Série PIAUÍ CULTURA REGIONAL (VII)
Dona Iraci do Tombador – A ancestralidade no canto da Lezeira do Piauí
por Eduardo Pontin
Fotos Francisca Sousa
Chegar ao povoado do Tombador, no município de Itainópolis (360 km de Teresina), pode ser um desafio para quem anda “sem pajem” pelo nosso belo Piauí, como diria o grande poeta Hermínio Castelo Branco. Veredas consecutivas, solo pedregoso e poucas casas para tirar dúvidas dificultam o caminho. Superados os obstáculos, não há nada como se abeirar a casa de Dona Iraci (Iraci Maria da Costa, 23/8/1950), espécie de matriarca do lugar. Ela logo te oferece uma rede para descansar e beiju para matar a fome. Te faz se sentir em casa, mesmo sem te conhecer. O alpendre de sua residência tem como vista uma barragem e é um dos mais marcantes retratos do sertão do Piauí. Dona Iraci é cantadeira fina de Lezeira, expressão cultural tipicamente piauiense “da antiguidade” como ela diz.
Dona Iraci é filha de José Acelino da Silva (1927-2018) e de Teresa Moreira da Costa (1917-1997). Embora na Lezeira hoje se admita crianças, ela sempre foi uma dança de roda de adultos cultivada em pares, entre homens e mulheres.
Dona Iraci conta que quando pequena era pra frente, infuluída. Aos 8 anos ficava na ponta dos pés para participar da Lezeira. Por ser uma dança de movimento constante que envolve contato físico, muitas vezes não é possível medir a força e, certa vez, quando a pequena Iraci foi de encontro ao cavalheiro, percebeu uma frieza em sua venta. Seu nariz começou a sangrar devido ao contato com o cotovelo do cavalheiro e a roda foi encerrada.
Segundo Dona Iraci, naqueles tempos tudo era sofrido, água era uma dificuldade e nem governo não tinha, mas era todo mundo feliz. A razão? Não se conhecia outra vida, a vida era aquela mesma.
Naquele Piauí de Dona Iraci, era comum todos os finais de dia, após cansativo dia de trabalho na roça, os pais reunirem suas crias no terreiro. Acendia-se lamparininha de gás cheia de óleo que chega estralava. Camas feitas com talo de carnaúba cobertas com esteiras também feitas com a palha da carnaúba eram colocadas no centro do terreiro e, ora sentados em roda, ora deitados olhando o mágico céu transbordando estrelas, contava-se estórias de trancoso. Estimulava-se a imaginação da criançada com adivinhas e, principalmente, ensinava-se quadras de versos para serem cantadas na roda da Lezeira. O pai de Dona Iraci arrochava a goela no mundo cantando versos.
Foi nesse ambiente animoso e cheio de pintura que, sem perceber, Dona Iraci se transformou na transmissora de valores culturais e simbólicos mais fiel de seus ancestrais. Iraci relata que seu avô, Francisco Moreira, o popular Cuscuzeiro, já brincava Lezeira. E hoje os filhos de Dona Iraci também dançam a Lezeira, com especial destaque para o cantador Josimar (Josimar Pereira da Costa, 19/10/1971). Isso significa que há ao menos 4 gerações a Lezeira vem sendo cultivada pela família de Dona Iraci no povoado do Tombador.
Dona Iraci é casada com Seu Osvaldo, o casal teve 6 filhos: José, Orisvaldo, Josélio, Josivaldo, Josinalda e Josimar. Seu Osvaldo chegou a trabalhar no garimpo da Serra Pelada e conta cada história daquele período!
Dona Iraci exerce grande papel de liderança onde mora. Religiosa, cedeu espaço de seu terreno para que uma capela fosse construída e a sua comunidade pudesse ter acesso ao alimento da alma sem precisar se deslocar até o centro da cidade, que fica a cerca de 5 km de distância.

Aliás, o Piauí é um dos estados onde a dança de São Gonçalo ainda é muito cultivada, principalmente pelos povoados sertão afora. Por essa razão, é comum que nos locais onde a dança da Lezeira seja cultivada se pague também promessa ao santo festeiro. Mas não existe relação entre ambas as expressões. E onde tem Dança de São Gonçalo, Dona Iraci sempre esteve por o meio.
Dona Iraci, por toda a formação que sua família lhe deu, é também uma líder cultural do Tombador. Quando o Padre Francisco Feitosa desenvolveu estudo acadêmico sobre a Lezeira no ano de 2013, Dona Iraci foi quem reuniu outros participantes em frente a sua casa para demonstrar a dança ao então pároco da cidade.
Somaram-se a Dona Iraci o grande cantador Simpilício (Simplício Barbosa de Oliveira, 2/3/1942), Dona Mercê de Dula (Maria das Mercedes de Azevedo Souza, 24/9/1956), Dona Irene (Irene Pereira de Lima, 16/1/1952), Dona Expedita (Expedita Joana do Espírito Santo, 6/12/1943), entre outros praticantes da dança do lugar.
Impressionado, Feitosa contratou equipe de filmagem e fez tomadas da dança tipicamente piauiense, em material que infelizmente se perdeu com o tempo. Mas essa convivência ficou documentada no trabalho acadêmico para a UFPI de 2013 chamado “LESEIRA: dança popular da comunidade Tombador”.

A Lezeira durante boa parte do século XX ocupou lugar de destaque na vida social e recreativa do povo piauiense sertanista. Uma das razões que podem justificar esse fato é a simplicidade de seu rito. Isso porque, essa expressão não faz uso de instrumento e possui passos de dança que podem ser aprendidos com facilidade.
As únicas exigências, de fato, para que uma roda de Lezeira aconteça é a existência de ao menos um cantador, para puxar as cantigas intercaladas por quadras de versos e ao menos 12 pessoas (6 mulheres e 6 homens). Com essa simples fórmula, a diversão dos moradores do Tombador e de boa parte da região Centro-Sul estava garantida.
E era assim que os fundamentos e os valores simbólicos da Lezeira iam sendo transmitidos facilmente de geração para geração e desse mesmo modo que, do avô de Dona Iraci a hoje cantadeira veterana se tornou importante elo ancestral dessa dança.
O canto de Dona Iraci é seguro, compassado, quase como se estivesse explicando o que está entoando. Com domínio da toada, sua voz gravita enquanto canta. Escutá-la é um convite aos tempos de sua infância ou aos tempos de infância de seu avô. Grotões, chapadas, xique-xiques, palmas e mandacarus surgem de sua voz repleta.
Dona Iraci é nascida e criada no povoado do Tombador. O amor dos moradores do lugar foi expresso pelo poeta que não se preocupou em se identificar, mas fez questão de imortalizar onde morava, em uma das mais belas melodias de cantigas de Lezeira:
Ô, liro, ô, boi, (cantador)
Tombador! (côro)
Dá no liro e dá no boi, (cantador)
Tombador! (côro)
Por ser cantada em quadras, a maior parte delas em redondilha maior (7 sílabas), a Lezeira claramente recebe herança poética portuguesa. Pelo menos em sua estrutura, já que em muitos casos houve adaptação dos versos e, obviamente, criação de novas quadras, sem, porém, abandonar a forma poética cantada em quadra de versos que varia em torno de 7 sílabas. Isso permite encontrar quadras que foram documentadas há mais de 150 anos e que ainda hoje são cantadas na dança da Lezeira, o que certamente é um fato impressionante.
A comprovação da ancestralidade do canto de Dona Iraci se dá através das quadras que ela diz. Uma delas é adaptação de quadra que pode ser encontrada no livro “Romanceiro geral coligido da tradição”, publicado em 1867 pelo português Theophilo Braga. Eis a quadra portuguesa:
Se o padre santo soubesse
O gosto que o fado tem,
Viera de Roma aqui
Bater o fado também
Já a quadra abrasileirada possui estrutura idêntica, porém, com modificação das palavras e, consequentemente, do conteúdo, tornando-a muito mais poética. Vejam:
Se o liro branco subêsse
O valô que o roxo tem
Levava sol e sereno
Pá ficá roxo também
Não é fascinante? Percebam como a quadra se adaptou aqui no Brasil a nossa flora e ao nosso peculiar jeito de dizer algo sem precisar ser direto.
A história de Dona Iraci não é única e nem exclusiva. Ela é o retrato da dança da Lezeira, expressão cultural do sertão do Piauí cultivada quase sempre de forma familiar. Quantos não são os relatos entre os cantadores e dançadores sobre a influência de seus antepassados para que brincassem a Lezeira!
Inclusive, a cidade de Itainópolis, que até 1954 pertencia ao município de Picos (3º maior do Piauí) pode ser considerada o maior celeiro de cantadores de Lezeira do estado. Terra onde ainda hoje brilham as vozes de Dona Conceição (Maria da Conceição Neta, 13/7/1945), Dona Joanita (Joana Maria da Conceição, 12/1/1961) e Seu Zé Manél (José Manoel da Silva, 29/3/1952), todos do Assentamento Pinga, além de Seu Vicente de Cassiano (Vicente Moura de Oliveira, 30/10/1961), do povoado Campestre, fora todos os outros já citados. A dança da Lezeira cultivada em todo o município de Itainópolis é uma das expressões culturais mais autênticas do povo brasileiro.
Dona Iraci conta que tem sangue de índio e, para ela, a dança da Lezeira do Piauí se parece muito com as brincadeiras de “caboco bravo”, forma como os indígenas são chamados na região. Isso não é possível afirmar. Mas, de alguma forma, o poeta do povo consagrou o índio em uma das mais representativas cantigas de Lezeira, ensinada por Dona Iraci:
As caboca da Palmera
Todas têm seu maracá
Vadia, povo vadeia
Eu já gostei de vadiá
Porém, a característica mais marcante mesmo da Lezeira é a irreverência de suas quadras de versos, o que não é observado de forma tão generalizada em outros cantos. É Dona Iraci quem comprova mais uma vez o que digo, entoando quadras de versos para se rir:
Quem tomá o meu amô
Primita que viva bem
Tenha sussegu na vida
Como lançadêra tem
Namoro de muié casada
É um namoro rinitente
Parece uma cachorra doida
Quando qué mordê a gente
No tempo qu’eu te amava
Minha jumenta num comia
Namorava sexta e sabô
E o domingo até mei dia
E é com essa mesma alegria que Dona Iraci encara as adversidades da vida e ensina com graciosidade a doce arte de viver.
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