Celso Furtado, Henry Kissinger, Deus e a cantilena comunista
por Rosa Freire d’Aguiar
No dia 26 de julho, Celso completaria 106 anos. À guisa de lembrança, trago para cá trechos do relatório que Henry Kissinger escreveu ao governo americano, nos idos de 1962, depois de uma viagem ao Brasil.
Foi em maio e junho daquele ano — dois anos antes da queda de Jango — que Kissinger veio, como enviado (discreto) do governo americano, encontrar políticos, militares, intelectuais, sindicalistas. Esteve com mais de 80 pessoas, entre elas Carlos Lacerda, Gilberto Freyre, Walther Moreira Salles.
E Celso Furtado, que então chefiava a Sudene, no Recife.
O americano, que depois seria Secretário de Estado dos EUA, estava querendo saber, é claro, se havia alguma possibilidade de os Comunistas — assim mesmo, sempre com “C” maiúsculo no relatório datilografado — poderiam chegar ao poder. Era o pavor da época; afinal, a Revolução Cubana ocorrera poucos anos antes.
E, no entender de Kissinger, a turma da direita e a do centro (já então…) não tinham o menor projeto para o futuro do país, todos meio perdidos.
Na véspera do encontro com Celso, na sede da Sudene, Kissinger almoçou com um figurão pernambucano que lhe garantiu que “Furtado era um Comunista e que sua repartição estava pesadamente infiltrada de Comunistas”.
Ainda naquele dia, outro pernambucano de nome Chavez garantiu-lhe que havia um plano, elaborado pelo ministro da Guerra, para expulsar Celso da Sudene (por ser Comunista) e substitui-lo por um engenheiro militar.
Depois desse almoço, Kissinger vai para a Sudene, ali no centro do Recife.
O encontro começou mal, Celso mau humorado com aquele representante do governo americano. Depois conversaram bastante. E Kissinger deixou o seguinte registro:
“Furtado é talvez o funcionário brasileiro mais impressionante que eu encontrei. Com certeza ele é tecnicamente o mais competente. Ele é uma das poucas pessoas que tem uma clara concepção de para onde está indo. Se ele é de fato um Comunista (como algumas pessoas disseram), então que Deus nos ajude, porque ele é muito forte, inteligente e obstinado.”
Pois é, seu Kissinger, e pensar que menos de dois anos depois Deus ajudou a tal direitona e o tal centrão a darem o golpe militar, e instalarem, não a “ditadura Comunista” que o senhor temia, mas uma “ditadura” tout court, que durou vinte anos. E me pego aqui matutando que, mais de 60 anos depois da sua vinda ao Brasil, os Estados Unidos continuam taxando de “Comunistas” qualquer um que pense diferente dos fascistas de lá e de cá. Brabeira!

Rosa Freire d’Aguiar – Jornalista, escritora, tradutora e vencedora do Prêmio Jabuti de 2023 com o livro Sempre Paris.
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