Anarriê, Alavantú XXIX – Tempo Demais
por Rui Daher
Fiz-me um pouco afastado desta e de outras telas. Sei que vocês não se importaram porra nenhuma com isso. Talvez nem tenham percebido, “tanto faz se ele posta alguma coisa boa ou não”. Com a doença e a idade avançada sinto ter perdido vários amigos leitores ou não.
Perdi mesmo interlocuções pouco frequentes que endereçava a pessoas que admiro. Frases curtas de WhatsApp, respeitosas, duas linhas, dúvida ou observação (controlo-me em não ser chato). Repete-se com amigos e amigas, ignorantes, que pensam acidente cervical medular em octogenário caduco, podem a todos deixar lelé. Decepciono-os. Ainda não.
Quando morrer sei que nem obituário terei aqui ou ali. Pouco fiz na literatura ou no jornalismo para alguma menção. Não que eu, ainda vivo, ligasse para qualquer loa pelos textos que exponho. Tenho a minha profissão. Nestas telas, meu DataFolha avalia, exclusivamente, familiares e amigos próximos.
Descubro como o fez Chico Buarque, ao completar 80 anos no último 19 de junho que legiões de humanos o detestam, assim como às suas obras musicais e, principalmente, as literárias.
Hoje em dia, a mim, cabem desânimo, letras insalubres e repercussões desalentadoras. Passado profissional e empresarial, ótimo no passado, recentemente, de muita aflição e mal resolvido. Ganhar dinheiro (ou não perder mais), para o sustento médio. Cheguei a pensar que a inversão de provedor familiar para ser provido por filhos, atualmente bem-sucedidos e gratos pelo passado recebido, seria desalentador, orgulho medíocre.
Na fase atual, para salvar a empresa fabricante de produtos orgânicos e minerais no interior de São Paulo, fundada há 15 anos, obriguei-me a cruzar com pessoas difíceis em negócios e solicitar ajuda. No caso, empresário de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), reconheceu meu passado recíproco e está me ajudando.
Os demais, adeptos da financeirização que conduz a economia brasileira, com forte atuação em bolsas nacionais e internacionais, não compareceram, mesmo aqueles que deveriam considerar alguma recíproca do passado. “Deu quando podia, agora que precisa, foda-se”.
Contagiei-me com a situação pessoal e passei a expelir perdigotos de ódio sobre o pior da sociedade e cultura brasileiras, que só vejo crescer na mediocridade. A idade ajudou fazer a bunda mais pesada. Doença neurológica soprando três velinhas e me deixando imobilizado ou dependente de terceiros para alcançar uma cachaça ou o que a valha, regulada e trancafiada pelos heróis da plena saúde.
Já a perdi há 59 anos, em 1965, com 19 anos, filho único, quando perdi meu pai e, desalentado, filho único, tornei-me um diabético diabólico.
Se chegar a agosto e completar 79 anos de idade, os presentes de aniversário, todos solidários, virão com menções “precisa se animar … sempre foste um guerreiro diante das mais perversas situações e traições … saia um pouco de casa … procure os amigos do passado”. Sempre dou a mesma resposta. Talvez. E tudo se mantém igual.
O número de supostos amigos que perdi depois da doença (não foi menor dos que perdi daqueles que resolveram eleger Jair, em 2008). Infrutífero procurá-los. Mais decepções? Pra quê? As corbelhas não teriam as minhas bandeiras.

Lembram-se da série de colunas aqui iniciada “Anarriê, Alavantú”, inspiração que roubei do folclore nordestino nas festas de São João? Ordens de comando indicando que os participantes da quadrilha deveriam seguir ora para atrás ora para a frente.
É assim que vejo o Brasil em seus momentos históricos e prováveis perspectivas. Li muito para saber a verdade histórica de nosso país. Os melhores, mais confiáveis e críveis. Não há. Assim estamos assim ficaremos. Elite certa de ser única e que os demais nunca existiram ou nunca a ameaçará.
Inté.
Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor
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