“Olhos Azuis”. O estado de Santa Catarina deveria assistir
por Armando Coelho Neto
“Ela foi eleita por cotas”… “Santa Catarina não é um zoológico”… “Aqui no posto BR tem 4 loiras melhores”… “Miss Bahia né? De Santa Catarina que não é”… Esses comentários racistas, verdadeiros discursos de ódio, foram dirigidos à Pietra Travassos, eleita Miss Santa Catarina 2025. O estado está entre os mais racistas do Brasil. O ranking é confuso, quase baseado, apenas, em registros policiais.
Em pleno mês da Oktoberfest, com “arianos” jaboticabas no cio, a comediante alemã Lea Maria Jahn protestou: “Me perguntaram de que campo de concentração eu havia tirado meu produtor” (**). Denunciou à polícia e nas redes sociais a injúria racial. Entre os comentários, um emblemático: “Os catarinenses têm orgulho de seus pais da Alemanha e os alemães têm vergonha de seus filhos de Santa Catarina”.
O racismo naquele estado, com um pouco mais de acidez, obedece ao padrão nacional. Daí que viver um dia de preto serviria de reflexão. Aliás, um grupo de brancos ou metidos a brancos, vivendo poucas horas as agruras da negritude, deu o que falar nos Estados Unidos, há algumas décadas. Em 1996, a socióloga americana Jane Elliott lançou o documentário “Olhos Azuis” (*).
A obra é fruto de um polêmico laboratório social. Inspirada inicialmente em leituras sobre o holocausto, ganhou força com o assassinato de Martin Luther King Jr, em 1968. Elliott dava aula para alunos brancos de terceira série, e “por não saber” como explicar para eles a tragédia, decidiu alternadamente expor um aluno para ser discriminado pelos colegas. Depois, discutia em grupo como eles tinham se sentido.
Quem quiser saber as consequências, vai ter mesmo que assistir o documentário. Anos depois, a dinâmica foi repetida com adultos, com duas exigências primárias. Primeiro, ter olhos azuis, segundo, obedecer às regras do jogo. Os participantes tinham inclusive que assinar termos de concordância e responsabilidade, além de abrir mão de qualquer questionamento judicial, por danos materiais ou morais.
O objetivo seria mostrar como é ser negro nos Estados Unidos. Nas primeiras cenas, em um auditório lotado, Jane Elliott pede que fique de pé, todos os presentes que gostariam de ser tratados como negros. Ninguém levanta. E ela sintetiza: vocês não levantaram por que estão conscientes de como eles são tratados, e não querem isso para vocês. Entretanto, são omissos e deixam que isso aconteça com os outros.
Durante a dinâmica, as pessoas de olhos azuis recebem o tratamento que costumam dar aos negros, gays, lésbicas, deficientes físicos ou qualquer outro diferencial. Todos os estereótipos utilizados contra esses grupos são usados contra eles. Não importa a idade, mulheres serão chamadas de garotas e os homens de “boys”, como forma de infantilização. “É assim que tratam negros de 70 anos”, diz Elliott.
Separados em dois grupos, olhos azuis e marrons, esses últimos são os vilões. Após longa e entediante espera, confinados numa sala calorenta e malcheirosa, três cadeiras são disputadas por 17 brancos de olhos azuis, eles são obrigados a calçarem sapato dos pretos. A meta é tratar mal por causa da cor dos olhos, durante duas horas e meia, sob olhares hostis de seguranças negros e mal-educados.
Um teste de inteligência de cartas marcadas, no qual os olhos marrons recebem parte das respostas e terminam mais rápido, torna os olhos azuis “mais burros”. Os olhos azuis não suportam viver por duas horas e meia o que os negros aturam todos os dias sem reagir. Cada experimento abre um leque de reflexões. O depoimento de ex-alunos de Elliott, já adultos, torna a obra ainda mais especial.
Preconceito, omissão, cumplicidade. “Fazer nada é colaborar com o opressor”, diz Elliott. A Miss Pietra Travassos foi hostilizada, e não se tem notícia de medidas legais. A exemplo do documentário, urge sentir na pele o sofrimento alheio, mergulhar no emocional, o que pode ajudar na reflexão. Cabe às autoridades admitirem a existência do problema e adotarem providências no jardim da infância.
Santa Catarina já liderou ranking de racismo e injúria racial. Pesquisas já indicaram proliferação de células nazistas lá. Assim, não apenas racistas daquela localidade deveriam assistir o documentário. “Olhos Azuis” deveria integrar currículos escolares por ser profilático e pedagógico. Quem sabe do experimento social catarinense poderia advir um exemplo de superação para o Brasil. Racismo é questão nacional.
* https://www.youtube.com/results?search_query=olhos+azuis
** https://www.threads.com/@luisandre.quaresma/post/DQVf2HSDK2P
Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo
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Sérvolo Aimoré-Botocudo de Oliveira.
29 de outubro de 2025 11:04 amQuisera eu, que isso fosse um flagelo restrito a SC. Não é. O caso do cemitério de negros em Salvador é apenas o último dos exemplos, em 40/50 dias, ou menos, já teremos esquecido diante de um ultraje maior. Cada fato como esse depõem contra nossa condição humana. As punições precisam ser maiores e mais publicizadas. O Estatuto da Igualdade Racial precisa ser cumprido a ferro e fogo, principalmente, os que tratam das questões pertinentes à educação. É triste e vergonhoso viver em um país que trata assim um grupo de pessoas, mas é muito mais revoltante ver os opressores, com um cinismo fétido, usarem a própria lei contra o povo brasileiro. Dias melhores virão?
Maria Otilia Bocchini
30 de outubro de 2025 3:09 amAgradeço demais ao autor ter se lembrado desse magnífico documentário “Olhos azuis” e da criadora desse método educativo, baseado na estratégia simples e radical de tratar pessoas brancas como as pessoas negras são tratadas em sociedade, por apenas duas horas e meia.