24 de junho de 2026

Como o Banco Central de Campos Neto escancarou o mercado para o crime financeiro

O arcabouço vendido como democratização financeira e quebra do oligopólio bancário forneceu a infraestrutura ideal para a lavagem de dinheiro.
Roberto Campos Neto - Reprodução BC

A Lei 12.865/2013 abriu o mercado para fintechs com regras leves, ampliando inclusão e concorrência bancária.
Operação Carbono Oculto revelou R$ 52 bi em lavagem via fintechs, com PCC usando seis instituições para ocultar crimes.
Regulador fechou brechas em 2025-26, exigindo reporte e controle rigoroso, reduzindo fintechs de 2.000 para centenas até 2028.

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Como o mercado brasileiro abriu espaço para as fintechs do crime organizado

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O fenômeno pode ser descrito como uma sequência de três movimentos — uma abertura regulatória, um vácuo de fiscalização e uma captura criminosa — que só agora, em 2025-2026, começa a ser revertida. Percorrendo todo o ciclo, há uma ironia estrutural que merece ser destacada de saída: o mesmo arcabouço vendido como democratização financeira e quebra do oligopólio bancário forneceu a infraestrutura ideal para a lavagem de dinheiro.

Esse modelo tem pai, com nome e sobrenome: Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central nomeado por Jair Bolsonaro.

A abertura (2013-2020): a opacidade como subproduto da desintermediação

O marco fundador foi a Lei 12.865/2013, que criou as categorias de “arranjos de pagamento” e “instituições de pagamento” (IPs) sob um regime deliberadamente mais leve que o bancário. A lógica era ampliar a inclusão financeira e introduzir concorrência num mercado dominado por cinco grandes bancos.

Sobre essa base vieram a Resolução CMN 4.656/2018 — que criou as SCDs (Sociedades de Crédito Direto) e SEPs (Sociedades de Empréstimos entre Pessoas), as fintechs de crédito que não precisam ser bancos —, o Open Banking/Open Finance, o sandbox regulatório e, em novembro de 2020, o Pix. Foi a fase que o próprio setor hoje chama de “inovação permissiva”: operar primeiro, regularizar depois.

O vácuo: três brechas que se combinavam

A primeira e mais decisiva era a assimetria de reporte. Até 2025, as fintechs não tinham a obrigação de reportar à Receita Federal as movimentações financeiras de seus clientes — lacuna preenchida apenas recentemente por mudança na legislação. Enquanto os bancos enviavam a e-Financeira, as IPs operavam num ponto cego fiscal.

A segunda era o BaaS (“Banking as a Service”): empresas não-financeiras passaram a oferecer contas e pagamentos por meio de intermediários licenciados, porém capitalizados de forma fina, multiplicando camadas de opacidade. São cerca de 1.500 a 2.000 empresas prestando serviços ligados ao setor financeiro, muitas com atividade bancária de fato.

A terceira — e o verdadeiro motor da lavagem — era a conta-bolsão. A fintech abre uma única conta junto a um banco maior, que funciona como depósito coletivo agregando recursos de múltiplos clientes sem individualização adequada; o banco enxerga apenas a fintech como titular, e a separação acontece somente nos registros internos da empresa. Para o sistema de controle, milhares de movimentações de origem ilícita desapareciam dentro de um único CNPJ.

A captura: o crime organizado migra da ilegalidade para a legalidade

A frase que sintetiza o desfecho foi dos próprios ministros à época da Carbono Oculto: o PCC migrou “da ilegalidade para a legalidade”, com forte atuação no setor de combustíveis.

A Operação Carbono Oculto (agosto de 2025) revelou a escala. Cerca de R$ 52 bilhões movimentados em quatro anos, com a facção mantendo R$ 30 bilhões investidos em 40 fundos geridos por fintechs da Faria Lima, na etapa final do processo de lavagem. O caso emblemático foi a BK Bank, instituição de pagamento que teria movimentado R$ 46 bilhões em operações ligadas ao crime organizado entre 2020 e 2025.

O circuito unia economia financeira e economia real: importação de nafta e metanol pelo Porto de Paranaguá, adulteração de combustíveis em usinas e distribuidoras próprias, e lavagem dos lucros via frotas de caminhões e fundos imobiliários.

O ponto crucial — e que a Operação Fluxo Oculto, deflagrada em 28 de maio de 2026, acaba de confirmar — é que a repressão não estancou o esquema. Após a Carbono Oculto, a facção se reorganizou e ampliou de três para seis o número de fintechs usadas; juntas, as seis movimentaram R$ 26 bilhões em operações atípicas. O sinal mais eloquente da natureza do esquema: uma delas movimentou mais de R$ 1 bilhão em dinheiro vivo, algo que sequer deveria ser possível numa fintech. O MPSP (Ministério Público Estadual de São Paulo) passou a tratá-las literalmente como “dutos do crime organizado”.

Anatomia do núcleo: as seis fintechs da Fluxo Oculto

A nova fase cumpriu 55 mandados em cinco estados — São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso do Sul. O MPSP descreve as seis instituições de pagamento como “bancos paralelos” da organização, compondo um “poderoso núcleo financeiro” usado para compensações internas entre distribuidoras e postos, compensações entre empresas e fundos administrados pela facção, pagamento de colaboradores e gastos pessoais dos operadores.

Os alvos, na forma como o MPSP os agrupou — cada IP orbitada por suas empresas-satélite (participações, gestão imobiliária, processamento de dados):

  1. Ceopag IP — com Ceopar, Fundopay S.A. e XBR Participações
  2. America Payment S.A.
  3. Sispay IP — com May Servex Negócios Imobiliários
  4. Vpay IP — agrupada com a Sispay no mesmo bloco
  5. Smart Solutions IP — com Smart Safe Locação e Processamento de Dados
  6. YAW IP S.A.

Acima das IPs operava a camada de ocultação patrimonial — a “lavanderia” final. O dinheiro era remetido a fundos de investimento: foram identificados quatro fundos no esquema de desvio de nafta, com patrimônio atual de cerca de R$ 205 milhões e incremento superior a 200% em pouco mais de um ano, além de duas administradoras e duas gestoras de recursos — entre elas a Ello Gestora de Recursos Ltda., também na lista de alvos.

Na origem do caixa estava o circuito da nafta. Em apuração conjunta com a ANP (Agência Nacional de Petróleo), o MPSP descreveu a venda simulada de solventes a empresas-fantasma, com abertura serial de empresas em vários estados usando parentes, pessoas em situação de vulnerabilidade e até presos como laranjas para constituir as PJs que supostamente compravam solvente.

Uma ressalva: trata-se de investigação em curso, e nem toda empresa citada está em pé de igualdade. A YAW enviou nota afirmando ter histórico de atuação íntegra, sem processos criminais ou envolvimento de sócios em ilícitos, e negou qualquer vínculo com organizações criminosas.

A reversão (2025-2026) e a nova ironia

A resposta regulatória chegou em pacote: fechamento da brecha de reporte à Receita; Resoluções BCB 517/518 e correlatas elevando capital mínimo e exigindo autorização prévia do BC para operar; encerramento compulsório das contas-bolsão usadas irregularmente, com obrigação de identificar, notificar e fechar tais contas; regras para criptoativos (Resoluções 519/520/521, de novembro de 2025, criando as SPSAVs); e exigências de cibersegurança (CMN 538/2025, com prazo em março de 2026).

O efeito esperado é uma forte consolidação — projeções falam em redução do setor de cerca de 2.000 para algo na casa de centenas de empresas até 2028.

Frentes em aberto

Dois fios ainda por puxar, ambos centrais para fechar a cadeia de responsabilidades:

  • O quadro societário das seis IPs — sócios, laranjas e os operadores por trás de cada CNPJ, com atenção a eventuais cruzamentos com os nomes já apontados na Carbono Oculto.
  • Os bancos tradicionais que sediavam as contas-bolsão — o elo que conecta esse núcleo “paralelo” ao sistema regulado.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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6 Comentários
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  1. Jotainvestigationtoctoctoc

    2 de junho de 2026 9:06 am

    NÃO IMPLICA NASSIF,O PRESIDENTE DO BC É SIMPLESMENTE UM PRESIDENTE DO MERCADO E SEMPRE ESTÁ ATRÁS DE BONS NEGÓCIOS PARA SI E PARA OS SEUS AMIGOS,NÃO IMPORTA COMO,DEIXA ELES LUCRAREM EM PAZ,O BRASIL É SÓ UM DETALHE,IMA ESCADA PARA O SUCESSO!!!OBS.:SRS.:AUTORIDADES DO BRASIL SOLICITO ESCLARECIMENTO SOBRE O CONTEXTO DA NEGOCIAÇÃO DE PATROCÍNIO DO BANCO MASTER COM UMA GRANDE EMISSORA AMIGONA DE VORCARO,SEM MAIS MUITO OBG !!! OBS2.:TOC,TOC,TOC !!!

  2. HILTON Fraboni

    2 de junho de 2026 11:11 am

    O que não dá para imaginar é o que será feito com o dinheiro supostamente “ilícito e com as empresas facilitadoras.
    O Drex, como moeda corrente zeraria a lavagem de dinheiro?

  3. Eliot Ness

    2 de junho de 2026 7:52 pm

    Imaginando que o Marcola, o Fernandinho Beira-Mar, o Marcinho VP ou o Rabicó não tenham se formado na FGV, na PUC na USP, tem gente que entende dessas engrenagens financeiras sofisticadas contratada ou exercendo a função de dirigente oculto dessas organizações criminosas. Se todo o mecanismo da lavanderia financeira está esclarecido pelas investigações, onde estão os operadores financeiros, contadores e economistas do crime organizado? Na cadeia não estão. No final são apenas bons negócios, às favas os escrúpulos!

  4. AMBAR

    3 de junho de 2026 1:33 am

    Desde que ví pela primeira vez a cara do Robert Fields III tive a certeza de que faça ele o que fizer, ninguém jamais botará as mãos nele. A mim parece que ele é associado a tal esfera de poder que o imuniza de qualquer ameaça de punibilidade. Blindagem intransponível.

  5. beto amorim

    3 de junho de 2026 7:34 am

    por que ele nao foi punido?

  6. jose machado

    4 de junho de 2026 1:52 am

    O Roberto Campos Neto está sendo blindado pela mídia e pela elite financeira.

    Ninguém fala mal nem dele e nem do Banco Central. Todos os jornalistas e economistas
    não falam de maneira nenhuma, que o escândalo do maior rombo histórico financeiro do
    país é culpa da administração do Banco Central.

    Ora, eles querem preserva a todo custo a vitória da privatização do Banco Central e esse escãndalo
    é o resultado desastraso dessa privatização. E o Roberto Campos foi leão de chacára deles.

    Então quanto mais silêncio, menos: análise, debate, conversa. Melho para o objetivo deles: ABAFAR O CASO.

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