21 de maio de 2026

Como a flexibilização de Campos Neto permitiu a infiltração do crime organizado

Como a desregulamentação promovida por Paulo Guedes e Roberto Campos Neto abriu brechas estruturais para a lavagem de dinheiro no Brasil
Foto de Raphael Ribeiro/BCB

Fundo que comprou Banco Master usou recursos do narcotraficante Oliver Ortiz, revelam investigações do ICL Notícias.
Contas fiduciárias, usadas para administrar recursos, têm opacidade estrutural que dificulta identificar beneficiários reais.
Flexibilização para fintechs criou sistema paralelo de crédito com baixa rastreabilidade, facilitando entrada do crime organizado.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Peça 1. O Caso Banco Master: Ponto de Partida

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Investigações do ICL Notícias revelaram que o fundo responsável pela aquisição do Banco Master para Vorcaro teria utilizado recursos do narcotraficante espanhol Oliver Ortiz de Zarate Martin. O caso expõe uma vulnerabilidade sistêmica: a entrada de capital criminoso no mercado financeiro brasileiro por meio de um instrumento criado justamente para modernizá-lo — as contas fiduciárias.

A porta de entrada do crime organizado não foi um esquema artesanal de doleiros. Foi uma estrutura regulatória criada pelo Estado brasileiro.

Peça 2. Contas Fiduciárias: O Instrumento e Suas Fragilidades

Uma conta fiduciária é uma conta bancária em que uma instituição guarda ou administra recursos em nome de terceiros. Embora conceitualmente simples, sua opacidade é estrutural: por definição, o gestor pode sempre alegar que o dinheiro não é seu.

Elas surgiram nos anos 90 no Brasil, tiveram um bom impulso a partir de 2010. E escancarou-se o mercado com a entrada de Roberto Campos Neto. Entre 2019 e 2024 houve a explosão das FIDCs (Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios), CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio) e fundos de crédito privado, todos operando através de contas fiduciárias.

Diferencia-se do truste — instrumento do direito anglo-saxão com obrigações legais claras entre instituidor, administrador e beneficiário — por carecer de transparência equivalente sobre o beneficiário econômico final.

Três informações centrais ficam sistematicamente ocultas:

•   Quem efetivamente controla o fluxo da conta

•   Quem é o beneficiário econômico real

•   Se os recebíveis vinculados são reais ou fictícios

Peça 3. A Decisão Regulatória: Fintechs como Justificativa

A flexibilização das contas fiduciárias foi introduzida durante a gestão Guedes-Campos Neto com o objetivo declarado de estimular o ecossistema de fintechs. Na prática, o resultado foi a criação de um sistema de crédito paralelo — o shadow banking — amplo, interconectado e de difícil rastreamento.

Uma das mudanças estruturais foi a criação de dois novos tipos de instituição financeira:

  • SCD – Sociedade de Crédito Direto
  • SEP – Sociedade de Empréstimo entre Pessoas

Como essas empresas não possuem balanço grande para emprestar, muitas passaram a usar:

investidores

FIDC

fintech origina crédito

pagamentos entram na conta fiduciária

Ou seja, o fundo financia os empréstimos.

As contas fiduciárias passaram a alimentar FIDCs, securitizações e plataformas digitais, formando um circuito em que recursos podem transitar por contas de passagem e fundos estruturados com baixa exigência de identificação da origem.

No início da expansão das fintechs, as exigências de Compliance e KYC eram significativamente menos rígidas do que nos bancos tradicionais — janela aproveitada pelo crime organizado.

Peça 4. O Precedente Europeu

O modelo não é inédito. Deutsche Bank e Santander utilizaram estruturas fiduciárias semelhantes para captar recursos do tráfico no Leste Europeu. O Panamá Papers documentou que, apenas em 2016, a unidade offshore do Deutsche Bank nas Ilhas Virgens atendeu mais de 900 clientes, movimentando cerca de € 311 milhões.

Posteriormente, o banco foi multado em US$ 150 milhões pelo Departamento de Serviços Financeiros de Nova York por permitir que Jeffrey Epstein movimentasse milhões por meio de contas fiduciárias e empresas de fachada — mesmo após ser classificado como cliente de alto risco.

Peça 5. Três Mecanismos de Lavagem

Fragmentação de fluxos

Cada camada adicionada ao circuito torna o rastreamento exponencialmente mais difícil:

→ Empresa de fachada gera recebível fictício

→ Recebível é cedido a um FIDC

→ FIDC deposita em conta fiduciária

→ Pagamento final chega a investidores ou empresas relacionadas com aparência de legitimidade

Legalização via recebíveis

Organização criminosa controla empresa que cria vendas fictícias, gera duplicatas ou recebíveis e os cede a um fundo de investimento. O dinheiro entra no sistema financeiro formal com a aparência de uma transação comercial ordinária, validada contabilmente por um FIDC.

Multiplicação do capital

O capital ilícito é aportado em um FIDC, que o utiliza para conceder empréstimos. Os juros pagos pelos tomadores fazem o capital crescer dentro do sistema regulado. Recursos de origem criminosa convertem-se, progressivamente, em rendimentos financeiros aparentemente legítimos.

Peça 6. A Segregação Patrimonial como Escudo

As contas fiduciárias operam sob segregação patrimonial — o dinheiro dos clientes não se mistura com o patrimônio da instituição. Embora esse mecanismo proteja o investidor comum, o crime organizado o utiliza para ocultar o beneficiário final, depositar recursos em nome de terceiros ou empresas de fachada e realizar a triangulação de capitais.

No caso Master, recursos do narcotráfico foram injetados em fundos administrados por DTVMs — como a Sefer/Foco — que os repassaram como capital para instituições financeiras maiores, com cada intermediário podendo alegar desconhecimento da origem.

7. Conclusão: Uma Herança Regulatória

O caso Banco Master não é um episódio isolado. É o sintoma de uma arquitetura regulatória que priorizou a agilidade do mercado em detrimento de controles efetivos de rastreabilidade. A combinação de contas fiduciárias, FIDCs, securitizações e plataformas digitais criou um sistema de crédito paralelo em que a opacidade é funcional — e explorada.

A flexibilização promovida durante a gestão Guedes-Campos Neto abriu uma janela que substituiu os controles sobre o mercado de trust por um instrumento com menor transparência e menor responsabilização. O crime organizado não precisou forçar a entrada: encontrou a porta aberta.

O mercado financeiro ‘fecha uma porta e abre uma janela’. A conta fiduciária foi a janela aberta em substituição ao trust — com menos controles e mais opacidade. No caso Master, com um agravante: Roberto Campos Neto autorizou a compra do Banco Máxima para uma pessoa, Daniel Vorcaro, que já tinha sido denunciada pela Polícia Federal.

LEIA TAMBÉM:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

4 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Rui Ribeiro

    10 de março de 2026 9:11 am

    Por falar no homem que se recusou a ver a situação insustentável do Ma$ter, leio na Falha de Sampa que “Guerra no Irã mexe em cenário econômico do Brasil, e corte na selic vira dúvida”.

    Num mundo globalizado, caberia ao jornalismo afirmar não quais países são atingidos pelas guerras, mas quais ficam imunes, já que a regra é que qualquer guerra na globalização tem reflexos no mundo inteiro.

    Quanto à dúvida no corte da selic, vai ver que eles vão aproveitar essa guerra para elevar ainda mais os juros, piorando ainda mais o cenário econômico.

    O Pig é porta-voz do rentismo. Mas as empresas que de fato produzem, em vez de viverem apenas de especulação, sendo prejudicadas pelas taxas absurdas de juros, amam o PIG. E assim caminha a Humanity.

  2. NÂOÉOJOTAAA

    10 de março de 2026 3:31 pm

    PAGO UM BITCOIN PARA QIEM ME MANDAR O EXTRATO BANCÁRIO DOS ÚLTIMOS 4 ANOS DE FLVIO !!! OBS. :NÃO SOU CONTRA ELE,ACHO QUE A ELITE TÊM Q TER CANDIDATO MESMO,SEMORE TIVERAM COMO POR EXEMPLO O MASTER SABESP TARCÍSIO!!!

  3. Naldo

    10 de março de 2026 4:57 pm

    Se há vazamentos vindo da PF o diretor não pode ficar inerte, ninguém pode cometer crimes ou falta funcional sem punição: quanto ao delegado ser unha e carne com o ministro, não é impedimento para o afastamento, a polícia é independente, e se esquecem que quem pede diligências não é o juiz e sim o ministério público através de cotas, juiz não age de ofício e não interfere no trabalho policial que também é independente, caso contrário, só faltaria a pgrr para se ter realmente um conluio julgador, acusador e investigadores tal qual a lava jato.

  4. fabricio coyote

    10 de março de 2026 5:33 pm

    hoje o escroque josia de souza disse q Lula deve responder pelos atos do filho, ou seja, há óbvia inclinação a desconstrução do Torneiro Mecànico. óbvio fascisno disfarçado de indignação. então a lógica é do assassinato de reputação. essa coragem não é enfeixada contra o desembargador que foi advogar para o coronel feminicida. o milico chamou o juiz antes de advogado. a perversidade do sistema fascista é tamanha que determinaram a 3 mulheres para limpar a cena do crime e a imprensa não chama o tarcísio às falas. isso no suposto estado mais avançado da federação. agora como Lula veio do Povo, deve ser espinafrado em sua condição social. ãompossuem a coragem de perguntar sobre essa esculhambação ao desgovernador de são paulo. a “corrupção” é mais importante de que o extermínio de mulheres via brurocracia estatal. o jornalismo é o terror!

Recomendados para você

Recomendados