21 de agosto de 2026

Financiamento sustentável sob a perspectiva pós-keynesiana, por Paula & Holanda

A questão central não é quanto dinheiro o sistema financeiro consegue mobilizar, mas para onde esse dinheiro vai, condições e tempo.
Reprodução

Crise climática exige transformar sistema financeiro para financiar transição verde com investimentos de longo prazo.
Abordagem pós-keynesiana destaca papel do Estado em direcionar crédito e investimento para economia de baixo carbono.
Transição sustentável depende de instituições que coordenem riscos, criem liquidez e garantam financiamento ambientalmente orientado.

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Financiamento sustentável sob a perspectiva pós-keynesiana*

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por Luiz Fernando de Paula e  Lorena Bastos de Holanda

Há pouco mais de uma década, a crise climática deixou de ser uma questão exclusivamente ambiental e passou a ocupar o centro dos debates econômicos, financeiros e sociais. Eventos climáticos extremos e perda de biodiversidade afetam empresas, governos, trabalhadores, bancos e investidores. Enfrentar esse problema exige não apenas novas tecnologias e compromissos diplomáticos, mas também transformar a maneira como o sistema financeiro decide onde colocar o dinheiro.

Na COP-29, os países desenvolvidos comprometeram-se a mobilizar, até 2035, pelo menos US$ 300 bilhões anuais para ações climáticas nos países em desenvolvimento. Embora expressivo, esse valor está distante dos cerca de US$ 1,3 trilhões anuais estimados por diversos estudos. O desafio, porém, não é apenas encontrar mais dinheiro. É construir uma arquitetura financeira capaz de criar, direcionar e sustentar investimentos de longo prazo compatíveis com a transição para uma economia de baixo carbono.

Uma resposta promissora encontra-se na tradição pós-keynesiana. Em vez de considerar o sistema financeiro apenas como intermediário entre quem poupa e quem investe, essa abordagem destaca que os bancos criam crédito, que a moeda não é neutra e que as decisões de investimento são tomadas sob incerteza. Essa perspectiva modifica profundamente a compreensão do financiamento da transição verde.

Nas últimas décadas, o financiamento climático internacional tem priorizado estratégias de mobilização de recursos privados, usando recursos públicos sobretudo para mitigar riscos. Essa lógica, denominada por Daniela Gabor de de-risking state e associada ao chamado Consenso de Wall Street, transforma o Estado em garantidor de parte dos riscos dos projetos para atrair investidores privados. Garantias públicas e financiamento misto podem ampliar os recursos disponíveis, mas não asseguram que o capital seja direcionado aos investimentos necessários.

A questão central, portanto, não é apenas quanto dinheiro o sistema financeiro consegue mobilizar, mas para onde esse dinheiro vai, em que condições e por quanto tempo.

Essa discussão torna-se ainda mais importante diante da natureza da incerteza climática. A economia convencional frequentemente trata riscos como eventos cujas probabilidades podem ser calculadas. A tradição pós-keynesiana chama atenção para situações em que não dispomos de conhecimento suficiente para atribuir probabilidades confiáveis: a chamada incerteza fundamental.

Os riscos climáticos podem ser físicos e de transição. Os primeiros incluem furacões, enchentes, secas, incêndios e elevação do nível do mar, capazes de destruir infraestrutura e interromper cadeias produtivas. Os riscos de transição decorrem das próprias políticas de descarbonização: novas regulamentações, impostos sobre emissões, mudanças tecnológicas e alterações no consumo podem reduzir o valor de empresas e ativos associados a atividades intensivas em carbono.

A relação entre finanças e mudanças climáticas ocorre nos dois sentidos. De um lado, enchentes podem destruir garantias, secas reduzir receitas e mudanças regulatórias desvalorizar ativos. Bancos, seguradoras, fundos e empresas estão expostos aos riscos físicos e de transição. De outro, quando um banco financia combustíveis fósseis ou, ao contrário, infraestrutura resiliente e de baixo carbono, influencia a trajetória futura da economia e do clima.

É essa relação bidirecional que o conceito de dupla materialidade procura captar: as mudanças climáticas afetam a estabilidade financeira, mas as decisões financeiras também influenciam a trajetória climática. Um sistema financeiro que financia atividades ambientalmente destrutivas pode gerar riscos que posteriormente ameaçarão sua própria estabilidade.

Há ainda o risco de que uma transição tardia provoque uma crise financeira. Mark Carney chamou de “tragédia do horizonte” o descompasso entre o longo prazo dos efeitos climáticos e o curto horizonte das decisões financeiras, empresariais e governamentais. O chamado “Momento Minsky Climático” descreve a possibilidade de uma reprecificação repentina dos ativos quando os mercados reconhecerem a dimensão dos riscos climáticos. Empresas intensivas em carbono podem perder valor, ativos podem se tornar encalhados e bancos sofrer deterioração de suas carteiras. O problema ambiental transforma-se, então, em crise financeira.

É nesse contexto que ganha atualidade uma ideia central de Keynes: a socialização do investimento. Na Teoria Geral, Keynes argumentava que uma economia capitalista não dispõe de mecanismos automáticos capazes de assegurar níveis adequados e estáveis de investimento e emprego. Por isso, defendia maior participação do Estado na orientação do investimento, sem necessariamente estatizar os meios de produção.

A ideia pode ser atualizada para o desafio climático. A transição verde exige investimentos em infraestrutura, energia renovável, transporte, inovação, pesquisa, adaptação e transformação industrial. Muitos desses projetos envolvem riscos elevados, longos períodos de maturação e retornos incertos. O Estado, portanto, não deve limitar-se a reduzir os riscos dos investimentos privados. Deve influenciar o volume, a composição e a direção do investimento, utilizando orçamento público, bancos de desenvolvimento, fundos soberanos, políticas industriais, regulação financeira e instrumentos de crédito.

No contexto climático, não basta assegurar um volume suficiente de investimento. É preciso decidir que capacidade produtiva está sendo construída. Um investimento pode aumentar o produto e o emprego e, simultaneamente, agravar a crise climática. Outro pode gerar efeitos econômicos semelhantes e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões, ampliar a resiliência e acelerar a inovação. A socialização do investimento também precisa ser uma socialização de sua direção.

Essa conclusão conduz a outro princípio pós-keynesiano: a não neutralidade da moeda. Crédito, juros e preferência pela liquidez influenciam o investimento, a produção e o emprego. Se decisões monetárias e financeiras afetam a estrutura produtiva, também produzem efeitos ambientais. Políticas que estimulam ou restringem determinados tipos de crédito influenciam os setores em expansão. Pode-se, assim, falar em uma não neutralidade ambiental da moeda: a política monetária, financeira e prudencial não dever ser indiferente à composição ambiental do crédito e do investimento.

Uma contribuição importante para transformar esses princípios em arquitetura financeira sustentável vem do circuito finance-funding, desenvolvido por Keynes e aprofundado pela literatura pós-keynesiana. No finance, os bancos criam crédito e liquidez para viabilizar investimentos. No funding, os compromissos de curto prazo associados ao investimento são consolidados em estruturas de financiamento de prazo mais longo.

Para a transição verde, esse mecanismo pode ser adaptado como um circuito finance-funding verde. Bancos comerciais e públicos podem financiar energia renovável, descarbonização industrial e infraestrutura resiliente. Garantias públicas, linhas de refinanciamento e mecanismos de compartilhamento de riscos podem complementar o processo. Posteriormente, esses investimentos podem ser consolidados por títulos verdes, fundos climáticos, empréstimos de bancos de desenvolvimento e fundos soberanos. O essencial é que o prazo, o custo e a estrutura do financiamento sejam compatíveis com a natureza dos investimentos, evitando a dependência excessiva de passivos de curto prazo.

A transição verde não pode depender exclusivamente da capacidade dos mercados de identificar oportunidades rentáveis. Ela requer instituições capazes de coordenar expectativas, compartilhar riscos, criar liquidez e garantir financiamento de longo prazo. Bancos centrais têm papel importante na incorporação dos riscos climáticos à estabilidade financeira e na criação e indução de recursos direcionados por parte do sistema financeiro a sustentabilidade; bancos de desenvolvimento podem financiar setores estratégicos e coordenar investimentos; fundos soberanos podem mobilizar recursos e contribuir para a transformação produtiva.

No fundo, a transição verde é também uma disputa pelo destino do crédito. Se ele continuar financiando predominantemente atividades intensivas em carbono, será difícil alcançar uma economia compatível com os objetivos climáticos. Se for progressivamente direcionado à inovação, às energias limpas e à infraestrutura sustentável, o sistema financeiro poderá tornar-se um dos principais instrumentos da transição.

Um sistema financeiro funcional para a sustentabilidade precisa criar crédito, direcioná-lo, consolidá-lo em estruturas de longo prazo e, simultaneamente, limitar a fragilidade financeira. A grande lição pós-keynesiana é que dinheiro, crédito e finanças não são neutros: ajudam a determinar quais setores crescem, quais tecnologias prosperam e que tipo de economia será construída.

O desafio não consiste apenas em mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano, mas em construir instituições capazes de transformar recursos financeiros em investimentos sustentáveis, de longo prazo e financeiramente sólidos. A pergunta decisiva não será apenas quem pagará pela transição verde, mas que sistema financeiro queremos construir para torná-la possível. A resposta passa por recolocar o Estado, as instituições públicas e a coordenação financeira no centro da discussão sobre o desenvolvimento sustentável.


* Este artigo é baseado num artigo maior publicado no Boletim do FINDE/CEFIS: https://finde.uff.br/wp-content/uploads/sites/43/2026/08/BoletimFinde21_edicao_especial.pdf

Luiz Fernando de Paula – Professor de Economia do IE/UFRJ, pesquisador associado do FINDE e diretor institucional do Centro de Finanças Sustentáveis (CeFiS)

 Lorena Bastos de Holanda – Doutoranda do PPGE/IE-UFRJ, pesquisadora associada do FINDE e do CeFiS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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