A Revolução dos Colonos Judeus: Fim de um Estado Palestino?
por Ruben Rosenthal
O Ministro da Defesa, Israel Katz, se vangloria da limpeza étnica que está sendo promovida na Cisjordânia.
Os colonos judeus já conseguiram expulsar a quase totalidade das comunidades palestinas da chamada Área C da Cisjordânia, região que ficou sob controle militar de Israel pelo tratado de Oslo, assinado em 1993, e que abrange 60% da Cisjordânia. Agora, o foco dos colonos é na Área B, sob controle conjunto de Israel e da Autoridade Palestina. Com apoio das FDI, as Forças de Defesa de Israel, os colonos vêm aterrorizando os residentes palestinos, e expandindo a ocupação.
Desde 2020, civis e soldados israelenses mataram mais de 1.100 palestinos na região. Os israelenses vem agindo com impunidade quase total na Cisjordânia ocupada. No início de agosto, o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, anunciou a demissão de Avi Bluth, chefe do Comando Central do Exército, por este ter se oposto à decisão de libertar um colono israelense de extrema-direita, acusado de lançar ataques contra civis palestinos na Cisjordânia ocupada. A decisão de Katz teve oposição do chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir, e foi revertida.
As forças israelenses e colonos intensificaram os ataques na Cisjordânia ocupada, com 504 ataques registrados apenas na última semana, segundo a Comissão de Resistência ao Muro e à Colonização. A comissão é o órgão oficial do governo palestino que monitora a expansão dos acampamentos judaicos e a expropriação de terras na Cisjordânia.
Alguns destes incidentes recentes são relatados a seguir. Em Hebron, autoridades israelenses ordenaram a demolição de uma escola e de várias casas em Masafer Yatta na terça-feira, segundo informe da agência de notícias WAFA. Ainda segundo a WAFA, colonos israelenses dispararam gás lacrimogêneo contra os moradores da aldeia de Al-Mughayyir, a nordeste de Ramallah, quando estes aravam seus campos; seis pessoas foram afetadas pela inalação do gás, incluindo três crianças e duas mulheres. Na comunidade beduína de Yatta, as FDI demoliram uma casa palestina e aterraram um poço de água.
A WAFA relatou ainda que, em Anza, Jenin, as autoridades israelenses demoliram sumariamente 12 armazéns comerciais. Também nesta semana, as Forças de Israel feriram seis palestinos, sendo duas crianças, durante uma incursão em Burqa, Nablus. Em Tal, as FDI demoliram a casa de Farouq Ramadan, um palestino que, ao ser atacado no final do mês passado, tomou a arma de um colono antes de ser morto a tiros pelos israelenses. Esse incidente, que resultou na morte de dois judeus e de quatro palestinos, foi detalhado em artigo anterior. Na comunidade de Ras al-Ahmar, a sudeste de Tubas, colonos israelenses vandalizaram a principal linha de fornecimento de água.
Em um caso bem recente, colonos estabeleceram um posto avançado situado dois quilômetros dentro da Área B, no quintal de uma casa na vila palestina de Qusra, sul de Nablus. Yousef Hassan e sua família se encontram sitiados dentro da casa, o mesmo ocorrendo com outra família palestina. Soldados foram filmados sentados ao lado dos colonos e juntando-se a eles em oração, em uma tenda encostada na residência palestina.
Em um gesto que contrasta com a atuação cotidiana das FDI, o comandante das forças israelenses na região, major-general Avi Bluth, visitou as famílias e prometeu levantar o cerco imposto pelos colonos, mas não foi dado um prazo. As famílias palestinas ainda permanecem sitiadas, com dificuldade de obter insumos básicos. A eletricidade foi cortada, sendo que os equipamentos básicos funcionam graças a um painel solar.
Mas o histórico de Bluth não é impoluto. Em agosto de 2025, forças sob o seu comando arrancaram cerca de 3.100 árvores — muitas delas oliveiras centenárias — na vila de al-Mughayyir, na Cisjordânia. A justificativa foi de que a ação se tratou de punição coletiva e medida de segurança, após uma tentativa de ataque nas proximidades de uma estrada que serve a um assentamento judaico.
Um porta-voz militar israelense afirmou que os comandantes estão “profundamente preocupados” com as ações dos colonos, e que os soldados que os apoiassem enfrentariam medidas disciplinares. Nesta quarta-feira, dia 12, o chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel, Eyal Zamir, reuniu-se com outros comandantes para discutir a situação em Qusra. Ele ordenou o retorno de um batalhão de reservistas de infantaria que estava de licença, para reforçar as tropas na Cisjordânia.
O incidente tornou-se uma questão internacional para Israel. Na quinta-feira, o embaixador dos EUA em Israel, Mike Huckabee classificou de terrorismo, a ação do grupo que cercou as casas palestinas em Qusra. Paradoxalmente, o evangélico Huckabee é um grande apoiador da expansão dos assentamentos dos colonos judeus na Cisjordânia ocupada.
Também em Jerusalém Oriental prossegue a ocupação de terras palestinas por colonos judeus. As autoridades israelenses anunciaram um plano para construir 650 novas unidades habitacionais, ocupando uma área de 27 dunams (cerca de 27 mil metros quadrados), adjacente a residências palestinas. O projeto irá prejudicar a movimentação dos palestinos e o crescimento da comunidade. Outros projetos de instalação de assentamentos israelenses estão previstos para Jerusalém Oriental, em flagrante violação da legislação internacional.
O Ministro da Defesa, Israel Katz, se vangloria da limpeza étnica que está sendo promovida na Cisjordânia. Em um vídeo de campanha eleitoral, Katz citou seu apoio à construção de mais de 100 assentamentos judaicos na Cisjordânia e à remoção de cerca de 40 mil palestinos da região. Ele denominou o processo de “A revolução dos assentamentos na Judeia e Samaria”. Katz também validou 160 fazendas de colonos construídas ilegalmente, expandiu assentamentos no Vale do Jordão e restabeleceu bases das Forças de Defesa no norte da Cisjordânia.
A presença de 500 mil colonos judeus fortemente armados na Cisjordânia, além de cerca de 200 mil em Jerusalém Oriental, parece inviabilizar de vez a Solução de Dois Estados e a aspiração de auto-determinação da população palestina em uma nação própria. Neste caso, a luta precisaria se concentrar na formação de um Estado democrático, do Rio Jordão ao mar, com o completo desmantelamento do regime de Apartheid em Israel. Trata-se de uma decisão que teria que partir dos palestinos, para então ser encampada por países que atualmente defendem a Solução de Dois Estados.
Isso só será possível com o fortalecimento do movimento BDS, com as nações impondo desenvestimento, boicote e sanções a Israel. Não basta impor sanções a algumas lideranças dos colonos e boicotar os produtos exportados pelos assentamentos, como está sendo feito por alguns países do Ocidente. Até porque os exportadores israelenses ocultam a origem dos produtos produzidos na Palestina ocupada.
O boicote precisará ser abrangente, e as populações têm um papel relevante a desempenhar, pressionando seus governos a aderirem ao BDS e, como consumidores, boicotando os produtos Made in Israel expostos em lojas e prateleiras de supermercados.
Ruben Rosenthal é professor aposentado da UENF, e responsável pelo blogue Chacoalhando.
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