
Geraldo Vandré, 90 anos (Um presente de Carmem Lúcia)
por Armando Coelho Neto
“O que há de inédito, talvez, nessa ação penal, é que nela pulsa o Brasil que dói. É quase um encontro do Brasil com o seu passado, o seu presente e com o seu futuro”, disse a ministra Cármen Lúcia, durante o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) de parte dos meliantes da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Eis que por acaso, um fragmento do voto nos reporta à mutilação da história.
Geraldo Vandré completa hoje 90 anos. Ele faz parte do passado ao qual alude a ministra, tempo da Ditadura Militar, cujos próceres ficaram impunes pelos crimes praticados. Aliás, preservando privilégios que incluem salário, sistema de saúde, educação e lazer próprios, sem contar as pensões perpétuas para filhas e viúvas (reais e fictas). Leia-se, praticaram crimes, se perdoaram e querem mais e mais.
Hoje é o dia do poeta Vandré. Não seria, a rigor, a hora de falar da ditadura, marcada pelo desaparecimento de pessoas, no qual a tortura era sistemática e principal meio de obtenção de provas; quando sequer crianças foram poupadas, já que assistiam ao seviciamento de seus pais. Assassinatos, desaparecimentos, violência sexual, exílios, entre outras atrocidades marcam o passado implícito na fala da ministra.
Entretanto, o aniversariante integra o rol de vítimas do passado, ainda que ele próprio se empenhe em negar. Mas na história está escrita que a ditadura atropelou precocemente e de forma irreversível a carreira do artista. Trata-se de nebuloso tempo, cujo armário esconde até hoje esqueletos que nem a Comissão da Verdade logrou encontrar. Um passado anistiado, cujos saudosistas pretendem reeditar.
Permita o leitor uma breve nota em forma de parênteses, um quase anacoluto. Há quem explique o conturbado momento europeu atual, num clima de quase guerra, dizendo que a geração que vivenciou a última grande guerra, sobreviveu ao nazismo já se foi. Nesse sentido, por desconhecer o passado não compreende o presente e se desarma quanto ao futuro, sem refletir sobre possíveis consequências.
No Brasil, o desconhecimento da história levou manifestantes golpistas às ruas, na defesa da ditadura sobre a qual nada sabem. Em várias manifestações a canção “Caminhando”, também conhecida por “Pra não dizer que não falei das flores” chegou a ser entoada. A rigor, reflexo da dissonância cognitiva em curso, pois não sabem quem é Vandré, o que a ditadura fez com ele, nem o sentido da letra.
Presume-se, ainda que ele negue, que Vandré teria sido torturado. Uma servidora administrativa dos porões da ditadura, que tempos depois foi trabalhar na PF paulista, era textual no sentido de que realmente houve tortura. Rotulada de mitômana, não tocou mais no assunto. O que importa a essa altura tal testemunho, se a própria obra subsequente de Vandré reflete torturantes sentimentos?
O álbum “Das Terras de Benvirá” sinaliza tortura. Produzido no exílio, revela cortes na alma, a começar pela obra título, além das faixas “Na Terra Como no Céu” e “Vem Vem”. É impossível ouvir as canções e não se emocionar com letras e ou melodias, prenhes de gritos, gemidos, quase choros e notas lancinantes. Elas falam por si. A obra acusa, no mínimo tortura espiritual, seja dele ou de outrem.
Vandré é uma ferida aberta pela ditadura que nunca cicatrizou. Segue não apenas como mutilação da arte e da cultura brasileira. Ainda é uma vela acesa e fumegante, enquanto lenda viva, ainda que em reclusão por escolha. Sequer cabe especular sobre tal escolha, sobre as histórias paralelas sobre a condição de “penitente”, e ou tudo o quanto mais corre sobre o congelamento de seu fluxo poético.
Em Vandré pulsa o Brasil que dói, e que ontem entrou de forma implícita e até explicita durante o julgamento dos descendentes dos seus algozes do passado. Essa pode ser uma das formas e ou dimensões de como se pode ler o voto da ministra Carmen Lúcia. Ainda que, obviamente, o encontro com o presente, passado e futuro inclua muito mais vertentes a serem contempladas.
Nesse aniversário de Vandré, o voto da ministra Carmem Lúcia soa como metáfora da “Volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar”. Afinal, como disse ela, a conduta dos réus está enquadrada na lei que o chefe da organização criminosa sancionou. O importante é que o poeta faz parte do passado, continua presente, e pode, mesmo em musical silêncio, inspirar o futuro. Feliz aniversário, poeta!
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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NELSON VIANA DOS SANTOS
14 de setembro de 2025 9:35 pmBelo texto do Armando. Viva Vandré.
” vim aqui só pra dizer
Ninguém há de me calar
Se alguém tem que morrer
Que se seja pra melhorar(…)”