Amigos para sempre (III) – Celso Nunes, por Izaías Almada

Na Escola de Arte Dramática de SP fiz amizade com Celso Nunes, que se tornaria um dos melhores diretores de teatro em São Paulo e no Brasil

Fundação Padre Anchieta

Amigos para sempre (III)

Celso Nunes

por Izaías Almada

          De Belo Horizonte para São Paulo. Viagem noturna de ônibus, Viação Cometa. Com a cara e a coragem. Não conhecia a cidade, não conhecia ninguém da cidade. Dia 25 de janeiro de 1963. São Paulo comemorava o seu 409º aniversário.

          Na bagagem roupas e uma carta de recomendação a um diretor do Banco de Minas Gerais, parente distante do meu pai. Na carteira um dinheirinho contado e um papel com o endereço de um apartamento da Rua da Consolação que alugava quartos. Objetivo da viagem: estudar teatro na Escola de Arte Dramática de São Paulo, a EAD.

          No apartamento encontrei, com alguma surpresa, um colega do Colégio Estadual, Mauro Continentino, e um diretor de cinema baiano, Luiz Paulino dos Santos. O apartamento alugava quartos para estudantes, mas naquele momento estava com a lotação completa.

          Descansei, almoçamos em um restaurante bem ao lado do prédio e após o almoço fui, na companhia do Mauro, ver uma pensão na Rua Piauí, próxima ao Instituto Mackenzie e tive a sorte de encontrar um quarto para alugar. Alívio.

          A carta de recomendação valeu e fui trabalhar de contínuo no Banco de Minas Gerais. Entrei para a EAD numa turma de 30 alunos e boa parte deles não sabia por qual razão queria fazer teatro. Quando muito, sabe-se lá, a perspectiva de se tornaram atores nas novelas da Rede Globo de Televisão: a vaidade e a presunção era o que importava.

          As matérias teóricas e práticas avançaram pelo primeiro ano e nele fiz amizade com Celso Nunes, aluno que viria a se tornar um dos melhores diretores de teatro em São Paulo e no Brasil.

          Celso teve mais paciência do que eu e conseguiu chegar ao final do curso, paciência e empenho que lhe valeram uma bolsa para estudar na Europa, em Paris, bolsa conseguida, se não estou em erro, pelo professor e diretor Alfredo Mesquita.

          Ansioso, deixei a EAD no final do segundo ano e com um contato com o professor Augusto Boal que poderia me abrir as portas do Teatro de Arena. Tive ainda a sorte de acompanhá-lo ao Rio de Janeiro para ser seu assistente no show musical “Opinião”, um dos maiores sucessos de público na época.

          Antes de seguir para Rio de Janeiro, contudo, fiz com Celso Nunes no final de 1964 uma viagem de carro à Bahia, num fusquinha dele que foi e voltou para São Paulo bravamente, sem qualquer tipo de problema, muito embora tivéssemos escapado de um pavoroso desastre que, se acontecido, não estaria com certeza a escrever essa crônica.

          Já em terras baianas e com alguma fome no estômago, vimos o estacionamento de um pequeno restaurante na estrada, em sentido oposto ao que estávamos. À nossa frente seguia um desses enormes caminhões estradeiros. Celso diminuiu um pouco a marcha à espera de poder visualizar a possibilidade de atravessarmos a pista em direção ao restaurante.

          Deu o sinal de que iria entrar à esquerda e quando o fez um carro apareceu, não se sabe bem de onde, obrigando-o a uma rapidíssima manobra para a direita, conseguindo evitar por centímetros uma batida bem violenta, não só do carro que vinha em alta velocidade, mas também a traseira do caminhão que ia à nossa frente.

          A cidade de Salvador, no entanto, nos gratificou pelo susto com sua arquitetura colonial e sua culinária maravilhosa.

          Não completei o curso na EAD e Celso, ao voltar da França, trouxe na bagagem, além de outros conhecimentos e experiências como, por exemplo, a experiência adquirida com um grande realizador polonês Jerzy Grotowski.

          Inicia em São Paulo sua carreira vitoriosa em direção de teatro onde se destacam, entre várias outras, peças como “O Interrogatório”, de Peter Weiss, “A Viagem”, produção de Ruth Escobar sobre “Os Lusíadas” de Camões, “Coriolano”, de Shakespeare com o ator Paulo Autran e um belo espetáculo de teatro/dança inspirado no texto “Escuta, Zé!” de Wilhelm Reich.

          No início de sua exitosa carreira, já entre os anos de 1969 e 1971, período em que estive preso pelos esbirros da ditadura civil/militar de 1964, Celso surpreendeu-me ao acenar ao lado de outras pessoas para a janela onde eu me encontrava no Presídio Tiradentes, atitude de alguma coragem na época e de grande amizade.

          Lembro-me até hoje de alguns almoços na casa da Rua Faustolo, na Lapa, onde Celso ainda morava com os pais e uma irmã. Nessa amizade de sessenta anos, Celso esteve casado dez deles com minha amiga e atriz Regina Braga, mãe de seus filhos Gabriel e Nina.

          Salve Celso! Um grande abraço para você aí em Salvador, Bahia…

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

Izaias Almada

0 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador