O novo plano quinquenal da China
por José Renato Peneluppi Junior
Com a conclusão das Duas Sessões de 2026, o novo plano quinquenal da China, que será o 15º Plano Quinquenal (2026–2030) foi aprovado, estabelecendo metas para consolidar a modernização socialista da China. O plano enfatiza inovação tecnológica (创新, chuàngxīn), novas forças produtivas (新生产力, xīn shēngchǎnlì), nova urbanização (新型城镇化, xīn xíng chéngzhèn huà), revitalização rural (乡村振兴, xiāngcūn zhènxīng) e dupla circulação da economia (双循环, shuāng xúnhuán), buscando crescimento sustentável e segurança nacional. Destaca-se como uma ponte estratégica para o desenvolvimento, preparando o país para alcançar os objetivos estruturais de 2035, quando se prevê a conclusão da etapa básica do socialismo e avanços na modernização nacional.
Origem dos Planos quinquenais
Os planos quinquenais surgiram na União Soviética a partir de 1928 como instrumento central da política econômica socialista, consolidando a industrialização e a transformação social planejada. Fundamentados nas ideias de Marx, Engels e Lenin sobre coletivização e papel do Estado na economia, e desenvolvidos por pensadores soviéticos como Gastev e Bukharin, esses planos estabeleciam metas quantitativas e cronogramas para setores estratégicos, mobilizando recursos e a população. Mais que planejamento econômico, serviam como ferramenta política e social, promovendo educação técnica, urbanização e fortalecimento do Estado socialista.
Na China, Mao Zedong adaptou essa lógica nos primeiros planos quinquenais, iniciando em 1953 com 155 projetos estratégicos, incluindo a ponte de Wuhan sobre o Yangtze, concluída em 1957, e a fábrica de aço Wugang, trazendo técnicos soviéticos e aproveitando tecnologias transferidas durante a Guerra da Coreia. O revisionismo de Khrushchev levou à ruptura sino-soviética em 1960, obrigando a China a desenvolver autonomia tecnológica. Durante o Grande Salto Adiante (1958–1961), Mao buscou alcançar em 15 anos o que a Europa fez em sete décadas, mobilizando a população e projetos de infraestrutura.
Nos anos 1980, Deng Xiaoping retomou as Quatro Modernizações — agricultura, indústria, ciência e tecnologia e defesa — dando continuidade ao pensamento de líderes da velha guarda como Chen Yun, Li Xiannian e Hu Yaobang. Autores chineses como Zheng Yongnian, Wang Hui e Cheng Li destacam que a modernização depende de planejamento estratégico, integração tecnológica e adaptação de políticas de longo prazo, alinhando os planos quinquenais a metas estruturais como inovação, urbanização e sustentabilidade, fundamentos que guiam a China até os dias atuais.
Fases dos Planos na China
A evolução dos Planos Quinquenais da China costuma ser interpretada por acadêmicos chineses como um processo histórico dividido em etapas de desenvolvimento. Autores como Hu Angang, da Tsinghua University, Zheng Xinli, do Development Research Center of the State Council, Justin Yifu Lin, da Peking University e ex-economista-chefe do World Bank, e Li Junru, pesquisador da Central Party School of the Communist Party of China, destacam quatro grandes fases.
A primeira, planejamento socialista clássico (1953–1978), concentrou-se na industrialização pesada e na construção das bases econômicas do país. A segunda, de reforma e abertura (1978–2000), introduziu mecanismos de mercado e ampliou a integração internacional. A terceira, de modernização e desenvolvimento científico (2001–2020), priorizou inovação, urbanização e redução da pobreza.
A fase atual, iniciada com os planos recentes, enfatiza inovação tecnológica, segurança econômica e desenvolvimento de alta qualidade, articulando-se às Duas Metas Centenárias: construir uma sociedade moderadamente próspera (com a eliminação da pobreza) até 2021 e transformar a China em um país socialista moderno até 2049.
Uma segunda etapa analítica, proposta por esses autores e por estudos sobre o ciclo de desenvolvimento do socialismo chinês, projeta a evolução futura desse processo. Segundo essa perspectiva, a China deverá concluir as tarefas fundamentais da etapa primária do socialismo até 2035, quando a modernização socialista estará basicamente realizada. Entre 2020 e 2035 ocorre um período de transição rumo a um estágio intermediário do desenvolvimento socialista.
Até 2049, centenário da fundação da República Popular, o país pretende consolidar a construção de uma potência socialista moderna, e por volta de 2078 alcançar a condição de país socialista desenvolvido, culminando, até o final do século XXI, com a plena realização do projeto de rejuvenescimento nacional chinês.
Fase concluída
Com o novo plano quinquenal colocou-se fim ao periodo do 13º e o 14º Planos Quinquenais da China que funcionaram como duas metades de um plano decenal estratégico, conhecido como Made in China 2025 (中国制造2025). Esse plano, visava transformar a China em uma potência de alta tecnologia e inovação, reduzindo a dependência de tecnologias estrangeiras e fortalecendo a economia nacional.
Ele se baseia em quatro vantagens estratégicas: fortalecimento da capacidade tecnológica doméstica, integração de pesquisa e produção, promoção da indústria inteligente e desenvolvimento sustentável, e direciona esforços a dez setores-chave, incluindo robótica, aeroespacial, equipamentos de alta tecnologia, novas energias, veículos elétricos, materiais avançados, biotecnologia, semicondutores, ferroviário de alta velocidade e tecnologia da informação.
Em termos concretos, essas metas se materializaram em avanços significativos. Por exemplo, no setor de robótica, a China se tornou o maior produtor mundial de robôs industriais, ultrapassando países tradicionais como Alemanha e Japão. Em veículos elétricos, empresas como BYD e NIO consolidaram a liderança nacional e crescente presença internacional, reduzindo a dependência de importações de tecnologia automotiva. No campo de semicondutores, apesar dos desafios, o investimento estatal e privado permitiu crescimento expressivo na fabricação de chips avançados e design de circuitos integrados, alinhando-se à vantagem de fortalecer a capacidade tecnológica doméstica.
O 14º Plano Quinquenal (2021–2025) iniciou simultaneamente um plano de longo prazo para 2035, um horizonte quinzenal que orienta a transição da etapa primária do socialismo para uma China moderna. Nesse contexto, o 15º Plano Quinquenal (2026–2030) atua como um plano-ponte: consolida os avanços de “Made in China 2025” atraves do 14º Plano, ao mesmo tempo que prepara a base para a modernização socialista e a liderança global na Quarta Revolução Industrial, explorando novas forças produtivas e tecnologias emergentes.
Essa sequência demonstra a lógica de planejamento estratégico da liderança chinesa: cada plano quinquenal não atua isoladamente, mas como elo de uma corrente que conecta inovação tecnológica, desenvolvimento econômico e objetivos de longo prazo, garantindo que o país avance de forma coordenada rumo ao futuro almejado pelo Partido Comunista da China — a construção de uma potência socialista moderna, tecnologicamente autônoma e globalmente influente.
J. Renato Peneluppi Jr. – Doutor e Mestre em Administração Pública Chinesa na HUST (华中科技大学), com especialidade em políticas de desenvolvimento energético e transição energética na China (2018). Pesquisador Associado na Boston University (2017-2018). Pesquisador Visitante na Universidade de Oslo – REMIX e CICERO (2016). Lecionou na China-EU ICARE (Institute for Clean and Renewable Energy) (2012). Possui Especialização em Educação Ambiente COEDUCA – UNICAMP (2009).
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