O economista que descobriu a moeda: Martin Wolf sai da caverna, por Nathan Caixeta

Dando voltas na caverna, o empréstimo da única fresta de luz existente, sombreia, novamente, os eixos da Curva de Phillips na imaginação de Martin Wolf.

World Economic Forum/Qilai Shen

O economista que descobriu a moeda: Martin Wolf sai da caverna.

por Nathan Caixeta

Argumentei em um texto anterior que Martin Wolf permanecia aprisionado na caverna da Curva de Phillips, a herança paleozoica do liberalismo monetário. Me enganei (?).

Em artigo recente, Wolf opera vendido, seguindo as opiniões dos economistas que atribuem ao FED uma lentidão imperdoável no curso de elevação da taxa de juros, contra uma inflação que dispara com a maior velocidade em 40 anos e cuja desaceleração concorre contra o tempo.

O doutor da London School, assesta suas suspeitas em relação a lassidão do Federal Reserve: “Um pouco suave nos EUA é possível, mas improvável.” Completando com as lições herdadas do monetarismo: “é otimista pensar que uma recessão não será necessária para conter a inflação, assim como a ideia de que é possível evitá-la”. Até aqui, Wolf permanece na caverna, esperando que o espírito das luzes o salve da ignorância a respeito do futuro.

Invocando as palavras de Jerome Powell, presidente do FED, quando da elevação da taxa de juros em 0,5% em 4 de maio, o articulista do Financial Times, dispara:

“O que o renovado compromisso do Fed de baixar a inflação significa para o futuro? Powell afirmou de maneira otimista que “temos uma boa chance de ter um pouso suave ou quase suave”. Com isso ele quis dizer que a demanda se reaproximará da oferta, o que por sua vez poderá “baixar os salários e a inflação sem ter de desacelerar a economia e ter uma recessão e fazer o desemprego aumentar materialmente”.

Contrariando o comedimento de Powell, Wolf questiona: “O mais intrigante sobre essa linha de argumentação não é a confissão de que o caminho sugerido será duro de alcançar, mas a crença de que ele chegará ao seu destino. Seria possível reduzir a inflação à meta apenas podando o superaquecimento do mercado de trabalho?… Se alguém acredita que ela simplesmente vai se desfazer depois de um endurecimento modesto, deve pensar que a inflação é na maior parte “transitória”. Isso é altamente otimista.”

Para o homem da caverna monetária, o desemprego não é só inevitável, assim como o arrocho dos salários nominais, mas ambos formam condições necessárias para domar as expectativas de inflação, quando acompanhadas de uma política monetária que conduza a taxa de juros ao seu patamar natural. Dando voltas na caverna, o empréstimo da única fresta de luz existente, sombreia, novamente, os eixos da Curva de Phillips na imaginação de Martin Wolf.

Esmagando os ossos sobre as pedras que sustentam a estreiteza da caverna (e do pensamento), o economista escapa da caverna, topando no susto com estrutura da realidade que ordena as relações no capitalismo globalizado. Tropeçando no altar luminoso da realidade, Wolf desafia o caminho mais cômodo de retornar à escuridão:

“Outra incerteza, provavelmente mais importante, é sobre como a política monetária mais dura afeta as condições financeiras nos EUA e em outros países. Não devemos esquecer que há níveis excepcionalmente altos de dívida denominada em dólares em todo o mundo. Além disso, os preços dos ativos também alcançaram níveis extremos: os preços da habitação nos EUA (medidos no Índice Nacional de Preços de Residências S&P/Case-Shiller, deflacionados pelo índice de preços ao consumidor) em fevereiro de 2022 foram 15% mais altos que antes da crise financeira; e a proporção de preços/ganhos sobre ações, ajustada ciclicamente, foi mais alta do que em qualquer período desde 1881, exceto o final dos anos 1990 e início dos 2000. Colapsos nos preços dos ativos em reação ao endurecimento monetário turbocarregaria a política do Fed, mas de maneira imprevisível. Até uma ação modesta do Fed teve grandes impactos: as taxas de juros saltaram e os mercados entraram em turbulência. O que vimos é o fim desse tumulto ou, como parece mais provável, apenas seu começo?”

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O economista ao conhecer o dinheiro, age com o mesmo estranhamento do prisioneiro da caverna ao conhecer a luz: ou se vê obrigado a abandonar a neutralidade da moeda (que impõe a escolha entre desemprego e inflação), ou, ao negar-se ao abandono, improvisa a inclusão da moeda e do tempo no modelo que assegura a naturalidade da taxa de juros para equilibrar o mercado de trabalho aos movimentos de preços e salários.

O resultado desse jogo complexo contra a própria escuridão do pensamento é ingrato: para que a Curva de Phillips funcione, a moeda e o tempo são massivos demais para habitar o mesmo espaço que abriga a caverna do monetarismo. O modelo não implica, mas pressupõe a inexistência de perturbações endógenas vindas da temporalidade da riqueza monetária.

A vista da luz de uma realidade não determinada somente pelos choques externos de salários e preços, Wolf recua para a caverna, apostando suas fichas no “pouso suave” da inflação, mediante o desemprego e o risco de uma nova crise financeira global:

“Infelizmente, é muito provável que agora seja necessária uma recessão para manter sob controle as expectativas de inflação. Além disso, mesmo que venha a ser desnecessária, porque a inflação simplesmente desapareça, uma recessão ainda pode ocorrer, simplesmente porque até uma política modestamente mais rígida causa o caos nos frágeis mercados de ativos de hoje. Mas o Fed tem de sustentar sua credibilidade combalida em relação à inflação. Esse é o coração do mandato do banco central. Ele precisa juntar sua coragem e fazer o que é necessário.”

A sétima face de Carlos Drummond de Andrade, desnuda o ensinamento de que a coragem para o necessário é a antípoda da miséria vinda do mundo real.

No capitalismo não existem pousos suaves, entre o meio céu e o meio inferno. Existe o inferno da pobreza e o céu da riqueza. De volta à caverna, o economista que descobriu a moeda como coisa, esqueceu-se de investigar seu funcionamento como convenção social.

Nathan Caixeta – Formado em Economia pela FACAMP, Mestrando em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp e Pesquisador do NEC/FACAMP.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]

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