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Quanto custará ao jornalismo aceitar o dinheiro de Google e Facebook?, por Rogério Christofoletti

Há, pelo menos, duas razões para que o jornalismo olhe com desconfiança para Google e Facebook: eles contribuíram para tornar mais aguda a sua crise financeira, e eles ajudam a disseminar notícias falsas e discursos de ódio.

Fausto firma seu pacto com Mefistófeles, no traço de Julius Nisle (1812-1850). Wikimedia Commons.

do objETHOS

Quanto custará ao jornalismo aceitar o dinheiro de Google e Facebook?

Têm sido cada vez mais frequentes as ações de big techs para “salvar o jornalismo”. São programas de treinamento e capacitação, impulsos para a inovação, desenvolvimento de soluções tecnológicas e até incentivo a pequenos e grandes negócios. Entre as corporações preocupadas com o jornalismo, destacam-se Google e Facebook que têm feito grande alarde de seus gestos em toda a parte. Em um cenário de crise catastrófica no setor, esses movimentos deveriam ser comemorados, mas não podemos nos enganar: há um preço a pagar pela ajuda dos maiores conglomerados do planeta. Resta saber se jornalistas e organizações de mídia estão dispostos a arcar com as consequências de receber recursos daqueles que não são propriamente seus aliados.

Há, pelo menos, duas razões para que o jornalismo olhe com desconfiança para Google e Facebook: eles contribuíram para tornar mais aguda a sua crise financeira, e eles ajudam a disseminar notícias falsas e discursos de ódio. Em menos de duas décadas, as duas big techs sugaram imensos oceanos de verbas publicitárias que antes irrigavam os negócios jornalísticos. Hoje, estima-se que, juntas, elas abocanhem dois terços de tudo o que se gasta com publicidade na internet mundial. Dinheiro é um recurso escasso e inelástico. Quer dizer: para ir a um lugar, ele tem que sair de outro. Neste sentido, é claro que Google e Facebook drenaram grande volume daquilo que era a principal forma de sustentar jornais, revistas, sites e emissoras de rádio e televisão mundo afora. Não é, portanto, exagerado dizer que Google e Facebook colaboraram com a crise, ajudando a quebrar muitos negócios no setor. Alguém poderá dizer que os serviços de anúncios que eles criaram vêm viabilizando também parte do mercado, mas não vamos tapar o sol com a peneira: depois de Google e Facebook, o mercado jornalístico encolheu em tamanho e pluralidade, seus ganhos reduziram e as “oportunidades” criadas não reverteram a crise.

Para além disso, é cada vez mais claro que as big techs são os motores mais potentes para difusão de notícias falsas, discursos de ódio e teorias conspiratórias. É nesses ambientes que a ultra-polarização das sociedades é intensificada e um rizomático ecossistema de desinformação floresceu e se estabeleceu. Alguém poderá dizer que Google e Facebook oferecem apenas as plataformas onde isso acontece e que a responsabilidade é das pessoas e grupos que se dedicam a isso. De novo: não podemos fechar os olhos para a realidade. Google e Facebook não fornecem só os ambientes onde mentira e intolerância se espalham, mas também definem os termos de uso e têm total controle sobre os algoritmos que regem a distribuição dos conteúdos. Isto é, poderiam coibir o ódio com mais firmeza e ajudar a frear a desinformação, mas fazem muito menos do que está ao seu alcance por uma razão simples: isso afetaria o coração de seus negócios. Google e Facebook vivem à base do uso de suas plataformas e da disseminação de conteúdos viralizantes, independente se são verdadeiros ou não, se são socialmente inflamatórios ou não.

Porque ajudam a quebrar empresas jornalísticas e porque contribuem para espalhar desinformação, Facebook e Google não são amigas do jornalismo, nem estão genuinamente preocupadas com ele. Mas por que eles vêm lhe estendendo a mão?

O investimento

Vamos pegar o exemplo brasileiro. O país é o principal mercado consumidor de notícias e entretenimento da América Latina, certamente uma das mais atraentes vitrines para qualquer fornecedor de produtos ou serviços. Aqui também o jornalismo enfrenta severas dificuldades para manter empregos e empresas, mas quantas fundações locais ou poderosos fundos de investimento incentivam o negócio de notícias no país? Talvez não caibam nos dedos de uma mão… Quantos super-ricos tentam “salvar o jornalismo” local? Embora o país tenha dois nomes de peso entre os 100 maiores bilionários do planeta, não se ouve falar de boas ações de Joseph Safra (56º na lista da Forbes) e Jorge Paulo Lemann (86º), que juntos acumulam mais de 40 bilhões de dólares. O jornalismo nacional deveria esperar essa ajuda? Melhor não…

Google e Facebook criaram programas de auxílio ao jornalismo porque esses gastos cabem em suas planilhas, não custam tanto e causam ótima impressão social. 

A Google News Iniciative alardeia que quer construir “um futuro mais forte para o jornalismo”. Para isso, atua em três planos: cria produtos “para atender às necessidades das organizações de notícias e expandir seus negócios digitais”; firma parcerias “para resolver os desafios mais importantes da indústria jornalística”; e desenvolve e apoia “programas para impulsionar a inovação” no setor. É uma estratégia abrangente, robusta e muito atenta às demandas de profissionais e empresas. Ao mesmo tempo em que oferecem cursos de capacitação e ações de educação para a mídia, promovem gincanas de inovação, apoiam meios como AzminaJotaEstadão e O Globo, e criam projetos como a Rede Digital Premium de Jornais e o Impacto.Jor. As soluções apresentadas pelo gigante do Vale do Silício passam todos por seus canais, como o YouTube, GooglePlay e Google News. Fora do Brasil, a iniciativa do Google alcança associações empresariais como a Global Editors Network, Online News Association e Associação Mundial de Jornais, passa por centros formativos e escolas de jornalismo, como o Poynter, e alcança empreendimentos de qualificação profissional, como o Trust Project (Projeto Credibilidade, no Brasil).

Facebook tem sido menos agressivo nesse mercado, mas está por trás de iniciativas como o recém-lançado curso da Abraji “Reconstrução do Jornalismo Local”, o Atlas da Notícia, o robô Fátima (de Aos Fatos) e o projeto Vaza Falsiane, ambos dedicados a combater notícias falsas. Aliás, o projeto Comprova, consórcio nacional de veículos para checagem de fatos, tem apoio de Facebook e Google. Você leu certo: Facebook e Google ajudando a combater o ambiente de desinformação que tanto alimentam e fazem crescer…

É importante dizer que tem muita gente séria, competente e comprometida com o jornalismo concorrendo nessas frentes e este texto não é um julgamento ético de suas iniciativas. Sem linhas estatais de financiamento e sem fontes privadas locais de auxílio, jornalistas e organizações de mídia brilham os olhos quando Google e Facebook anunciam disposição para ajudar. A situação é tão dramática que não precisa muito: basta que as big techs criem programas como o Inovation Challenge e o Google News Lab, ou ainda os aceleradores de Vídeo Digital e de Notícias Locais, do Facebook. Profissionais, coletivos e até grupos de mídia bem estabelecidos disputam a cotoveladas as oportunidades oferecidas. A crise faz com que todos busquem o escasso dinheiro disponível.

Apoiar o jornalismo, mesmo que com recursos muitíssimo limitados, é um ótimo negócio para Google e Facebook. Primeiro porque adoça seus balanços sociais, pois investir em jornalismo é apoiar a democracia, fortalecer as instituições e defender a liberdade de expressão. Segundo porque aumenta o uso de seus produtos por profissionais e empresas, criando verdadeira dependência de pequenas redações às suítes de serviços Google/Facebook. Terceiro porque, ao estender a mão para empresários e jornalistas, ajuda a uniformizar o discurso social e atenuar eventuais pressões do público. Despejar alguns milhões de dólares em ações difusas e bem capilarizadas causa uma impressão de que as big techs estão mesmo ajudando o jornalismo, e que apenas boas intenções liberam os caixas dessas gigantes da internet. Sejamos francos: it’s just business, baby!

A fatura

Não podemos nos dar ao luxo de sermos ingênuos. Faz tempo que o slogan “don’t be evil” não faz mais sentido para o Google. Faz tempo que Facebook deixou de ser só uma rede social de amigos. Os maiores players da internet estão entre as marcas mais valiosas do capitalismo global, e seus movimentos interferem no desenvolvimento tecnológico mundial, moldam comportamentos sociais, definem prioridades econômicas e estremecem alguns pilares da democracia. Nunca houve empreendimentos privados dessa natureza e alcance, e não é exagero dizer que Google e Facebook projetem sombras sobre países inteiros com sua influência e poder. Eles são o mais próximo do que imaginou Dave Eggers em seu romance distópico, O Círculo, onde uma empresa de tecnologia cria tanta dependência humana que ensaia absorver em sua plataforma digital o próprio processo político. É de totalitarismo que estamos tratando; de totalitarismo privado no capitalismo de vigilância e de sedução pelo solucionismo tecnológico.

Então, o jornalismo não deve aceitar o dinheiro de Facebook e Google?

Se a questão fosse fácil assim, não teríamos um problema. Na verdade, estamos diante de um dilema ético que nos obriga a pensar qual o custo disso. Ao se vincular a Google e Facebook, jornalistas e organizações de mídia colocam em risco sua liberdade editorial? Projetos apoiados por eles terão autonomia para criticar e cobrir com rigor os movimentos desses gigantes? Iniciativas de checagem de fatos vão se sentir à vontade para apontar os dedos às plataformas que estimulam a mentira e a confusão? Poderão cobrar delas ações mais efetivas para estrangular um ecossistema de desinformação que corrói as democracias, esgarça o tecido social e deteriora o jornalismo? Há outros caminhos para salvar o jornalismo local, que não os sinalizados por Google e Facebook?

Ouso em dizer que a crise do jornalismo não passa necessariamente por eles, embora não possa também ignorá-los. Um dos grandes problemas do tecno-solucionismo é minar a nossa imaginação e nos fazer acreditar que todas as saídas são tecnológicas e precisam pagar pedágio no Vale do Silício. Não são. O mundo, seus problemas e diversidades são maiores que a Califórnia; a inteligência e engenho humanos não respeitam geografias, e a internet é muito mais do que os jardins murados que nos legaram.

As soluções para a crise do jornalismo não precisam necessariamente passar por Facebook e Google, mas taxar conglomerados como esses ou obrigá-los a remunerar empresas e jornalistas pela reutilização dos conteúdos que produzem são saídas possíveis e viáveis. Legisladores também podem apresentar propostas de financiamento público do jornalismo, tendo em vista que o serviço que prestam pode ser enquadrado em finalidade social. Governantes podem ter políticas transparentes, técnicas e equilibradas de distribuição de verbas públicas ou mesmo de incentivo à mídia, entendendo que é um setor econômico que merece socorro, como foi feito com bancos e instituições financeiras. A sociedade pode se organizar para aderir a sistemas de sustentação compartilhada de pequenas e médias empresas de notícia, se considerar que vale a pena pagar essa conta.

Enfim, não é fácil abrir mão do pouco dinheiro disponível para salvar o jornalismo. Mas a fatura de cobrança virá, e ela pode significar perda de autonomia, independência, liberdade, senso crítico e credibilidade. O jornalismo já cometeu erro parecido recentemente, quando relegou às redes sociais e à plataformas uma etapa de seu processo produtivo: a distribuição das notícias e conteúdos. Deu de bandeja parte de seu trabalho e, com isso, se distanciou mais ainda do público. Não aceitar o dinheiro pode não ser a melhor saída, mas recebê-lo acriticamente pode representar a volta de um pacto parecido como que fez o Fausto, de Goethe. Quanto custará aceitar ao jornalismo aceitar o dinheiro de Facebook e Google? Está na hora de falarmos sobre isso.

Rogério Christofoletti – Professor de Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

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4 comentários

  1. Algumas observações adicionais.

    As grandes plataformas ganham muito com publicidade, mas tem uma contrapartida que tem que ser considerada. Dão acesso a uma miríade de recursos a pessoas do mundo inteiro, em termos de software gratuito para uso de bilhões de pessoas de todas as classes sociais. No passado, no modelo de domínio da Microsoft, tudo isto era pago e caro. Quanto vale isto? Certamente bem menos do que a receita do Google e Facebook, mas tem que levar em conta.

    Esta realidade não muda o jornalismo. Mesmo sem as plataformas digitais, o jornalismo brasileiro é capacho dos anunciantes. Jornalistas mudam seu discurso da água pro vinho pelo simples fato de mudarem de empregador. Um pouco mais de concorrência nas empresas vendedoras de notícia pode facilitar a recuperação da capacidade de jornalistas pedirem demissão quando se sentirem usurpados pelos patrões em sua liberdade de expressão e pensamento.

  2. Google ou Facebook? Profissionais com nível universitário se deixaram aprisionados por duas empresas privadas e internacionais? Toda Rede Jornalística passou a corda pelo pescoço, sem perceber onde estava entrando? Somente agora enxergam a situação? Cerceados, controlados, legislados, cooptados,…pelos interesses comerciais norteamericanos?! Google e Facebook tomando uma parte da Soberania Nacional e seu Direito à Informação? Somos a Pátria da da Inocência doutrinados em 90 anos de NecroPolítica. Facebook, Google, agora já posso ir cagar? Pobre país rico. Mas de muito fácil explicação.

  3. o livrocapitaçismo de vigilancia explicaessa quiestão tb comobemexplicou otexxto.
    a conclusão a que cheguei é que sem a democratização política e economica não haverá solução, pois essas empresas se desenolverm no neonliberalismo autoritário e adoramum regime de exceção,sem regras e sem leis, conforme queria o maior ideólogo dos programadores, o l.burrus f. skinner ariano.

  4. o livro capitalismo de vigilancia de shoshona zukofff, explica essa questão tb com obem explicou otexto.
    a conclusão a que cheguei é que sem a democratização política e economica não haverá solução, pois essas empresas se desenolverm no neonliberalismo autoritário e adoramum regime de exceção,sem regras e sem leis, conforme queria o maior ideólogo dos programadores, o l.burrus f. skinner ariano.

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