Por mais de seis décadas Sebastião Nunes escreveu como quem atravessa uma floresta com um facão na mão: abrindo caminho onde não havia trilha, recusando atalhos, zombando das cercas. Mineiro de Bocaiúva, nascido em 1938, ele construiu uma obra vasta, singular e indomável, feita à margem das editoras comerciais, das escolas literárias e, muitas vezes, até do conforto do leitor. Ainda assim, ou justamente por isso, tornou-se uma das vozes mais livres e politicamente inquietas da literatura brasileira contemporânea.
Autor de obras como Papéis Higiênicos, Somos Todos Assassinos, História do Brasil e Decálogo da Classe Média, Nunes atravessou poesia, prosa e crônica com humor corrosivo, ironia política e recusa permanente aos consensos culturais. Desde os anos 1960, seguiu um caminho próprio, distante tanto do concretismo quanto do lirismo engajado, criando o que chamou de “poesia intersemiótica”, em diálogo com artes visuais, colagem e linguagem gráfica.
“Houve certa época em que os escritores me jogavam para as artes plásticas, e vice-versa. Para mim essa questão não tem a menor importância”, afirmou em entrevista à Cult. A frase resume uma obra que nunca aceitou fronteiras fixas entre gêneros, formas ou linguagens.
Em 1980, fundou a Edições Dubolso, publicando não apenas seus próprios livros, mas também autores fora do circuito comercial. A editora tornou-se símbolo de uma atuação cultural independente e combativa. Nos anos seguintes, Nunes ampliou esse projeto com a Dubolsinho e a Aaatchim Editorial!, voltadas também à literatura infantojuvenil.
A crônica como trincheira
Entre 2001 e 2015, foi colunista do jornal O Tempo. De 2015 a 2022, escreveu semanalmente para o Jornal GGN, em crônicas que uniam sátira, experimentação formal e crítica política, reunidas em livros como Começa a envelhecer a mulher mais bela do mundo e Ou o Brasil acaba com Bolsonaro ou Bolsonaro acaba com o Brasil.
Durante o avanço da extrema direita no Brasil, Nunes chegou a se mudar para Portugal, sentindo-se, como escreveu, “impotente diante da catastrófica situação sócio-político-cultural do país”. Mas nem o exílio doméstico, nem a pandemia, nem o cansaço dos anos interromperam sua produção. De volta ao Brasil, em Glaura e depois em Belo Horizonte, continuou escrevendo para o GGN, cultivando uma horta e publicando livros artesanais para poucos leitores, como quem insiste, mesmo no fim do mundo, em plantar palavras.
Reconhecimento tardio e merecido
Em 2018, aos 80 anos, Sebastião Nunes recebeu o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura pelo conjunto da obra, além de homenagens institucionais, exposições e edições comemorativas. Em 2023, tomou posse na cadeira 32 da Academia de Letras do Vale do Jequitinhonha (ALVA), tendo como patrono o poeta Adão Ventura, outro mineiro da linguagem radical e da margem.
Mas talvez o reconhecimento mais fiel à sua trajetória não esteja nas medalhas nem nas academias, e sim na persistência de sua obra fora dos circuitos hegemônicos.
Gaspar Alencar
22 de janeiro de 2026 1:36 pmAna, obrigado por informar nomes e obras culturais que enriquecem os leitores. Grato GGN pela multipla função. Parabéns pela sacada!
P.S. Nassif, me autoriza a repostagem no meu blog guardiaodafloresta.wordpress.com