produzir óxido de európio destinado a sistemas de controle de nêutrons associados ao reator do USS Nautilus, o primeiro submarino de propulsão nuclear do mundo.
As duas empresas acabariam envolvidas nas disputas sobre a exploração, o processamento e a exportação dos minerais atômicos brasileiros. Em 1956, essas controvérsias chegaram ao Congresso e foram investigadas pela CPI da Energia Atômica. Augusto Frederico Schmidt e Boris Davidovitch estiveram entre os convocados a depor [4].
A areia tornara-se assunto de Estado.
Mas a história da Orquima revelava que a divisão entre quem fornecia matéria-prima e quem detinha conhecimento não era absoluta. O Brasil possuía os minerais e já demonstrava capacidade para processá-los e produzir materiais de alta pureza. O grande salto ainda estava adiante: transformar essas competências em domínio das tecnologias que definiam a nova era nuclear.
Álvaro Alberto percebeu muito cedo que era preciso acelerar esse salto.
Conhecimento em troca
Álvaro Alberto era uma figura incomum.
Oficial da Marinha, cientista e professor, dedicou décadas ao ensino e à pesquisa e participou da construção das primeiras instituições brasileiras voltadas para uma política científica de Estado. Presidiu a Academia Brasileira de Ciências e tornou-se, em 1951, o primeiro presidente do Conselho Nacional de Pesquisas, o CNPq [2].
Sua preocupação com os minerais atômicos ia muito além de impedir que saíssem do país.
A pergunta era outra: o que o Brasil receberia em troca?
Daí surgiu uma das ideias centrais de sua atuação: as compensações específicas [2].
Se as grandes potências tinham interesse nos minerais estratégicos brasileiros, o Brasil deveria utilizar essa vantagem para obter aquilo de que mais necessitava: equipamentos, formação científica e tecnologia.
Minerais em troca de conhecimento.
Álvaro Alberto não defendia o isolamento tecnológico. Queria enviar cientistas brasileiros aos grandes centros estrangeiros, trazer pesquisadores para trabalhar no país, adquirir equipamentos e estabelecer cooperação internacional.
O que recusava era uma divisão internacional do trabalho em que ao Brasil coubesse fornecer a matéria-prima enquanto o conhecimento permanecesse concentrado em outros países.
A escolha, portanto, não era entre cooperação e autarquia.
Era entre uma cooperação capaz de produzir aprendizagem e outra que perpetuasse a dependência.
Quando encontrou barreiras ao acesso às tecnologias nucleares mais sensíveis, Álvaro Alberto procurou outras portas.
Uma delas estava na Alemanha.
As três máquinas
A Alemanha que Álvaro Alberto encontrou ainda carregava as marcas da guerra.
E também suas restrições.
As potências ocupantes acompanhavam atentamente atividades que pudessem significar a recuperação da capacidade alemã em áreas estratégicas. A tecnologia nuclear estava entre elas.
Álvaro Alberto aproximou-se de cientistas alemães, especialmente Wilhelm Groth, que trabalhava com separação isotópica. Otto Hahn, um dos descobridores da fissão atômica, também aparece na rede de contatos estabelecida nessas missões [1, 2].
O objetivo brasileiro era ousado: adquirir três ultracentrífugas e, ao mesmo tempo, formar pessoal capaz de compreender a tecnologia.
A operação foi conduzida sob sigilo. Com autorização de Getúlio Vargas, o CNPq encomendou os equipamentos na Alemanha e enviou três químicos brasileiros para aprender a trabalhar com o hexafluoreto de urânio, matéria-prima necessária ao processo de separação isotópica. Em 21 de janeiro de 1954, o Banco do Brasil depositou 80 mil dólares no Banco Alemão para a América do Sul para financiar a construção das ultracentrífugas. Meses depois, as três máquinas estavam prontas.
Foi então que a operação deixou de ser apenas científica e tecnológica e entrou definitivamente no terreno da geopolítica.
Para acelerar o embarque e preservar o sigilo, Vargas determinou que o CNPq solicitasse ao Itamaraty facilidades para a importação. Segundo depoimento posterior de Renato Archer, Edmundo Barbosa da Silva, então importante membro do Departamento Econômico do Itamaraty, comunicou a operação à embaixada dos Estados Unidos. No dia seguinte, as ultracentrífugas foram apreendidas pelas autoridades norte-americanas de ocupação na Alemanha, antes de seu embarque em Hamburgo.
Álvaro Alberto ainda tentou reverter a decisão. Enviado novamente à Alemanha por Vargas, soube que a apreensão fora determinada pela Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos. Seguiu então para os Estados Unidos e procurou Lewis Strauss, presidente da comissão. Segundo seu relato, Strauss chegou a negar a existência das ultracentrífugas. A negociação estava bloqueada.
Não se pretendia comprar apenas máquinas.
Pretendia-se aprender com elas.
E talvez seja esse o aspecto mais revelador do episódio. O Brasil tinha encontrado quem aceitasse vender o equipamento, mobilizara cientistas, negociara sua fabricação e efetuara o pagamento. Ainda assim, as máquinas não podiam chegar ao país. As três ultracentrífugas expunham uma fronteira que acompanharia o Brasil durante décadas: tecnologias estratégicas não circulam pelo mundo como mercadorias comuns.
Comprar uma máquina não significa adquirir o conhecimento necessário para reproduzi-la.
Álvaro Alberto acabava de encontrar essa fronteira.
Quando a disputa chegou ao Congresso
A controvérsia nuclear não permaneceria confinada aos laboratórios e aos gabinetes diplomáticos.
Depois da morte de Getúlio Vargas, em agosto de 1954, Álvaro Alberto perdeu seu principal apoio político. Sua posição tornou-se ainda mais vulnerável no governo Café Filho, em meio às divergências sobre os rumos da política nuclear e à repercussão das denúncias de Carlos Lacerda sobre desvios de recursos no CBPF, instituição apoiada pelo CNPq. Embora as irregularidades envolvessem a administração do próprio CBPF, o episódio ampliou a pressão política sobre Álvaro Alberto. Em janeiro de 1955, ele pediu demissão da presidência do CNPq [5, 6].
Mas as controvérsias sobre os minerais atômicos, os acordos com os Estados Unidos e as condições em que o Brasil negociava seus recursos estratégicos não desapareceram.
Em 1956, explodiram no Congresso.
Renato Archer tinha apenas 28 anos e exercia seu primeiro mandato como deputado federal quando levou ao Congresso documentos e denúncias sobre a política nuclear e as exportações de minerais atômicos. Do outro lado estava o general Juarez Távora, uma das figuras mais influentes da vida política e militar brasileira. O confronto entre os dois expôs publicamente concepções distintas sobre a inserção internacional do Brasil [4, 5].
A CPI criada naquele ano examinaria os acordos atômicos, as exportações de minerais e os conflitos em torno da condução da política nuclear brasileira. A literatura histórica registra também a investigação das atividades de empresas ligadas à monazita e das pressões exercidas sobre a política nuclear [4].
A areia voltava ao centro da história.
Mas a questão já era muito maior do que saber quem explorava a monazita ou para onde ela era exportada. O que estava em discussão era o lugar que o Brasil ocuparia na nova ordem tecnológica criada pela era nuclear.
Continuaria a fornecer minerais estratégicos em troca de equipamentos e acordos definidos pelos países que já dominavam a tecnologia? Ou utilizaria esses recursos como instrumento de negociação para formar cientistas e engenheiros, adquirir conhecimento e construir capacidade própria?
Era, em essência, a questão que Álvaro Alberto formulara com sua política de compensações específicas – e que encontrara um limite concreto na Alemanha, quando as ultracentrífugas já pagas pelo Brasil foram impedidas de chegar ao país.
A monazita exportada, as ultracentrífugas apreendidas e os documentos agora discutidos no Congresso eram capítulos da mesma disputa: possuir recursos estratégicos não bastava; era preciso transformar recursos em conhecimento e conhecimento em capacidade tecnológica.
O almirante saíra do CNPq.
A pergunta que formulara, porém, permanecia.
A ideia que sobreviveu ao homem
Nos anos que se seguiram, o Brasil experimentou diferentes caminhos para construir seu programa nuclear.
Houve cooperação com os Estados Unidos no âmbito do programa Átomos para a Paz, reatores de pesquisa, novas instituições e formação de cientistas e engenheiros. Em 1975, o acordo nuclear com a Alemanha Ocidental representou uma tentativa muito mais ambiciosa de ampliar a capacidade brasileira [2].
Essas experiências também produziram aprendizagem. Equipamentos foram instalados, pesquisadores e engenheiros foram formados, instituições acumularam experiência. Ao mesmo tempo, tornava-se cada vez mais evidente uma limitação: quanto mais sensível a tecnologia, mais difícil era obter seu domínio integral.
As restrições à transferência de tecnologias críticas contribuíram, no final da década de 1970, para fortalecer a busca de caminhos autônomos.
A pergunta de Álvaro Alberto começava, assim, a produzir uma nova resposta.
Algumas tecnologias não poderiam simplesmente ser compradas.
Precisariam ser aprendidas.
É nesse ponto que entra o segundo almirante.
O segundo almirante
Othon Luiz Pinheiro da Silva pertencia a outra geração – e a outro Brasil.
Quando iniciou sua trajetória tecnológica, o país já possuía universidades consolidadas, institutos de pesquisa e uma comunidade de físicos e engenheiros que não existiam nos mesmos termos quando Álvaro Alberto começara sua batalha.
Também Othon reunia mundos que raramente aparecem juntos.
Era oficial da Marinha.
E engenheiro.
Formado em engenharia naval e posteriormente especializado em engenharia nuclear no MIT, Othon recebeu, ao retornar ao Brasil, a incumbência de estudar a viabilidade da propulsão nuclear naval. Em relato publicado pela própria Marinha, situa em janeiro de 1978 a determinação do almirante Maximiano da Fonseca para que preparasse esse estudo e, em 8 de março de 1979, o início de sua missão em São Paulo [7, 8].
A iniciativa que então começava a tomar forma tinha duas exigências inseparáveis: dominar o ciclo do combustível e desenvolver a propulsão nuclear naval.
Isso colocava novamente no centro da história a máquina que aparecera décadas antes na trajetória de Álvaro Alberto.
A ultracentrífuga.
Mas alguma coisa havia mudado.
Othon não partia do ponto em que Álvaro Alberto partira.
Essa talvez seja uma das melhores maneiras de perceber que países também aprendem.
Quando o Brasil aprendeu a fazer
Na década de 1950, o desafio era conseguir ultracentrífugas.
Nos anos 1980, era construí-las.
A diferença cabe em uma frase. Tecnologicamente, é enorme.
Entre possuir o urânio e dominar seu enriquecimento havia um vasto território de ciência, engenharia, materiais, processos e conhecimento tácito. Era ali que se concentrava a verdadeira capacidade tecnológica.
Em fevereiro de 1980, começou o desenvolvimento da primeira ultracentrífuga do programa da Marinha. O equipamento experimental ficou pronto no final de 1981. Em 4 de setembro de 1982, nas instalações do IPEN/USP, uma ultracentrífuga desenvolvida e fabricada no Brasil realizou pela primeira vez o enriquecimento isotópico de urânio [7-9].
Othon foi um dos personagens centrais dessa trajetória. Não se tratava, evidentemente, de uma realização individual: uma tecnologia dessa complexidade exige equipes, laboratórios e instituições capazes de acumular conhecimento ao longo do tempo. Mas sua participação na organização desse esforço foi decisiva.
Três décadas depois da missão de Álvaro Alberto à Alemanha, uma ultracentrífuga brasileira fazia aquilo que aquelas máquinas alemãs deveriam ter ajudado o país a aprender.
Desta vez, porém, a máquina havia sido construída aqui.
O feito de 1982 era apenas o começo. Dominar a ultracentrifugação exigia também materiais especiais, componentes, processos de fabricação, sistemas de controle e equipamentos que nem sempre podiam ser adquiridos livremente no exterior. As restrições ao acesso a tecnologias sensíveis acabaram estimulando a nacionalização de competências cada vez mais sofisticadas.
A fibra de carbono é um exemplo. O Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP) desenvolveu uma planta piloto pioneira no país para a produção desse material avançado. Em Aramar, no município paulista de Iperó, consolidava-se assim algo maior que uma instalação para desenvolver ultracentrífugas: surgia um núcleo de aprendizagem tecnológica, no qual as dificuldades de importar também podiam obrigar o país a aprender a fazer.
Com o tempo, a ultracentrifugação brasileira ultrapassou a escala experimental. Desenvolvida pela Marinha em colaboração com o IPEN, a tecnologia foi aperfeiçoada no CTMSP e levada à escala industrial. Em Aramar, passou-se a dominar o processo capaz de elevar a concentração de urânio-235 dos cerca de 0,7% presentes no urânio natural para aproximadamente 4%, faixa empregada como combustível em reatores de geração de energia. A tecnologia seria depois transferida às Indústrias Nucleares do Brasil e incorporada às cascatas de ultracentrífugas da fábrica de combustível nuclear de Resende.
O resultado colocou o Brasil em um grupo muito restrito de países detentores de instalações de enriquecimento de urânio. Para um país que dispõe também de importantes recursos desse mineral, o significado estratégico era evidente.
Era uma inversão histórica extraordinária.
Em 1954, Álvaro Alberto percorrera a Alemanha em busca de três ultracentrífugas que o Brasil ainda não sabia fabricar – e que acabaram impedidas de chegar ao país.
Mais de meio século depois, a Marinha aprendera a construir as suas.
O que antes precisava ser comprado tornara-se conhecimento acumulado dentro do país.
A diferença já não estava apenas em possuir o minério.
Estava no conhecimento de como fazer.
Os homens que observavam
O domínio de uma tecnologia sensível dificilmente passa despercebido.
O programa brasileiro era acompanhado atentamente no exterior [2, 7].
E aqui surge outro eco entre as trajetórias dos dois almirantes.
Álvaro Alberto relatara ter sido seguido durante suas atividades na Alemanha.
Othon também seria objeto de vigilância.
Durante o período em que trabalhava em São Paulo, um cidadão norte-americano ligado ao consulado dos Estados Unidos instalou-se no apartamento imediatamente abaixo daquele em que morava o almirante. Documentos e relatos posteriormente divulgados o identificariam como um agente de informações [10].
O episódio ganha significado quando colocado no contexto mais amplo. O programa brasileiro avançava em uma área submetida a controles internacionais rigorosos e acompanhada de perto pelos países que já dominavam aquelas tecnologias.
Trinta anos depois de Berlim, a vigilância reaparecia.
E, no centro dela, outra vez estava a tecnologia nuclear.
Outra vez, a Alemanha
Há histórias que parecem produzir suas próprias simetrias.
Décadas depois da missão de Álvaro Alberto, a Alemanha reaparece na trajetória brasileira da ultracentrifugação.
Dessa vez, por meio de especialistas alemães em tecnologia de ultracentrifugação. Entre eles estava Karl-Heinz Schaab, que anos mais tarde seria processado na Alemanha pela transferência ilegal de conhecimentos e equipamentos ao programa nuclear iraquiano [2].
Há registros de contatos de Schaab e de outros especialistas alemães com o programa brasileiro. Mas, a essa altura, o Brasil já havia desenvolvido sua própria tecnologia de ultracentrifugação [2, 7].
O paralelo histórico é outro.
Outra vez, a Alemanha.
Outra vez, ultracentrífugas.
Outra vez, tecnologias submetidas a severas restrições internacionais.
Mas a diferença entre os dois episódios é ainda mais interessante do que a semelhança.
Álvaro Alberto procurara na Alemanha a máquina que o Brasil não possuía.
A geração de Othon buscava conhecimentos e aperfeiçoamentos quando o Brasil já havia demonstrado capacidade própria de ultracentrifugação.
Entre um episódio e outro havia ocorrido algo difícil de medir, mas decisivo para o desenvolvimento de qualquer país: aprendizagem.
Autonomia tecnológica nunca significou fazer tudo sozinho.
Significa ser capaz de cooperar sem que a cooperação seja sinônimo de dependência.
Quando os almirantes saem de cena
Também no final de suas trajetórias públicas aparecem paralelos – embora as circunstâncias tenham sido profundamente diferentes.
Álvaro Alberto deixou o CNPq em meio às disputas sobre os rumos da política nuclear e após perder parte da sustentação política de que dispusera no governo Vargas.
Othon sairia do centro do programa ao qual dedicara décadas por outros caminhos.
Depois de presidir a Eletronuclear, Othon foi preso em 2015 nas investigações sobre contratos de Angra 3. Seguiram-se condenações, recursos e posteriores absolvições em ações de improbidade. Seus defensores veem nesse episódio evidência do interesse estrangeiro pelo programa nuclear brasileiro e das relações estabelecidas entre integrantes da Lava Jato e autoridades norte-americanas [11].
Mais de meio século depois de Álvaro Alberto, a trajetória de Othon reencontrava assim uma velha questão: tecnologias estratégicas nunca pertencem apenas ao universo da ciência e da engenharia.
Pertencem também ao universo do poder.
Dois almirantes
Um era químico e professor.
O outro, engenheiro.
Um pertenceu à geração que ajudou a criar as primeiras instituições de uma política científica brasileira.
O outro recebeu parte dessa herança e participou da transformação de conhecimento acumulado em capacidade tecnológica.
Os dois eram oficiais da Marinha.
Os dois recorreram à cooperação internacional sem confundi-la com dependência.
Os dois encontraram barreiras ao acesso a tecnologias sensíveis.
A Alemanha aparece nas duas trajetórias.
A vigilância estrangeira também.
E, entre uma geração e outra, reaparece a mesma máquina.
A ultracentrífuga.
Álvaro Alberto tentou trazer para o Brasil equipamentos que poderiam ajudar o país a dominar uma tecnologia que ainda não possuía.
A geração de Othon mostrou que brasileiros podiam aprender a construí-los.
Há algo ainda mais significativo nesse paralelismo.
Ao recordar, décadas depois, o início do Programa Nuclear da Marinha e a experiência de 4 de setembro de 1982, o próprio Othon atribuiu parte daquela trajetória àquilo que chamou de “bênção do Almirante Álvaro Alberto” [8].
A continuidade entre os dois, portanto, não é apenas uma construção retrospectiva.
Ela estava presente também na maneira como Othon compreendia sua própria história.
Mas reduzir essa trajetória a dois homens seria perder justamente sua principal lição.
Entre Álvaro Alberto e Othon existem milhares de pessoas: físicos, químicos, engenheiros, metalurgistas, técnicos, militares, professores e estudantes.
Existem universidades, laboratórios, empresas e instituições.
É isso que transforma realizações individuais em capacidade nacional.
Os homens saem de cena.
A questão decisiva é saber se o conhecimento permanece, permitindo que cada geração comece de onde a anterior parou – ou se o país continuará condenado à velha sina do eterno recomeço.
O nome no casco
A história começara com areia.
Com um país que possuía minerais cobiçados por outros, mas ainda não dominava o conhecimento necessário para transformá-los nas tecnologias que estavam mudando o mundo.
Depois veio um almirante atravessando estações alemãs em busca de máquinas que seu país ainda não sabia construir.
Vieram crises, acordos, uma CPI, laboratórios, reatores, cientistas, engenheiros, técnicos, fracassos e descobertas.
E veio outro almirante.
Hoje, o programa brasileiro de propulsão nuclear reúne conhecimentos acumulados ao longo dessas muitas décadas.
Othon está nessa história pela capacidade tecnológica que sua geração ajudou a construir.
E existe uma última simetria.
A Marinha decidiu dar ao primeiro submarino brasileiro convencionalmente armado com propulsão nuclear o nome do homem que, mais de sete décadas antes, percorrera a Alemanha em busca das ultracentrífugas que o Brasil ainda não sabia fazer [12].
Álvaro Alberto.
Talvez nenhuma homenagem pudesse fechar melhor esse círculo.
A história começara com areia brasileira atravessando o oceano como matéria-prima.
Agora, sob esse mesmo oceano, o Brasil pretende fazer navegar algo muito mais difícil de exportar, comprar ou apreender.
O conhecimento de como fazer.
Bibliografia
1. de Almeida, A.O., O Programa Nuclear Brasileiro e o Acordo com a Alemanha: da ambição compartilhada aos interesses fragmentados (1975–1978). 2015, Universidade de São Paulo: São Paulo.
2. Patti, C., Brazil in the Global Nuclear Order, 1945–2018. Johns Hopkins Nuclear History and Contemporary Affairs. 2021, Baltimore: Johns Hopkins University Press. 312.
3. United States Department of State, Memorandum by the Commanding General, Manhattan Engineer District (Groves), in Foreign Relations of the United States: Diplomatic Papers, 1945. General: Political and Economic Matters. 1945, U.S. Government Printing Office: Washington, D.C. p. 5–7.
4. de Andrade, A.M.R. e T.L. dos Santos, A dinâmica política da criação da Comissão Nacional de Energia Nuclear, 1956–1960. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, 2013. 8(1): p. 113–128.
5. Archer, R., Renato Archer: energia atômica, soberania e desenvolvimento: depoimento. 2006, Rio de Janeiro: Contraponto. 271.
6. Freire Jr, O., Por que o Almirante Álvaro Alberto foi exonerado do CNPq? A questão nuclear brasileira, em Hora do Povo. 2026.
7. Martins Filho, J.R., O projeto do submarino nuclear brasileiro. Contexto Internacional, 2011. 33(2): p. 277–314.
8. da Silva, O.L.P., A “bênção” do Almirante Álvaro Alberto. Revista Marítima Brasileira, 2012. 132(7/9): p. 19–22.
9. da Silva, O.L.P. e A.L.F. Marques, Enriquecimento de urânio no Brasil: desenvolvimento da tecnologia por ultracentrifugação. Economia e Energia, 2006. 10(54).
10. Schaffner, F., De pai do programa nuclear à prisão: quem é o vice-almirante que chefiou ações secretas e corrupção estatal, in Zero Hora/GaúchaZH. 2017: Porto Alegre.
11. Opera Mundi, Prisão do Almirante Othon: o ataque da Lava Jato ao Programa Nuclear Brasileiro, in Opera Mundi. 2025.
12. Marinha do Brasil, Programa de Desenvolvimento de Submarinos – PROSUB: Projeto e construção. 2015.
Celso Pinto de Melo – Professor Titular Aposentado da UFPE, Pesquisador 1A do CNPq e membro da Academia Brasileira de Ciências.
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