19 de junho de 2026

A Lava Jato 2 e o custo da memória curta, por Luís Nassif

Entenda que um governo Flávio Bolsonaro não seria a continuação imperfeita de uma democracia. Seria o seu encerramento deliberado
Atos Golpistas - foto de Joedson Alves - Agência Brasil
  • Lava Jato 2 usa tática conhecida, com aliado no STF e pacto com Polícia Federal para manipular opinião pública.
  • Cobertura da mídia se dividiu entre apoio à CPI do Crime Organizado e jornalistas críticos da repetição de erros.
  • Lula destaca-se como figura central da democracia, enquanto mídia aposta em pessimismo para influenciar eleição 2026.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

A Lava Jato 2 tem uma vantagem e uma desvantagem. A vantagem é que a tecnologia de manipulação da opinião pública é conhecida – e a ingenuidade política do governo também. Bastou articular para colocar um Ministro do Supremo Tribunal Federal aliado no controle da operação, montar um pacto com a banda lavajatista da Polícia Federal, articular vazamentos políticos com jornalistas lavajatistas. A desvantagem é que a tecnologia de manipulação da opinião pública é conhecida. Assim como o desfecho da operação.

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Esse reconhecimento impediu a unanimidade imbecilizante que acometeu a mídia na Lava Jato 1. A cobertura rachou. De um lado, os que endossaram a armação do senador Alessandro Vieira no relatório da CPI do Crime Organizado — a banda mais desinformada e serviçal da grande imprensa, que saiu de uma investigação sobre facções e milícias com a proposta de indiciar três ministros do STF e o Procurador-Geral da República, sem tocar em Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel ou Roberto Campos Neto. Do outro, jornalistas que participaram da Lava Jato 1 e agora, com a experiência que só o arrependimento ensina, se recusam a repetir o erro.

Gilmar Mendes lembrou, com sua habitual falta de elegância e sua costumeira precisão, que jornalistas da Globo serviram de ghost writers da primeira operação — e que coube ao mesmo STF, anos depois, impedir que o governo Bolsonaro cassasse a concessão do canal. A ironia não é gratuita. É uma lição sobre freios e contrapesos que parte da imprensa teima em não aprender: numa democracia, um poder limita o outro não porque os ocupantes sejam virtuosos, mas porque a arquitetura institucional exige essa fricção. Suprimir o freio para atingir um adversário de hoje é suprimir a proteção de amanhã.

O ponto não é absolver ninguém. É entender que um governo Flávio Bolsonaro não seria a continuação imperfeita de uma democracia. Seria o seu encerramento deliberado. Não se trata mais de 2018, quando a falta de registro sobre o personagem ainda permitia apostas moderadas. Agora o roteiro é conhecido: os propósitos golpistas documentados, as ligações com o submundo do crime estabelecidas, o aprendizado do primeiro governo incorporado. A diferença entre Bolsonaro 1 e um eventual Bolsonaro 2 é a diferença entre um ensaio e uma execução. No primeiro, a falta de prática impediu o fechamento do STF. No segundo, iriam direto à jugular.

O que explica, então, a campanha inclemente contra Lula e contra o país?

João Fonseca, depois de uma vitória no circuito mundial de tênis, falou do orgulho de ser brasileiro. Lucas Braathen — nascido na Noruega, filho de mãe brasileira, um dos principais nomes do esqui alpino mundial — fez questão de escolher o Brasil como sua pátria e de articular, com a precisão de quem veio de fora, o que há de singular no modo de ser brasileiro. No cinema, dois filmes premiados internacionalmente moveram torcida nacional. Há uma demanda genuína, intensa e transversal pelo Brasil — pelo que ele é e pelo que pode ser.

A mídia, diante disso, aposta no baixo astral. Pessimismo, notícias negativas, deterioração sistemática do humor nacional. A pergunta incômoda é: para quê? Para condicionar o eleitorado às vésperas de 2026. E se funcionar? Em um primeiro momento, quem apostou nessa estratégia receberá seu quinhão — privatizações de Petrobras, Banco do Brasil, SUS. Depois, encontrará uma nação estraçalhada, poderes constituídos desmantelados, terras raras negociadas com Washington, o PIX substituído pelos cartões de crédito internacionais.

A entrevista de Lula aos três veículos da imprensa alternativa mostrou um presidente no auge da clareza — sobre a disputa eleitoral, sobre sua importância para a manutenção do Estado democrático, sobre os limites que nunca ultrapassou na economia. Aliás, tivesse um pouco mais de ousadia, poderia ter reescrito a história do Brasil, como Getúlio e JK.

Mesmo assim, é a pessoa física que há 40 anos sustenta a democracia brasileira. Com suas qualidades e suas limitações, dificilmente houve presidente mais de centro e mais comprometido com o modelo institucional vigente. Lula é, com toda a ironia da história, a própria Terceira Via que o campo político amorfo que rejeita o lulismo passa a vida procurando sem nunca encontrar.

É possível que a mídia acorde a tempo. Que a memória da Lava Jato 1 — os danos que ajudou a provocar na política, na economia e, por fim, nas suas próprias redações — sirva de vacina contra a repetição. Possível. Mas, até agora, os sintomas são os mesmos.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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11 Comentários
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  1. Fábio de Oliveira Ribeiro

    16 de abril de 2026 8:44 am

    Não creio que seja apenas falta de memória, Nassif.
    Talvez nós estejamos etiquetando com o nome “Lava Jato 2” um fenômeno diferente e ainda mais preocupante.
    Nos EUA, uma disputa interessante está ocorrendo.
    A OpenAI decidiu apoiar um projeto de lei de Illinois que na prática tornará as Big Techs totalmente irresponsáveis por danos provocados por suas IAs. Essa Lei está sendo discutida inclusive e principalmente porque já ocorreram casos de suicídios e de assassinatos em massa “aconselhados” pelo ChatGPT.
    Um princípio básico do direito constitucional moderno e democrático é a igualdade de todos perante a lei. Isso significa que não existem hierarquias sociais estruturadas legalmente. As leis não podem discriminar e separar pessoas em categorias, classes, etc., isolando-as em um conjunto exclusivo de regras específicas e impedindo que elas fiquem imunes à aplicação de uma lei geral quando a vítima estiver sujeita a outro conjunto de regras.
    A distinção social garantida por Lei era algo característico da Idade Média e começou a desaparecer gradualmente após a Revolução Francesa.
    É por isso que uma empresa não pode sofrer danos sem que o responsável seja responsabilizado, ou causar danos a alguém e ficar impune.
    Mas as Big Techs norte-americanas estão caminhando na direção oposta; elas querem uma revolução feudal no direito para que seus produtos possam causar danos sem que elas mesmas sejam responsabilizadas.
    O mais assustador e repugnante é que há legisladores nos EUA apoiando propostas de modificações legais para atender aos desejos das grandes empresas de tecnologia. Isso indica que o ódio contra a legalidade democrática atingiu um novo patamar. E esse patamar é semelhante ao ódio que a bandidagem devota à legalidade democrática no Brasil.
    Na Idade Média um senhor feudal podia fazer qualquer coisa dentro do seu feudo. Desde que fornecesse soldados ao rei, pagasse tributos ao reino quando isso fosse requisitado e não afrontasse demais os clérigos (que estavam sujeitos à Lei Canônica e a autoridade papal) , um senhor feudal não precisava se preocupar muito com a distinção entre legal e ilegal. Tudo que ele fazia era legal.
    Os donos de Big Techs norte-americanos e a bandidagem parlamentar brasileira já opera segundo esses padrões feudais. Ela odeia a igualdade de todos perante a mesma Lei.
    A primeira Lava Jato não era abertamente contra a legalidade, ela apenas a “deformou” parte da legalidade para atender seus interesses políticos. Mas agora nós estamos vendo um típico ódio feudal contra toda a legalidade democrática e isso precisa ser compreendido de maneira adequada. Caso contrário nós seguiremos lutando contra um fenômeno qualitativamente diferente daquele que está em curso.

  2. fabriciio coyote

    16 de abril de 2026 9:15 am

    o stf já age para a elite. o povo q se exploda.

    segundo notícias vorcaro enviou mensagens a moraes no dia da prisão

    escárnio. onde há checks and balances?

  3. Veritas

    16 de abril de 2026 10:03 am

    Não dar atenção aos avanços socioeconômicos que vêm ocorrendo no Brasil é grave erro. Alguns exemplos:
    Já são cinco anos consecutivos de redução nas mortes violentas, de 2021 a 2025, e uma queda acumulada de 25% desde 2020.
    Até a 2º Semana de Abril/2026, comparado a Abril/2025, as exportações cresceram 42,2% e somaram US$ 14,88 bilhões. As importações cresceram 4,5% e totalizaram US$ 8,13 bilhões. Assim, a balança comercial registrou superávit de US$ 6,75 bilhões , com crescimento de 151,6%, e a corrente de comércio aumentou 26,2%, alcançando US$ 23,01 bilhões.
    No acumulado Janeiro até 2º Semana de Abril/2026, a balança comercial apresentou superávit de US$ 20,92 bilhões , com crescimento de 44,3%,
    O Brasil registrou um recorde histórico na abertura de empresas em 2025, com cerca de 5,1 milhões de novos empreendimentos, um aumento superior a 18% em relação a 2024.
    O turismo nacional no Brasil vive um momento de recordes, com faturamento de R$ 108 bilhões no primeiro semestre de 2025, um aumento de 6,9%. Impulsionado pelo mercado de trabalho aquecido e preços mais baixos de passagens, o setor registrou alta de 4,6% em 2025.
    O turismo internacional no Brasil vive uma “era de ouro” pós-pandemia, com um crescimento recorde de 37,1% em 2025, recebendo quase 9,3 milhões de turistas estrangeiros. O setor bateu recordes de faturamento, superando R$ 185 bilhões de janeiro a outubro de 2025.
    A safra brasileira de grãos 2025/26 está projetada para bater novo recorde, atingindo aproximadamente 356,3 milhões de toneladas, um crescimento de 1,2% a 0,7% (dependendo da fonte: Conab ou IBGE) em relação ao ciclo anterior. Impulsionada principalmente pela soja e milho, a produção teve aumento de área plantada (+2%).

  4. emerson57

    16 de abril de 2026 10:57 am

    Perfeita leitura do momento atual, Luis Nassif!
    “É possível que a mídia acorde a tempo.”
    Verdade. Mas isso não vai acontecer. Ao contrário, vão jogar cada vez mais sujo e ultrapassar todos os limites.
    Ainda mais, se perderem, mesmo derrotados vão exigir nova “Carta aos brasileiros” revisada e ampliada.
    O povo é bom. Mas os ricos e os pseudo ricos que os apoiam não valem nada.

  5. Aristóteles Cardona

    16 de abril de 2026 11:45 am

    Estranho Sr jornalista é o governo federal, manter intacto esse pessoal na administração pública. Mais estranho ainda é a nomeação de um procurador geral da República, para proteger essa gente.

  6. J.Mmmarcelo...

    16 de abril de 2026 5:04 pm

    Nassif só precisamos distribuir uma enxada para cada brasoleiro escrito trabalhe pelo Brasil,nem q seja.em miniarura,nos.ditetorios políticos,sindicatos,redações,mercados,postos de saúde,batalhões,casas,baraquinhas,zoologicos,parques,ruas,avenidas,vielas,logradouros,prisões,comércios,escritórios e etc…etc…etc…AFFB!!!

  7. jo lima

    16 de abril de 2026 5:20 pm

    Lula poderia transformar 10 por certo dessa clareza em coragem pra agir, pra criar um projeto nacional. E cá entre nós Lula escolheu gente de segundo time pros ministérios-chave: Rui Costa, Haddad, Alexandre Silveira (que num momento crucial de mudança energética, em que o Brasil pode ser um ato mundial fundamental, tem a qualidade dum médico que acredita ainda em sangria como tratamento médico eficaz ) , a tragédia da fila do INSS… Só não creio que Lula não ganhará de Flávio Bolsonaro porque não é possível que na campanha eleitoral o governo não martele 24 horas 7 dias por semana que um governo Bolsonaro 2.0 tentará acabar com o pix como conhecemos hoje. Até sugiro um slogan = com flávio bolsonaro, seu pix vai pras picas. Como diz Maquiável, “O homem esquece mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio!”

  8. Silvio Torres

    16 de abril de 2026 6:13 pm

    O Brasil vem pagando e vai pagar por muito, muito tempo o vale tudo levado a cabo a partir de 2013 para tirar Dilma e o PT do mapa político. Tudo desmoronou, tudo saiu fora de controle. O desastre econômico, social e político do governo Bolsonaro gerou o medo que levou a uma coalização meia boca para a volta de Lula. Mas nossas elites malditas não sossegam e não aceitam a menor evolução do populacho. A falta de mão de obra semi-escrava para lavar, passar, cozinhar, pagear, construir, rebocar, pintar e atender servilmente por salários de fome disparou o gatilho de mais uma guerra contra qualquer tipo de ascensão social . Cegos pelos preconceitos, são incapazes de enxergar o que vem por aí com um governo Bolsonaro 2 associado a Trump no poder. Será o apocalipse perfeito.

  9. Jose Carlos Lima

    16 de abril de 2026 11:19 pm

    Longa vida seu Nassif, por explicitar tão bem o que o povo deveria saber

  10. Rui Ribeiro

    17 de abril de 2026 1:09 pm

    Ontem eu vi uma placa num prédio onde se alugam kitinetes, onde se lia: “Não alugo para petistas”.

  11. Pedro Rocha

    17 de abril de 2026 2:40 pm

    Seria muito mais difícil explicar porque a mídia deveria agir com vistas em princípios éticos. Agem contrariamente quase sempre porque são clãs que desejam manter seus enormes poderes e riquezas, o desejo de seguir manipulando, decidindo, controlando. Como diria Carlos Matus, a mais nefasta característica dos países latino-americanos é a imensa concentração de poder em poucos, a fragilidade das instituições e a péssima qualidade das lideranças. O povo é atolado na ignorância, as esquerdas sabem disso, ao assumirem o poder formulam estratégias para aumentar suas capacidades de clareza, juízo crítico, discernimento. Não, a “esquerda” eleita busca resolver os problemas da Palestina, a guerra da Ucrânia, a falência da ONU. É de lascar…

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