21 de maio de 2026

MPF abre série de investigações sobre manobras de Nelson Tanure, por Luís Nassif

UPCON Incorporadora, WOTAN e BRAZIL REALTY são operações que apresentam um mesmo modelo de engenharia financeira fora do aceitável
Reprodução

MPF denuncia manipulação no mercado na compra da UPCON pela Gafisa, com uso de informação privilegiada e esquema financeiro.
Nelson Tanure, conselheiro da Gafisa, financiou operação e ampliou controle oculto via fundos e venda coordenada de ações.
Investigação se estende à WOTAN, com ocultação de riscos e conflito de interesses, afetando acionistas minoritários e investidores.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

O Ministério Público Federal corre contra o relógio. Se nada acontecer até fevereiro de 2026, a denúncia morre por prescrição. No centro do caso está um negócio aparentemente comum: a compra da incorporadora UPCON pela Gafisa. Mas, segundo o MPF, o que ocorreu foi um laboratório de manipulação do mercado com uso de informação privilegiada.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

1. A empresa

A UPCON Incorporadora S/A era uma empresa fechada do setor imobiliário, especializada em empreendimentos residenciais e comerciais. Seu controlador, Gilberto Benevides, detinha 82,94% do capital. Em 2019, a empresa entra no radar da Gafisa, gigante do setor imobiliário de capital aberto.

O preço final: mais de R$ 240 milhões.

2. O conselheiro

Naquele momento, Nelson Tanure ocupava uma cadeira estratégica: era acionista relevante da Gafisa e membro do Conselho de Administração. Isso lhe dava acesso direto a informações sigilosas sobre operações societárias relevantes — incluindo a compra da UPCON.

Segundo a denúncia, Tanure não era um espectador do negócio. Ele estava dentro da sala onde as decisões eram tomadas.

3. A informação que não era pública

A estrutura da operação, a forma de pagamento e o cronograma só seriam divulgados ao mercado em 31 de março de 2020. Antes disso, apenas um grupo restrito tinha acesso aos detalhes.

Gilberto e Tanure estavam nesse grupo.

O MPF afirma que eles usaram essa vantagem informacional para arquitetar uma manobra financeira: comprar ações antes do anúncio público e estruturar um esquema de financiamento cruzado.

4. O truque do valuation

O preço da UPCON seria calculado com base no indicador P/VPA (Preço sobre Valor Patrimonial por Ação). Gilberto sabia disso.

Com apoio financeiro de Tanure, ele injeta R$ 150 milhões no capital da própria UPCON pouco antes da venda.

Efeito direto:

• aumenta artificialmente o patrimônio

• infla o preço da empresa

• força a Gafisa a emitir mais ações e debêntures

Ou seja: a empresa fica “mais cara” sem que nada mude na operação real.

5. Quem bancou

O dinheiro não caiu do céu.

Tanure operou por meio do fundo SINGULAR PLUS e da Planner Corretora. Foi emitida uma Cédula de Crédito Bancário de R$ 118 milhões para a UPCON.

Garantias dadas:

• ações da própria UPCON

• futuras ações da Gafisa

Na prática, segundo o MPF, Tanure financiou Gilberto para comprar dele mesmo depois.

6. O resultado

Gilberto:

• vende a empresa por valor inflado

• entra no Conselho da Gafisa

• indica o filho para cargo executivo

Tanure:

• compra ações antes do anúncio

• garante papéis a preço inferior

• amplia sua participação

• consolida poder dentro da Gafisa

7. Por que não houve acordo

O MPF se recusou a oferecer acordo a Tanure. O motivo: reincidência, insider trading, ocultação de controle via offshores, abuso de poder de controle, operações coordenadas

8. O que vem a seguir

A denúncia trata apenas da UPCON. Mas o inquérito é maior.

Outras operações estão na mira:

• WOTAN

• BRAZIL REALTY

O MPF já pediu o desmembramento do processo.

CONCLUSÃO

A compra da UPCON não foi um negócio comum. Segundo o MPF, foi um experimento de engenharia financeira onde informação virou arma, fundos viraram escudo e o mercado virou palco.

Se a Justiça não agir a tempo, o caso não será enterrado por falta de provas — mas por excesso de tolerância institucional.

Como o mesmo roteiro reaparece em outra operação

Se a UPCON foi o laboratório, a WOTAN foi a confirmação. Segundo o MPF, a operação envolvendo a empresa WOTAN revela a repetição do mesmo padrão: uso de fundos como biombo, ocultação de controle, vendas coordenadas e engenharia para ampliar poder dentro da Gafisa sem aparecer formalmente.

1. O objetivo oculto

Após a UPCON, a meta de Nelson Tanure era clara: aumentar seu controle sobre a Gafisa sem disparar alertas regulatórios. Para isso, segundo a investigação, ele recorreu novamente a veículos intermediários.

A WOTAN surge como peça-chave desse tabuleiro.

2. Quem é a WOTAN

A WOTAN era uma empresa adquirida pela Gafisa em operação estruturada por meio de:

• debêntures conversíveis em ações

• compra indireta

• participação de fundos ligados a Tanure

Formalmente, Tanure não aparecia como comprador.

Na prática, segundo o MPF, o controle era dele.

3. A omissão estratégica

Um ponto central destacado na denúncia: a Gafisa não informou ao mercado que a WOTAN era parte relacionada a Tanure.

Essa omissão é grave porque: altera a percepção de risco do investidor, mascara conflito de interesses e  esvazia a transparência exigida pela CVM

4. O descarte antecipado

Antes da emissão das debêntures que viabilizaram a compra da WOTAN, fundos ligados a Tanure realizaram venda coordenada de grande volume de ações da Gafisa, com redução artificial de preço

Depois, houve a recompra posterior, mais barata, e aumento indireto de participação Clássico jogo de empurra: derruba para comprar.

5. A bomba escondida

A denúncia revela outro detalhe explosivo:

A WOTAN possuía: passivos ambientais relevantes, execuções fiscais em curso, riscos ocultados do mercado. Mesmo assim, foi vendida como ativo estratégico.

6. O padrão se repete

O MPF faz uma conexão direta:

• fundos como intermediários

• Tanure fora do radar formal

• engenharia para ampliar poder

• ocultação de vínculos

7. Impacto para os acionistas

Quem pagou a conta? Acionistas minoritários e investidores que compraram sem saber dos riscos

A operaçã diluiu participação, transferiu riscos ocultos e concentrou poder

8. O que o MPF investiga agora

A operação WOTAN ainda está em apuração.

O MPF quer saber:

• quem financiou

• quem lucrou

• quem sabia

• quem omitiu

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

1 Comentário
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Nilvan Vieira da Silva

    13 de janeiro de 2026 1:25 am

    Esse miserável acabou com muitos acionistas minoritários da Gafisa, com esses golpes elaborados nas barbas da CVM. O seu fim será na prisão.

Recomendados para você

Recomendados