Nosso racismo é um crime perfeito

O antropólogo Kabengele Munanga fala sobre o mito da democracia racial brasileira, a polêmica com Demétrio Magnoli e o papel da mídia e da educação no combate ao preconceito no país

Por Camila Souza Ramos e Glauco Faria

Fórum – O senhor veio do antigo Zaire que, apesar de ter alguns pontos de contato com a cultura brasileira e a cultura do Congo, é um país bem diferente. O senhor sentiu, quando veio pra cá, a questão racial? Como foi essa mudança para o senhor?

Kabengele – Essas coisas não são tão abertas como a gente pensa. Cheguei aqui em 1975, diretamente para a USP, para fazer doutorado. Não se depara com o preconceito à primeira vista, logo que sai do aeroporto. Essas coisas vêm pouco a pouco, quando se começa a descobrir que você entra em alguns lugares e percebe que é único, que te olham e já sabem que não é daqui, que não é como “nossos negros”, é diferente. Poderia dizer que esse estranhamento é por ser estrangeiro, mas essa comparação na verdade é feita em relação aos negros da terra, que não entram em alguns lugares ou não entram de cabeça erguida.

Depois, com o tempo, na academia, fiz disciplinas em antropologia e alguns de meus professores eram especialistas na questão racial. Foi através da academia, da literatura, que comecei a descobrir que havia problemas no país. Uma das primeiras aulas que fiz foi em 1975, 1976, já era uma disciplina sobre a questão racial com meu orientador João Batista Borges Pereira. Depois, com o tempo, você vai entrar em algum lugar em que está sozinho e se pergunta: onde estão os outros? As pessoas olhavam mesmo, inclusive olhavam mais quando eu entrava com minha mulher e meus filhos. Porque é uma família inter-racial: a mulher branca, o homem negro, um filho negro e um filho mestiço. Em todos os lugares em que a gente entrava, era motivo de curiosidade. O pessoal tentava ser discreto, mas nem sempre escondia. Entrávamos em lugares onde geralmente os negros não entram.

A partir daí você começa a buscar uma explicação para saber o porquê e se aproxima da literatura e das aulas da universidade que falam da discriminação racial no Brasil, os trabalhos de Florestan Fernandes, do Otavio Ianni, do meu próprio orientador e de tantos outros que trabalharam com a questão. Mas o problema é que quando a pessoa é adulta sabe se defender, mas as crianças não. Tenho dois filhos que nasceram na Bélgica, dois no Congo e meu caçula é brasileiro. Quantas vezes, quando estavam sozinhos na rua, sem defesa, se depararam com a polícia?

Meus filhos estudaram em escola particular, Colégio Equipe, onde estudavam filhos de alguns colegas professores. Eu não ia buscá-los na escola, e quando saíam para tomar ônibus e voltar para casa com alguns colegas que eram brancos, eles eram os únicos a ser revistados. No entanto, a condição social era a mesma e estudavam no mesmo colégio. Por que só eles podiam ser suspeitos e revistados pela polícia? Essa situação eu não posso contar quantas vezes vi acontecer. Lembro que meu filho mais velho, que hoje é ator, quando comprou o primeiro carro dele, não sei quantas vezes ele foi parado pela polícia. Sempre apontando a arma para ele para mostrar o documento. Ele foi instruído para não discutir e dizer que os documentos estão no porta-luvas, senão podem pensar que ele vai sacar uma arma. Na realidade, era suspeito de ser ladrão do próprio carro que ele comprou com o trabalho dele. Meus filhos até hoje não saem de casa para atravessar a rua sem documento. São adultos e criaram esse hábito, porque até você provar que não é ladrão… A geografia do seu corpo não indica isso.

Então, essa coisa de pensar que a diferença é simplesmente social, é claro que o social acompanha, mas e a geografia do corpo? Isso aqui também vai junto com o social, não tem como separar as duas coisas. Fui com o tempo respondendo à questão, por meio da vivência, com o cotidiano e as coisas que aprendi na universidade, depoimentos de pessoas da população negra, e entendi que a democracia racial é um mito. Existe realmente um racismo no Brasil, diferenciado daquele praticado na África do Sul durante o regime do apartheid, diferente também do racismo praticado nos EUA, principalmente no Sul. Porque nosso racismo é, utilizando uma palavra bem conhecida, sutil. Ele é velado. Pelo fato de ser sutil e velado isso não quer dizer que faça menos vítimas do que aquele que é aberto. Faz vítimas de qualquer maneira.

Revista Fórum – Quando você tem um sistema como o sul-africano ou um sistema de restrição de direitos como houve nos EUA, o inimigo está claro. No caso brasileiro é mais difícil combatê-lo…

Kabengele – Claro, é mais difícil. Porque você não identifica seu opressor. Nos EUA era mais fácil porque começava pelas leis. A primeira reivindicação: o fim das leis racistas. Depois, se luta para implementar políticas públicas que busquem a promoção da igualdade racial. Aqui é mais difícil, porque não tinha lei nem pra discriminar, nem pra proteger. As leis pra proteger estão na nova Constituição que diz que o racismo é um crime inafiançável. Antes disso tinha a lei Afonso Arinos, de 1951. De acordo com essa lei, a prática do racismo não era um crime, era uma contravenção. A população negra e indígena viveu muito tempo sem leis nem para discriminar nem para proteger.

Revista Fórum – Aqui no Brasil há mais dificuldade com relação ao sistema de cotas justamente por conta do mito da democracia racial?

Kabengele – Tem segmentos da população a favor e contra. Começaria pelos que estão contra as cotas, que apelam para a própria Constituição, afirmando que perante a lei somos todos iguais. Então não devemos tratar os cidadãos brasileiros diferentemente, as cotas seriam uma inconstitucionalidade. Outro argumento contrário, que já foi demolido, é a ideia de que seria difícil distinguir os negros no Brasil para se beneficiar pelas cotas por causa da mestiçagem. O Brasil é um país de mestiçagem, muitos brasileiros têm sangue europeu, além de sangue indígena e africano, então seria difícil saber quem é afro-descendente que poderia ser beneficiado pela cota. Esse argumento não resistiu. Por quê? Num país onde existe discriminação antinegro, a própria discriminação é a prova de que é possível identificar os negros. Senão não teria discriminação.

Em comparação com outros países do mundo, o Brasil é um país que tem um índice de mestiçamento muito mais alto. Mas isso não pode impedir uma política, porque basta a autodeclaração. Basta um candidato declarar sua afro-descendência. Se tiver alguma dúvida, tem que averiguar. Nos casos-limite, o indivíduo se autodeclara afrodescendente. Às vezes, tem erros humanos, como o que aconteceu na UnB, de dois jovens mestiços, de mesmos pais, um entrou pelas cotas porque acharam que era mestiço, e o outro foi barrado porque acharam que era branco. Isso são erros humanos. Se tivessem certeza absoluta que era afro-descendente, não seria assim. Mas houve um recurso e ele entrou. Esses casos-limite existem, mas não é isso que vai impedir uma política pública que possa beneficiar uma grande parte da população brasileira.

Além do mais, o critério de cota no Brasil é diferente dos EUA. Nos EUA, começaram com um critério fixo e nato. Basta você nascer negro. No Brasil não. Se a gente analisar a história, com exceção da UnB, que tem suas razões, em todas as universidades brasileiras que entraram pelo critério das cotas, usaram o critério étnico-racial combinado com o critério econômico. O ponto de partida é a escola pública. Nos EUA não foi isso. Só que a imprensa não quer enxergar, todo mundo quer dizer que cota é simplesmente racial. Não é. Isso é mentira, tem que ver como funciona em todas as universidades. É necessário fazer um certo controle, senão não adianta aplicar as cotas. No entanto, se mantém a ideia de que, pelas pesquisas quantitativas, do IBGE, do Ipea, dos índices do Pnud, mostram que o abismo em matéria de educação entre negros e brancos é muito grande. Se a gente considerar isso então tem que ter uma política de mudança. É nesse sentido que se defende uma política de cotas.

Leia também:  Negros e pobres são os mais afetados pelo Covid-19, mostra Kotscho

O racismo é cotidiano na sociedade brasileira. As pessoas que estão contra cotas pensam como se o racismo não tivesse existido na sociedade, não estivesse criando vítimas. Se alguém comprovar que não tem mais racismo no Brasil, não devemos mais falar em cotas para negros. Deveríamos falar só de classes sociais. Mas como o racismo ainda existe, então não há como você tratar igualmente as pessoas que são vítimas de racismo e da questão econômica em relação àquelas que não sofrem esse tipo de preconceito. A própria pesquisa do IPEA mostra que se não mudar esse quadro, os negros vão levar muitos e muitos anos para chegar aonde estão os brancos em matéria de educação. Os que são contra cotas ainda dão o argumento de que qualquer política de diferença por parte do governo no Brasil seria uma política de reconhecimento das raças e isso seria um retrocesso, que teríamos conflitos, como os que aconteciam nos EUA.

Fórum – Que é o argumento do Demétrio Magnoli.

Kabengele – Isso é muito falso, porque já temos a experiência, alguns falam de mais de 70 universidades públicas, outros falam em 80. Já ouviu falar de conflitos raciais em algum lugar, linchamentos raciais? Não existe. É claro que houve manifestações numa universidade ou outra, umas pichações, “negro, volta pra senzala”. Mas isso não se caracteriza como conflito racial. Isso é uma maneira de horrorizar a população, projetar conflitos que na realidade não vão existir.

Fórum – Agora o DEM entrou com uma ação no STF pedindo anulação das cotas. O que motiva um partido como o DEM, qual a conexão entre a ideologia de um partido ou um intelectual como o Magnoli e essa oposição ao sistema de cotas? Qual é a raiz dessa resistência?

Kabengele – Tenho a impressão que as posições ideológicas não são explícitas, são implícitas. A questão das cotas é uma questão política. Tem pessoas no Brasil que ainda acreditam que não há racismo no país. E o argumento desse deputado do DEM é esse, de que não há racismo no Brasil, que a questão é simplesmente socioeconômica. É um ponto de vista refutável, porque nós temos provas de que há racismo no Brasil no cotidiano. O que essas pessoas querem? Status quo. A ideia de que o Brasil vive muito bem, não há problema com ele, que o problema é só com os pobres, que não podemos introduzir as cotas porque seria introduzir uma discriminação contra os brancos e pobres. Mas eles ignoram que os brancos e pobres também são beneficiados pelas cotas, e eles negam esse argumento automaticamente, deixam isso de lado.

Fórum – Mas isso não é um cinismo de parte desses atores políticos, já que eles são contra o sistema de cotas, mas também são contra o Bolsa-Família ou qualquer tipo de política compensatória no campo socioeconômico?

Kabengele – É interessante, porque um país que tem problemas sociais do tamanho do Brasil deveria buscar caminhos de mudança, de transformação da sociedade. Cada vez que se toca nas políticas concretas de mudança, vem um discurso. Mas você não resolve os problemas sociais somente com a retórica. Quanto tempo se fala da qualidade da escola pública? Estou aqui no Brasil há 34 anos. Desde que cheguei aqui, a escola pública mudou em algum lugar? Não, mas o discurso continua. “Ah, é só mudar a escola pública.” Os mesmos que dizem isso colocam os seus filhos na escola particular e sabem que a escola pública é ruim. Poderiam eles, como autoridades, dar melhor exemplo e colocar os filhos deles em escola pública e lutar pelas leis, bom salário para os educadores, laboratórios, segurança. Mas a coisa só fica no nível da retórica.

E tem esse argumento legalista, “porque a cota é uma inconstitucionalidade, porque não há racismo no Brasil”. Há juristas que dizem que a igualdade da qual fala a Constituição é uma igualdade formal, mas tem a igualdade material. É essa igualdade material que é visada pelas políticas de ação afirmativa. Não basta dizer que somos todos iguais. Isso é importante, mas você tem que dar os meios e isso se faz com as políticas públicas. Muitos disseram que as cotas nas universidades iriam atingir a excelência universitária. Está comprovado que os alunos cotistas tiveram um rendimento igual ou superior aos outros. Então a excelência não foi prejudicada. Aliás, é curioso falar de mérito como se nosso vestibular fosse exemplo de democracia e de mérito. Mérito significa simplesmente que você coloca como ponto de partida as pessoas no mesmo nível.

Quando as pessoas não são iguais, não se pode colocar no ponto de partida para concorrer igualmente. É como você pegar uma pessoa com um fusquinha e outro com um Mercedes, colocar na mesma linha de partida e ver qual o carro mais veloz. O aluno que vem da escola pública, da periferia, de péssima qualidade, e o aluno que vem de escola particular de boa qualidade, partindo do mesmo ponto, é claro que os que vêm de uma boa escola vão ter uma nota superior. Se um aluno que vem de um Pueri Domus, Liceu Pasteur, tira nota 8, esse que vem da periferia e tirou nota 5 teve uma caminhada muito longa. Essa nota 5 pode ser mais significativa do que a nota 7 ou 8. Dando oportunidade ao aluno, ele não vai decepcionar.

Foi isso que aconteceu, deram oportunidade. As cotas são aplicadas desde 2003. Nestes sete anos, quantos jovens beneficiados pelas cotas terminaram o curso universitário e quantos anos o Brasil levaria para formar o tanto de negros sem cotas? Talvez 20 ou mais. Isso são coisas concretas para as quais as pessoas fecham os olhos. No artigo do professor Demétrio Magnoli, ele me critica, mas não leu nada. Nem uma linha de meus livros. Simplesmente pegou o livro da Eneida de Almeida dos Santos, Mulato, negro não-negro e branco não-branco que pediu para eu fazer uma introdução, e desta introdução de três páginas ele tirou algumas frases e, a partir dessas frases, me acusa de ser um charlatão acadêmico, de professar o racismo científico abandonado há mais de um século e fazer parte de um projeto de racialização oficial do Brasil. Nunca leu nada do que eu escrevi.

A autora do livro é mestiça, psiquiatra e estuda a dificuldade que os mestiços entre branco e negro têm pra construir a sua identidade. Fiz a introdução mostrando que eles têm essa dificuldade justamente por causa de serem negros não-negros e brancos não-brancos. Isso prejudica o processo, mas no plano político, jurídico, eles não podem ficar ambivalentes. Eles têm que optar por uma identidade, têm que aceitar sua negritude, e não rejeitá-la. Com isso ele acha que eu estou professando a supressão dos mestiços no Brasil e que isso faz parte do projeto de racialização do brasileiro. Não tinha nada para me acusar, soube que estou defendendo as cotas, tirou três frases e fez a acusação dele no jornal.

Fórum – O senhor toca na questão do imaginário da democracia racial, mas as pessoas são formadas para aceitarem esse mito…

Kabengele – O racismo é uma ideologia. A ideologia só pode ser reproduzida se as próprias vítimas aceitam, a introjetam, naturalizam essa ideologia. Além das próprias vítimas, outros cidadãos também, que discriminam e acham que são superiores aos outros, que têm direito de ocupar os melhores lugares na sociedade. Se não reunir essas duas condições, o racismo não pode ser reproduzido como ideologia, mas toda educação que nós recebemos é para poder reproduzi-la.

Há negros que introduziram isso, que alienaram sua humanidade, que acham que são mesmo inferiores e o branco tem todo o direito de ocupar os postos de comando. Como também tem os brancos que introjetaram isso e acham mesmo que são superiores por natureza. Mas para você lutar contra essa ideia não bastam as leis, que são repressivas, só vão punir. Tem que educar também. A educação é um instrumento muito importante de mudança de mentalidade e o brasileiro foi educado para não assumir seus preconceitos. O Florestan Fernandes dizia que um dos problemas dos brasileiros é o “preconceito de ter preconceito de ter preconceito”. O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda.

Leia também:  Quando um não gesto diz mais que o gesto!, por Rômulo Moreira

Quando você está diante do negro, dizem que tem que dizer que é moreno, porque se disser que é negro, ele vai se sentir ofendido. O que não quer dizer que ele não deve ser chamado de negro. Ele tem nome, tem identidade, mas quando se fala dele, pode dizer que é negro, não precisa branqueá-lo, torná-lo moreno. O brasileiro foi educado para se comportar assim, para não falar de corda na casa de enforcado. Quando você pega um brasileiro em flagrante de prática racista, ele não aceita, porque não foi educado para isso. Se fosse um americano, ele vai dizer: “Não vou alugar minha casa para um negro”. No Brasil, vai dizer: “Olha, amigo, você chegou tarde, acabei de alugar”. Porque a educação que o americano recebeu é pra assumir suas práticas racistas, pra ser uma coisa explícita.

Quando a Folha de S. Paulo fez aquela pesquisa de opinião em 1995, perguntaram para muitos brasileiros se existe racismo no Brasil. Mais de 80% disseram que sim. Perguntaram para as mesmas pessoas: “você já discriminou alguém?”. A maioria disse que não. Significa que há racismo, mas sem racistas. Ele está no ar… Como você vai combater isso? Muitas vezes o brasileiro chega a dizer ao negro que reage: “você que é complexado, o problema está na sua cabeça”. Ele rejeita a culpa e coloca na própria vítima. Já ouviu falar de crime perfeito? Nosso racismo é um crime perfeito, porque a própria vítima é que é responsável pelo seu racismo, quem comentou não tem nenhum problema.

Revista Fórum – O humorista Danilo Gentilli escreveu no Twitter uma piada a respeito do King Kong, comparando com um jogador de futebol que saía com loiras. Houve uma reação grande e a continuação dos argumentos dele para se justificar vai ao encontro disso que o senhor está falando. Ele dizia que racista era quem acusava ele, e citava a questão do orgulho negro como algo de quem é racista.

Kabengele – Faz parte desse imaginário. O que está por trás dessa ilustração de King Kong, que ele compara a um jogador de futebol que vai casar com uma loira, é a ideia de alguém que ascende na vida e vai procurar sua loira. Mas qual é o problema desse jogador de futebol? São pessoas vítimas do racismo que acham que agora ascenderam na vida e, para mostrar isso, têm que ter uma loira que era proibida quando eram pobres? Pode até ser uma explicação. Mas essa loira não é uma pessoa humana que pode dizer não ou sim e foi obrigada a ir com o King Kong por causa de dinheiro? Pode ser, quantos casamentos não são por dinheiro na nossa sociedade? A velha burguesia só se casa dentro da velha burguesia. Mas sempre tem pessoas que desobedecem as normas da sociedade.

Essas jovens brancas, loiras, também pulam a cerca de suas identidades pra casar com um negro jogador. Por que a corda só arrebenta do lado do jogador de futebol? No fundo, essas pessoas não querem que os negros casem com suas filhas. É uma forma de racismo. Estão praticando um preconceito que não respeita a vontade dessas mulheres nem essas pessoas que ascenderam na vida, numa sociedade onde o amor é algo sem fronteiras, e não teria tantos mestiços nessa sociedade. Com tudo o que aconteceu no campo de futebol com aquele jogador da Argentina que chamou o Grafite de macaco, com tudo o que acontece na Europa, esse humorista faz uma ilustração disso, ou é uma provocação ou quer reafirmar os preconceitos na nossa sociedade.

Fórum – É que no caso, o Danilo Gentili ainda justificou sua piada com um argumento muito simplório: “por que eu posso chamar um gordo de baleia e um negro de macaco”, como se fosse a mesma coisa.

Kabengele – É interessante isso, porque tenho a impressão de que é um cara que não conhece a história e o orgulho negro tem uma história. São seres humanos que, pelo próprio processo de colonização, de escravidão, a essas pessoas foi negada sua humanidade. Para poder se recuperar, ele tem que assumir seu corpo como negro. Se olhar no espelho e se achar bonito ou se achar feio. É isso o orgulho negro. E faz parte do processo de se assumir como negro, assumir seu corpo que foi recusado. Se o humorista conhecesse isso, entenderia a história do orgulho negro. O branco não tem motivo para ter orgulho branco porque ele é vitorioso, está lá em cima. O outro que está lá em baixo que deve ter orgulho, que deve construir esse orgulho para poder se reerguer.

Fórum – O senhor tocou no caso do Grafite com o Desábato, e recentemente tivemos, no jogo da Libertadores entre Cruzeiro e Grêmio, o caso de um jogador que teria sido chamado de macaco por outro atleta. Em geral, as pessoas – jornalistas que comentaram, a diretoria gremista – argumentavam que no campo de futebol você pode falar qualquer coisa, e que se as pessoas fossem se importar com isso, não teria como ter jogo de futebol. Como você vê esse tipo de situação?

Kabengele – Isso é uma prova daquilo que falei, os brasileiros são educados para não assumir seus hábitos, seu racismo. Em outros países, não teria essa conversa de que no campo de futebol vale. O pessoal pune mesmo. Mas aqui, quando se trata do negro… Já ouviu caso contrário, de negro que chama branco de macaco? Quando aquele delegado prendeu o jogador argentino no caso do Grafite, todo mundo caiu em cima. Os técnicos, jornalistas, esportistas, todo mundo dizendo que é assim no futebol. Então a gente não pode educar o jogador de futebol, tudo é permitido? Quando há violência física, eles são punidos, mas isso aqui é uma violência também, uma violência simbólica. Por que a violência simbólica é aceita a violência física é punida?

Fórum – Como o senhor vê hoje a aplicação da lei que determina a obrigatoriedade do ensino de cultura africana nas escolas? Os professores, de um modo geral, estão preparados para lidar com a questão racial?

Kabengele – Essa lei já foi objeto de crítica das pessoas que acham que isso também seria uma racialização do Brasil. Pessoas que acham que, sendo a população brasileira uma população mestiça, não é preciso ensinar a cultura do negro, ensinar a história do negro ou da África. Temos uma única história, uma única cultura, que é uma cultura mestiça. Tem pessoas que vão nessa direção, pensam que isso é uma racialização da educação no Brasil.

Mas essa questão do ensino da diversidade na escola não é propriedade do Brasil. Todos os países do mundo lidam com a questão da diversidade, do ensino da diversidade na escola, até os que não foram colonizadores, os nórdicos, com a vinda dos imigrantes, estão tratando da questão da diversidade na escola.

Leia também:  Violência contra mulher cresce 35,9% com a quarentena do coronavírus

O Brasil deveria tratar dessa questão com mais força, porque é um país que nasceu do encontro das culturas, das civilizações. Os europeus chegaram, a população indígena – dona da terra – os africanos, depois a última onda imigratória é dos asiáticos. Então tudo isso faz parte das raízes formadoras do Brasil que devem fazer parte da formação do cidadão. Ora, se a gente olhar nosso sistema educativo, percebemos que a história do negro, da África, das populações indígenas não fazia parte da educação do brasileiro.

Nosso modelo de educação é eurocêntrico. Do ponto de vista da historiografia oficial, os portugueses chegaram na África, encontraram os africanos vendendo seus filhos, compraram e levaram para o Brasil. Não foi isso que aconteceu. A história da escravidão é uma história da violência. Quando se fala de contribuições, nunca se fala da África. Se se introduzir a história do outro de uma maneira positiva, isso ajuda.

É por isso que a educação, a introdução da história dele no Brasil, faz parte desse processo de construção do orgulho negro. Ele tem que saber que foi trazido e aqui contribuiu com o seu trabalho, trabalho escravizado, para construir as bases da economia colonial brasileira. Além do mais, houve a resistência, o negro não era um João-Bobo que simplesmente aceitou, senão a gente não teria rebeliões das senzalas, o Quilombo dos Palmares, que durou quase um século. São provas de resistência e de defesa da dignidade humana. São essas coisas que devem ser ensinadas. Isso faz parte do patrimônio histórico de todos os brasileiros. O branco e o negro têm que conhecer essa história porque é aí que vão poder respeitar os outros.

Voltando a sua pergunta, as dificuldades são de duas ordens. Em primeiro lugar, os educadores não têm formação para ensinar a diversidade. Estudaram em escolas de educação eurocêntrica, onde não se ensinava a história do negro, não estudaram história da África, como vão passar isso aos alunos? Além do mais, a África é um continente, com centenas de culturas e civilizações. São 54 países oficialmente. A primeira coisa é formar os educadores, orientar por onde começou a cultura negra no Brasil, por onde começa essa história. Depois dessa formação, com certo conteúdo, material didático de boa qualidade, que nada tem a ver com a historiografia oficial, o processo pode funcionar.

Fórum – Outra questão que se discute é sobre o negro nos espaços de poder. Não se veem negros como prefeitos, governadores. Como trabalhar contra isso?

Kabengele – O que é um país democrático? Um país democrático, no meu ponto de vista, é um país que reflete a sua diversidade na estrutura de poder. Nela, você vê mulheres ocupando cargos de responsabilidade, no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, assim como no setor privado. E ainda os índios, que são os grandes discriminados pela sociedade. Isso seria um país democrático. O fato de você olhar a estrutura de poder e ver poucos negros ou quase não ver negros, não ver mulheres, não ver índios, isso significa que há alguma coisa que não foi feita nesse país. Como construção da democracia, a representatividade da diversidade não existe na estrutura de poder. Por quê?

Se você fizer um levantamento no campo jurídico, quantos desembargadores e juízes negros têm na sociedade brasileira? Se você for pras universidades públicas, quantos professores negros tem, começando por minha própria universidade? Esta universidade tem cerca de 5 mil professores. Quantos professores negros tem na USP? Nessa grande faculdade, que é a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), uma das maiores da USP junto com a Politécnica, tenho certeza de que na minha faculdade fui o primeiro negro a entrar como professor. Desde que entrei no Departamento de Antropologia, não entrou outro. Daqui três anos vou me aposentar. O professor Milton Santos, que era um grande professor, quase Nobel da Geografia, entrou no departamento, veio do exterior e eu já estava aqui. Em toda a USP, não sou capaz de passar de dez pessoas conhecidas. Pode ter mais, mas não chega a 50, exagerando. Se você for para as grandes universidades americanas, Harvard, Princeton, Standford, você vai encontrar mais negros professores do que no Brasil. Lá eles são mais racistas, ou eram mais racistas, mas como explicar tudo isso?

120 anos de abolição. Por que não houve uma certa mobilidade social para os negros chegarem lá? Há duas explicações: ou você diz que ele é geneticamente menos inteligente, o que seria uma explicação racista, ou encontra explicação na sociedade. Quer dizer que se bloqueou a sua mobilidade. E isso passa por questão de preconceito, de discriminação racial. Não há como explicar isso. Se você entender que os imigrantes japoneses chegaram, nós comemoramos 100 anos recentemente da sua vinda, eles tiveram uma certa mobilidade. Os coreanos também ocupam um lugar na sociedade. Mas os negros já estão a 120 anos da abolição. Então tem uma explicação. Daí a necessidade de se mudar o quadro. Ou nós mantemos o quadro, porque se não mudamos estamos racializando o Brasil, ou a gente mantém a situação para mostrar que não somos racistas. Porque a explicação é essa, se mexer, somos racistas e estamos racializando. Então vamos deixar as coisas do jeito que estão. Esse é o dilema da sociedade.

Revista Fórum – como o senhor vê o tratamento dado pela mídia à questão racial?

Kabengele – A imprensa faz parte da sociedade. Acho que esse discurso do mito da democracia racial é um discurso também que é absorvido por alguns membros da imprensa. Acho que há uma certa tendência na imprensa pelo fato de ser contra as políticas de ação afirmativa, sendo que também não são muito favoráveis a essa questão da obrigatoriedade do ensino da história do negro na escola.

Houve, no mês passado, a II Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Silêncio completo da imprensa brasileira. Não houve matérias sobre isso. Os grandes jornais da imprensa escrita não pautaram isso. O silêncio faz parte do dispositivo do racismo brasileiro. Como disse Elie Wiesel, o carrasco mata sempre duas vezes. A segunda mata pelo silêncio. O silêncio é uma maneira de você matar a consciência de um povo. Porque se falar sobre isso abertamente, as pessoas vão buscar saber, se conscientizar, mas se ficar no silêncio a coisa morre por aí. Então acho que o silêncio da imprensa, no meu ponto de vista, passa por essa estratégia, é o não-dito.

Acabei de passar por uma experiência interessante. Saí da Conferência Nacional e fui para Barcelona, convidado por um grupo de brasileiros que pratica capoeira. Claro, receberam recursos do Ministério das Relações Exteriores, que pagou minha passagem e a estadia. Era uma reunião pequena de capoeiristas e fiz uma conferência sobre a cultura negra no Brasil. Saiu no El Pais, que é o jornal mais importante da Espanha, noticiou isso, uma coisa pequena. Uma conferência nacional deste tamanho aqui não se fala. É um contrassenso. O silêncio da imprensa não é um silêncio neutro, é um silêncio que indica uma certa orientação da questão racial. Tem que não dizer muita coisa e ficar calado. Amanhã não se fala mais, acabou.

Essa matéria é parte integrante da edição impressa da Fórum de agosto.

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

23 comentários

  1. Nosso racismo é um crime perfeito

    O antropólogo Kabengele Munanga fala sobre o mito da democracia racial brasileira. A entrevista e as opiniões do antropólogo Kabenguele são de excepcional clareza e inteligência. É realmente frustrante que tão poucas pessoas tenham acessado e lido esta discussão. Não é mais possível aceitar e ignorar os fatos cruéis relatados pelo professor e antropólogo exemplificados pelas experiências vividas por ele e seus filhos. O atual governo tem feito muitos avanços para a superação dos débitos sociais e econômicos com os afro decendentes. Mas o mais difícil trabalho está por ser atacado mais eficientemente: persuadir as pessoas a mudar suas condutas e concepções acerca do sentido da verdadeira democracia racial. 

  2. Estrangeiro Kabengele, vc diz

    Estrangeiro Kabengele, vc diz “eles tem que optar por uma identidade, tem que aceitar a sua negritude e não rejeita-la”, quando vc diz isso vc diz negue sua miscigenação. Estrangeiro, existe racismo sim no Brasil e os racistas brasileiros não são piores do que vc que acredita em raças humanas.

    Estrangeiro, o filho de índio com branco é um caboclo de cor morena e cabelo liso que pela classificação do IBGE instituida nos anos noventa é classificado na categoria da raça negra. Isso é falso pois que não descende de africanos.

    Estrangeiro, somos uma etnia única no mundo de miscigenados. Não somos africanos de sua raça negra ou europeus de raça branca.

    Espero que desapareça do BRASIL todos os pretos, brancos e índios e que sejam a etnia dos miscigenados.

    Vá vc com seus conceitos de raça negra pra África e os brancos que aqui forem racistas pra Europa.

    Viva o BRASIL miscigenado.

    Viva a humanidade que não acredita em raças humanas.

    Estrangeiro, sua alma negra é capaz de gritar SIEGE HEIL.

     

     

    • A vezes eu me pergunto se

      A vezes eu me pergunto se realmente quem critica, lê o mesmo texto, ou mais se lê só pequenos trechos. Sei que é difícil se livrar deste racismo que tenta apagar, esconder  e amenizar a NOSSA história. A sanguinária história eurocêntrica, também faz parte de min, pensando em min como sociedade miscigenada, por que a história negra não pode também e melhor, por que não posso ter muito mais orgulho dela ?
      Quando Kabengele cita Florestan, é muito a nossa realidade. “O brasileiro nunca vai aceitar que é preconceituoso. Foi educado para não aceitar isso. Como se diz, na casa de enforcado não se fala de corda.” Eu não vejo o respeito pelo orgulho negro, e você aqui veio me mostrar na prática. Nunca me senti feliz com a minha aparência, mergulhado em uma atmosfera que não me pertênce, essa sua sociedade miscigenada ainda não cabe a nós. ” E faz parte do processo de se assumir como negro, assumir seu corpo que foi recusado.”
       

    • Acho que você não entendeu 1%

      Acho que você não entendeu 1% do artigo! Ele não está dizendo que: não existem miscigenados, como você afirma. Está afirmando que existe preconceito contra os negros, e isso é fato! Pelo jeito você nunca passou por uma situação de preconceito contrangedora, por isso não diga o que não sabe!

  3. O doutor KABENGUELE a serviço da FORD FOUNDACION

                            Em primeiro é preciso destacar que essa entrevista fora publicada na revista FÓRUM no início de 2012, http://revistaforum.com.br/blog/2012/02/nosso-racismo-e-um-crime-perfeito/ – portanto, sua réplica neste final de 2013, no exato momento em que o PT e a Presidenta Dilma abraçam os ideais da segregação de direitos raciais – cotas raciais – certamente se destina a fortalecer os discursos raciais dos defensores das perversas ´cotas raciais´ com o engodo de que a segregação de direitos raciais seja equivalente a Ações Afirmativas.

              Ações afirmativas é outra coisa: uma doutrina destinada a equalizar as oportunidades, visando neutralizar as discriminações quer seja racista, sexista, machista, homofóbica etc. e tem sido utilizada em diversos países, visando, primordialmente, promover a diversidade humana. Jamais a diversidade ´racial´.  Já a segregação de direitos raciais – cotas raciais – impostas de forma compulsória pelo estado, tem por finalidade criar direitos em bases raciais e com isso incentivar pertencimentos raciais. Conforme a história, não há nenhum exemplo exitoso de estados com políticas em bases raciais. Nos EUA, na Alemanha, na África do Sul ou em Ruanda, onde o estado adotou políticas de segregação de direitos raciais o que resultou foram tragédias, ódios raciais e genocídios.

              Desde que o ilustre professor KABENGUELE aceitou prestar serviços, digamos ´raciais´ e bem remunerados para a Ford Foundacion, essa entrevista precisa ser vista com a merecida reserva: ela se destina a justificar a doutrinação com milhões de dólares da Ford Foundacion destinados a cumprir o seu papel: afirmar as diferenças raciais. E, manter os sentimentos racistas à flor da pele em todas as sociedades em que atua. 

           O patrocínio de direitos raciais patrocinados pela Ford Foundacion, empregadora  do prof. Kabenguele, produziu a tragédia do niilismo social que afeta os afro-americanos desde os anos 1990. Em 2013, com OBAMA em seu segundo governo, cerca de 6% dos afro-americanos, nada menos que 2,4 milhões, estão sob custódia da justiça. Em 1960, apenas 0,1% dos afro-americanos cumpriam penas. Em 2013, nada menos que 70% das crianças são filhas de mães-solteiras e jamais conhecerão a figura paterna. Em 1960, eram apenas 13%. Ela mereceu de OBAMA uma sentença que o desafia: “O niilismo que flagela a comunidade afro-americana é a maior tragédia social da história dos Estados Unidos da América”.

                No Brasil, do racismo perfeito, conforme o antropólogo da USP estima-se que 500.000 afro-brasileiros estejam cumprindo penas. Ou seja, 0,5%.

              Afinal, conforme se vê na leitura da longa entrevista ela não tem nada de anti-racista. É apenas uma seqüência de afirmações racialistas – e racistas – apropriadas aos militantes que desejam a serem vistos como ´líderes raciais´ e não condizentes com a robusta e esperada figura de um pensador acadêmico da USP.

                Em toda sua exposição usa e abusa da designação racial ´negro´ que foi utilizada sem qualquer aspas. O ilustre professor acredita no pertencimento racial que os pretos e pardos brasileiros repudiam. ´Negro´ é uma designação racial para definir aquela ´raça´ que o racismo disse ser a ´raça inferior´. Não é sinônimo da cor preta. A cor da pele de humanos que tanto pode ser branca, amarela, vermelha, parda ou preta, conforme a presença da melanina na proteção da pele.

             “Negro”, e população ´negra´, não são definições retiradas do seio da cultura do povo. É uma palavra de uso do sistema escravocrata e destinada a classificar pessoas que se destinavam à escravidão. Tanto era empregada para os africanos quanto para os nativos da terra.

             ´Negro´é  uma designação que se tornou racial com o surgimento do racismo no século 18. No Brasil foi instituida pelo Marquêz de Pombal, em 1755, com a edição do ´Directório do Índio´, em que expressamente em seu artigo 10, visando proteger os nativos, ficava proibido designa-los por ´negros´, uma designação degradante, aviltante e humilhante, reservada então aos ´pretos´ oriundos da Costa D´África. Portanto, designar os afro-brasileiros como sendo a população ´negra´, é uma manipulação antropologica indigna: é a academia alterando a voz do objeto de estudos. Fazer isso, é aliar-se aos ideais do racismo expresso pela lei pombalina e seu artigo 10: http://www.nacaomestica.org/diretorio_dos_indios.htm

            Talvez por ser africano o professor Kabengle desconheça: durante mais de trezentos os escravos resistiram ao nefasto sistema, se organizaram em milhares de associações, cemitérios, igrejas e irmandades de HOMENS PRETOS, de HOMENS PARDOS, e de PRETOS NOVOS. A reverência respeitosa à MÃE PRETA, e a deferência da resistência cultural e religiosa sempre foi ao PRETO VELHO. As milhares de ocupações de terras, pelos quilombolas ficaram perpetuadas em todo o Brasil: são sempre conhecidas como as ´Terras de PRETO´. Não há registros históricos da resistência sob a denominação de ´negros´ ou da ´raça negra´.

            A comparação de nossa cultura racista sutil com as ostensivas da África do Sul e dos EUA, que flagelam milhões de afro-americanos e africanos, parece uma sandice, não fosse o contexto profissional a serviço da Fundação do Sr. HENRI FORD – aquele que foi ídolo inspirador de Adolf Hitler – e que instituiu a Foundacion – é o mesmo benemérito e maior financiador da KuklusKan no século 20. Tal comparação contrasta, por exemplo, com visão de quem jamais aceitou o papel de representante ´racial´, o saudoso professor MILTON SANTOS. http://www.youtube.com/watch?v=xp9_fPuYHXc

             Para o nosso maior intelectual afro-brasileiro de todos os tempos, a nossa relativa tolerância e a ausência de ódios raciais, bem como a ausência de profundo sentimento de pertencimentos raciais era uma vantagem competitiva que não podia ser abandonada. “Era um ponto de partida”  com uma vantagem competitiva na destruição do racismo, costumava nos dizer o querido prof. MILTON SANTOS.

            O que dizia o intelectual-mor é exatamente contrário ou oposto ao que afirma o funcionário da Ford Foundacion, no cumprimento de seus deveres de ofício: oferecer bolsas de estudos visando a formação de uma elite intelectual disposta a defender o racialismo pregado pelo FF é fazer campanha pelo desenvolvimento separado. Na exclusividade.

            Os objetivos das Foudacion´s norte-americanas são bem conhecidas. Já em 1954, uma comissão de investigações do Congresso americano já havia revelado que fundações como Rockefeller, Carnegie e Ford exerciam controle indevido sobre as universidades, as instituições de pesquisa, a politica e a cultura em geral.

     

             A doutrina pregada pelo ´antropólogo´ condiz com a doutrina da FF: ele altera, manipulando, a voz dos afro-brasileiros para nos designar a todos, conforme os ideais do racismo como sendo a população da ´raça negra´, teve seu ponto alto, num trabalho acadêmico em que perpetrou a desqualificação, a desumanização dos miscigenados, numa agressão à dignidade humana da maioria dos brasileiros feita visando defender pertencimentos raciais puros.

                Pego em flagrante por Demétrio Magnoli, em duro artigo que para horror do petismo militante ouso citar e transcrever – http://arquivoetc.blogspot.com.br/ 2009/05/demetrio-magnoli-monstros-tristonhos.html   – em que denunciava as afirmações acadêmicas do antropólogo KABENGELE, no qual se proclamava defensor de uma doutrina tão antiga quanto a do racismo: a da ´raça negra´, pura.

                A tese do Doutor KABENGELE fora defendida num texto introdutório de três páginas ao livro de Eneida de Almeida dos Reis, intitulado MULATO: negro-não-negro e/ou branco-não-branco, publicado pela Editora Altara, na Coleção Identidades, São Paulo, em 2002. 

     Na tese esposada pelo antropólgo ele afirma, com todas as letras a mesma tese central do racismo: o sangue do ´negro´ e o sangue do branco, misturados, fazem do miscigenado (que ele chama de mestiços) “seres ambivalentes.”  Não são inteiramente humanos. Nem são brancos por causa do sangue ´negro´. Nem são ´negros´ em razão da presença do sangue branco, afirma o dr. KABENGELE. A tal tese acadêmica é expressão da doutrina da FF que recentemente assumiu

    Diz DEMÉTRIO em seu artigo:  “Segundo a lenda divulgada pelos arautos da doutrina racialista, a “raça negra” é constituída pela soma dos que se declaram censitariamente “pretos” com os que se declaram “pardos”. Em tese, o sistema de cotas raciais está destinado a esses dois grupos. Então, por que os tribunais raciais instalados nas universidades impugnam mestiços como Tatiana, Juan e tantos outros?

    “A resposta encontra-se na introdução de um livro de Eneida dos Reis devotado a investigar o lugar social do mulato. O autor da introdução é o antropólogo KABENGELE MUNANDA, professor titular na USP e um dos ícones do projeto de racialização oficial do Brasil.

             “Eis o que ele escreveu: “Os chamados mulatos têm seu patrimônio genético formado pela combinação dos cromossomos de ?branco? e de ?negro?, o que faz deles seres naturalmente ambivalentes, ou seja, a simbiose (…) do ?branco? e do ?negro?. (…) os mestiços são parcialmente negros, mas não o são totalmente por causa do sangue ou das gotas de sangue do branco que carregam. Os mestiços são também brancos, mas o são apenas parcialmente por causa do sangue do negro que carregam.”

             MAGNOLE prossegue em sua denúncia: “O charlatanismo acadêmico está à solta. Cromossomos raciais? Sangue do branco? Sangue do negro? Seres naturalmente ambivalentes? Munanga quer dizer seres monstruosos? Do ponto mais alto da carreira universitária, o antropólogo professa a crença do “racismo científico”, velha de mais de um século, na existência biológica de raças humanas, vestindo-a curiosamente numa linguagem decalcada da ciência genética.

               “Mas ele vai adiante, saltando dos domínios da biologia para os da engenharia social: “Se no plano biológico, a ambiguidade dos mulatos é uma fatalidade da qual não podem escapar, no plano social e político-ideológico eles não podem permanecer (…) ?branco? e ?negro?; não podem se colocar numa posição de indiferença ou de neutralidade quanto a conflitos latentes ou reais que existem entre os dois grupos, aos quais pertencem, biológica e/ou etnicamente.”

              É o horror – científico, acadêmico e moral. Mas, desgraçadamente, nessas frases abomináveis, que representam um cancelamento do conceito de cidadania, está delineada uma visão de mundo e exposto um plano de ação. De acordo com elas, a mola propulsora da história é o conflito racial e, no Brasil, para que a história avance é preciso suprimir a mestiçagem, propiciando um embate direto entre as duas raças polares em conflito. O imperativo da supressão da mestiçagem exige que os mestiços – esses monstros tristonhos condenados pela sua natureza à ambivalência – façam uma escolha política, decidindo se querem ser “brancos” ou “negros” no novo mundo organizado pelo mito da raça.

                  No veredicto do Grande Inquisidor que ocupa o cargo de reitor da UFSM, Tatiana foi declarada “branca” porque, em audiência diante de um tribunal racial, ela não testemunhou ser vítima de discriminação racial. A estudante, tanto quanto Juan Felipe e os demais rejeitados pelo Brasil afora, teve cassado o direito à autodeclaração de cor/raça por um punhado de inquisidores, que são professores racialistas e militantes de ONGs do movimento negro. Mas, antes disso, essa turma tomou de assalto as chaves de acesso ao ensino superior e, desafiando as normas constitucionais, cassou o direito de centenas de milhares de jovens da cor “errada” de ingressar na universidade pelo mérito demonstrado em exames objetivos. A massa dos sem-direito é formada por estudantes de alta, média ou baixa renda, com diferentes tons de pele, que compartilham o azar de não funcionarem como símbolos úteis a uma ideologia.

              E, por fim, destaca o sociólogo, chamando a atenção para a gravidade de uma tese acadêmica de repulsa à íntegra humanidade dos miscigenados, aliás, matéria também tão antiga quanto a eugenia do início do século passado, berço onde foram gestadas as leis de Nuremberg e a doutrina da ´raça pura´ do nazismo de Adolf Hitler, época em que intelectuais orgânicos pregavam, abertamente, dentro e fora das universidades, que a miscigenação levava à degeneração da espécie, conforme tão longamente discorreu o conhecido MONTEIRO LOBATO.

              Lembrava DEMÉTRIO fatos históricos do racismo: ” Esquece-se com frequência que a pedra fundamental dos Estados baseados no princípio da raça é a proibição legal da miscigenação. A Lei Antimiscigenação da Virginia, de 1924, que sintetizava o sentido geral da legislação segregacionista nos EUA, definiu como “negros” todos os que tinham uma gota de “sangue negro”. A Lei para a Proteção do Sangue Germânico, de 1935, na Alemanha nazista, criminalizava casamentos e relações sexuais entre judeus e arianos. A Lei de Proibição de Casamentos Mistos, de 1949, na África do Sul do apartheid, proibiu uniões e relações sexuais entre brancos e não-brancos. Raça é um empreendimento de higiene social: a busca da pureza.”, conclui MAGNOLE em seu artigo.

       

     

    • Militão, você já assistiu o

      Militão, você já assistiu o filme A Última Tentação de Cristo? Nele tem uma passagem em que o apóstolo Paulo se encontra com Jesus, que obviamente não tinha morrido na cruz nem de forma alguma. E ele interpela a pregação de Paulo dizendo que era tudo mentira, já que ele estava vivo. Então Paulo diz para ele que não importava se ele tinha morrido ou não na cruz, o que importava era que, agora, todos acreditavam nisso e isso era a verdade.

      Assim é com o racismo no Brasil: não importa o que digam os intelectuais, ele existe porque as pessoas o sentem na pele. Não se pode pegar, nem cheirar, é difícil até de provar, mas ele existe. E se existe, não pode ser ignorado e qualquer tentativa de trazê-lo à luz é bem vinda.

      Não gosto do modo como você tenta inverter as coisas fazendo comparações entre situações diferentes. Comparar as leis de cotas raciais no Brasil com as leis racistas estadunidenses e nazistas é, no mínimo, má fé. As duas últimas, visavam a segregação, o extermínio, a humilhação. A primeira visa o reconhecimento de um povo que fez o país ser o que é, mas que não recebeu nada em troca, a não ser exclusão. Visa também a retribuir o trabalho de milhões de pessoas que construiram escolas para os filhos dos outros estudarem. Visa, finalmente, abrir essas escolas para essas pessoas. 

      E não se preocupe, se a miscinegação racial não é um mito para você, então a a pacificidade do brasileiro também não, logo não haverá explosões de violência racial por aqui porque o brasielro é um povo ordeiro e cordato não?

      • Leis de segregação de direitos raciais

            Arthemísia,

            Não comparo situações diferentes. O que comparo são situações emque o estado acolhe direitos em bases raciais e as cotas raciais na forma que tem sido adotadas, configura-se, em segregação de direitos raciais.

            Aliás, faz anos, tenho desafiado a quem conheça alguma boa experiência de segregação de direitos em bases raciais com patrocínio estatal. Não há amiga, nenhuma. Nem nos EUA foram adotadas cotas raciais de forma compulsória pelo estado.

             Note uma coisa. Não há má fé alguma nessa comparação e já debito tua agressão gratuita ao sentimento de ódio ´racial´ que esse debate e o tema despertam.  Não se esqueça que toda política de privilégios raciais tem a mesma lógica: para incluir um é preciso fazer a exclusão de alguém. Porém quando essa inclusão ou exclusão se faz em bases raciais, é semente ruim de frutos venenosos. O incluido carrega uma carga de humilhação. Já o excluído não esquecerá que perdeu uma oportunidade a que tinha mérito em razão de um direito racial.

             As demais razões que você alega, eu também as acolho e afirmo: é possível fazer Ações Afirmativas sem o recurso à segregação de direitos raciais, e principalmente, sem alimentar diferenças e ódios raciais.

            Sempre cito que o Programa de Bolsa Família tem esse caráter. 80% dos beneficiários são pretos e pardos, e jamais alguém afirmou que se trata de uma políticas em bases raciais.

           

    • Vida real

      Doutor Militão, reservei um tempo para ler sua resposta, que era maior que a entrevista do professor Kabengele. Eu  como um simples mortal me interesso pela temática do racismo brasileiro, já que sofro ele na pele desde criança, senti no texto do professor, que é africano, verdades e conhecimento de causa poucas vezes “verbalizadas” e escritas da vida real do negro brasileiro. Já a sua resposta me fez sentir como eu me sentia com os ensinamentos que tive na escola sobre a participação do negro na história do Brasil, totalmente distante da realidade. Quanto tempo o senhor está longe da sua comunidade, da realidade do povo preto que vive nas periferias em condições de miséria em suas casas mal construídas e inacabadas? Quanto tempo o senhor não pega um ônibus, um trem ou uma lotação que transporta essas pessoas para essas regiões distantes dos grandes centros e dos bairros arborizados e planejados? Esse mal viver não seria combustível suficiente para gerar uma guerra social? Minha resposta é não, sem educação isso nunca vai acontecer e o seu texto me fez saltar isso aos olhos – medo da distribuição de conhecimento. A ideologia do racismo  existe sim e para mim é palpável pois quando chegou a hora de eu ir para a faculdade consultei o meu pai, um homem simples com baixo nível de educação e disse que gostaria de tentar a UNICAMP e ele foi taxativo de que eu não teria chance de entrar nesta universidade e que “aquele lugar não é pra gente”. Eu insisti e disse que lá o ensino não era pago e ele me proibiu de fazer o  vestibular naquela instituição sem mais explicações, já que ele não as tinha, só tinha certeza de que aquele não era o meu lugar. Anos depois vi o mesmo fato se repetir com um amigo que usou o mesmo texto dito pelo meu pai, duas décadas antes, para a filha que pretendia fazer o vestibular na UNICAMP. 

      Daí eu penso aqui comigo, se até hoje o dinheiro do governo, gerado pelos impostos que todos pagamos, foi usado na formação de várias gerações de famílias brancas nas universidades não pagas em 100% por que não podemos ter 20% desse montante? Eles ainda não ficariam com 80% desta mamata? Se esperarmos que tudo aconteça de acordo com o seu entendimento ficaremos mais duas décadas na retórica, como bem disse o professor.

       

  4. Respeito aos negros no Brasil

    No Brasil, faz-se necessária uma ação que revitalize a cultura negra. É preciso realizar seminários e discussões a respeito disso, fazer-se “ouvir” pela maioria da população. É importante formar nossos educadores nessas questões para que possam desenvolver projetos escolares em torno do assunto e combatam a crescente visão fundamentalista de alguns setores evangélicos que ensinar cultura negra não é coisa de Deus, como se Deus fosse também preconceituoso. Parabéns, professor.

  5. São fatos o mito da

    São fatos o mito da democracia racial e o racismo velado em nossa sociedade. Muitos negros confirmam esse racismo negando a si mesmos, devido a essa construção histórica da inferioridade. Conheci vários com esse sentimento negativo. Isso ainda é sustentado pela mídia que insiste em divulgar imagens da família branca, feliz e higienizada. O que leva alguns brancos a reafirmarem essa posição. Em ambos os casos, fruto da ignorância. A ação do estado e de sua força policial mal formada que continua agindo como capitão do mato com muitos meninos e meninas da periferia. A discussão é necessária sim e racismos de qualquer forma devem ser combatidos. Contudo, vejo em meu cotidiano (sou mestiço, filho de uma negra com um branco, fruto da nossa formação social) a insistência desse tipo de preconceito que envolve todos por consequência de desinformação ou incentivo. Exemplo pessoal foi comigo no metrô de BH. Voltando do trabalho um jovem negro me hostilizou com ódio declarando detestar branco. Aquilo na hora me chocou por vários motivos: a cor da minha pele não é branca (mas o ódio criado nele por pessoas irresponsáveis que alegam uma exclusão histórica – verdadeira – e que isso deve ser vingado a qualquer custo, até por meio da violência); na minha vida inteira sempre convivi com meus parentes negros e sempre tive admiração e respeito pela cultura afrodescendente, inclusive orgulho por ter conhecido minha tia avó que faleceu com 104 anos de idade e foi filha de escrava (quando ela morreu eu tinha 6 anos e nunca esqueci dela e do relato da vida da mãe); no meu bairro meu mlhor amigo foi um negro, etc, posso dar aqui muitos exemplos. Senti na pele o preconceito por ser pobre (talvez por ser mestiço) e não é uma coisa legal. Onde quero chegar: insistimos muito na ideia de benefício de cotas para negros, índios, brancos, oriundos de escola pública – e viramos o rosto para o principal e mais importante, a necessária contrução da estrutura educacional, cultural, política e econômica em nosso país que favoreça o universal acesso a instituições públicas de trabalho e ensino. É intencional isso, desviar a atenção para o que é mais importante? A isonomia e isegoria propostas por nossa constituição são negadas por esse tipo de assistencialismo que se torna oportunista. A nossa lei maior é desrespeitada e anulada o tempo todo por nossa sociedade. Tenho a sensação de que ela não vale de nada. A iguladade de direitos proposta pela lei, teoricamente geradora de estrutura adequada a inclusão adequeda e universal sofre com os solapos eleitoreiros de plantão por gurpos politicos que só pensam em voto. Muitos não têm acesso a cotas, inclusive pelo motivo óbvio de que o estado não suporta manter essa assistência a todos. Sou contra cotas? Sou! Por quê? Isso alimenta mais ainda antagonismos, divisão em uma sociedade já saturada por muitas divisões. Alimenta mais ainda o preconceito e reafirma (quer queiram ou não) mais ainda a ideia do negro em nossa sociedade de um ser tutelado, fraco, necessitado de ser o tempo todo amparado. Demétrio Magnoli tem razão em dizer que está sendo criado antagonismos. Senti isso no metrô, e o jovem nem me conhecia, meu valores, minha ligação com a cultura negra ou afrodescendente. Até esse termo já desconfio, afrodescendente, pois cria a ideia de separação de algo maior: o ser brasileiro. Somos todos brasileiros, com características, muitas, próprias. Compensação histórica por séculos de perseguição, outro fato. Sim houve. O erro de lagumas bestas atualmente é continuar agindo por anacronismos e reforçar essa perseguição por meio de racismo velado ou explícito e/ou por meio de cotas reforçadoras da exclusão (inversa?) social, física, geografica. Sou de direita? Não. Sou de esquerda? Não. Sem manipulações ideológicas e institucionais de qualquer tipo. Defendo uma visão humana de todos. Uma sociedade para todos. Os índios (da qual também tenho uma ligação – tive uma tataravó índia do sul da Bahia. Etâ mistureba, né, quem quiser leia o Povo Brasiliero, de Darcy Ribeiro, e vai entender muita coisa) são massacrados e ninguém fala disso como se fala da questão negra. Muitos os olham como selvagens, nós, “civilizados”. Ninguém toca no assunto do branco morto também pela polícia (ou seja, esse estado que desarvegonhosamente e hipocritamente fala de cotas). Propaganda e mentira, sempre assim. Isso me lembra os nazistas e sua bem costruída propaganda contra judeus e comunistas. Destes contra nazi-fascistas e capitalistas. Falando na canalha nazista, os alemães de hoje podem ser culpados pelos crimes de uma geração passada? Os brancos de hoje podem ser culpados por gerações passadas? Se é cometido estupidamente crime “racial”, de branco contra negro e vice-versa, cabe a lei e a justiça lidar com isso. Voltando as contruções, tudo manipulação e propaganda com o intuito de dominação. De divisão ( a velha fórmula romana é atual “dividir para dominar) de uma sociedade que se constrói dia a dia. Na escola onde trabalho vejo meus alunos, de qualqer tipo de cor, se abraçando, se amando, brincando. Aí vem o poder e procura desconstruir essa beleza com teorias de especialistas contratados. Não nego a ignorância de muitos por aí, nego a manipulação de profissionais por outro lado. Compensação sim na valorização da cultura, da arte, da história, dos quilombolas, da ocas, da língua. Com respeito. Respeito também ao outro e sua cultura particular – nordestino, baiano, mineiro, paulista, rio-grandense, etc – respeito. Sem manipulações e divisões. Prática e ação de execução de uma Constituição defensora da igualdade de todos em direito. Solução: educação, lá na base.

    Para terminar: chega dessa classificação psedo-científica oitocentista de cor que persiste em nossa sociedade, em instituições. O combate verdadeiro está em eliminar a corrupção que nos sangra dia a dia e as formas de preconceito veladas ou justificadas por programas falsos e limitados. Enquanto retardarmos a isonomia e o mérito legal, estaremos fadados a sempre andar para trás. Para o atraso e tudo mais. Sorte a todos.

  6. QUE PREGUIÇA!!!

    Que preguiça!!

     

    Não do texto. O texto é ótimo, preciso, certeiro.

    Preguiça desses comentários de gente que nem leu o texto, e sai falando abobrinha.

    Militão e mucio, para responder seus questionamentos, releia o texto, inteiro, do começo ao fim. Se ainda não estiver convencido, releia até entender.

    Ainda não se convenceu? Vá relendo o textos e fazendo desenhos.

    As vezes acho que, para educar esse bando de idiota, deveríamos fazer uma experiência social pedagógica: instaurar o aparthaid, por 6 meses. Só que dessa vez, os excluídos serão os brancos. Só pra essa gente mequetrefe ENTENDER o que é ser preconceituado. PERCEBER o que é entrar em uma loja e ser sumariamente ignorado. LEVAR GERAL da polícia, só porque está voltando da escola ou do trabalho.

    Militão e mucio, vcs envergonham a espécie humana!!

     

  7. Sou professora de uma

    Sou professora de uma universidade federal e, hoje, sou coordenadora de um curso. Foi a partir de então que comecei a ter contato com situações mais próximas das ações afirmativas, inclusive com o objetivo de fazer levantamentos relativos aos mitos em relação ao desempenho de estudantes cotistas e não-cotistas.

    Posso afirmar que a análise dos últimos dois anos, na área de artes visuais, não há grande diferença em termos de desempenho/nota entre os diferentes grupos de cotistas (baixa renda familiar, escola pública, negros e indígenas).  Talvez porque a área de Artes não seja concorrida o suficiente para criar interesse, percebo que estudantes que fazem parte dessas políticas afirmativas, inclusive, tem se mostrado mais engajados, conscientes de seu papel como cidadãos e dispostos a lutar. Sempre fui a favor das cotas e não tinha a dimensão do quanto essas iniciativas são positivas para as pessoas e para nossas cidades, levando a universidade para as reais questões da vida, antes esquecida por acadêmicos que falavam a partir do conforto de suas cadeiras. Como professora, estava claro que as cotas funcionavam e são mais do que necessárias.

    Contudo, o que me assustou foi ter acesso a uma discussão em que fica claro que auto-declarar-se não é suficiente. Presenciei uma reunião em que a discussão principal era a exclusão de uma aluna cujo documento que comprovaria sua origem indígena foi questionado e anulado pela Funai, afirmando que era impossível que a estudante pertencesse a tal tribo indígena porque a mesma já havia sido extinta há mais de três séculos. A estudante, que estava no terceiro ano do curso de Medicina, perdeu sua vaga porque os trâmites burocráticos afirmaram que ela não tinha direito a estar ali e que sua origem não poderia ser comprovada.

    Foi simples assim. Desde então, fico incomodada com quem seriam os/as responsáveis por legitimar um documento que comprove a origem negra ou indígena. Que critérios são esses? Continuo espantada com a exclusão dessa aluna, que ocorreu em 2012, e com o fato de que a discussão sobre tais documentos comprobatórios só entrem em cena quando referem-se a cursos altamente concorridos e sabidamente ocupados pela elite branca brasileira, como no caso, o curso de Medicina.

    Enfim, tive a triste oportunidade de ver que não há problemas se os/as cotistas ocuparem vagas que não ‘pertençam’ a essa elite, mas, a partir do momento em que isso acontece, aí a questão toma outras proporções. Parabéns pelo texto, prof. Kabengele Munaga, por nos lembrar que nem tudo é samba por aqui!

     

     

     

     

  8. Cotas raciais e seletivas…
    Sou professora de uma universidade federal e, hoje, sou coordenadora de um curso. Foi a partir de então que comecei a ter contato com situações mais próximas das ações afirmativas, inclusive com o objetivo de fazer levantamentos relativos aos mitos em relação ao desempenho de estudantes cotistas e não-cotistas. Posso afirmar que a análise dos últimos dois anos, na área de artes visuais, não há grande diferença em termos de desempenho/nota entre os diferentes grupos de cotistas (baixa renda familiar, escola pública, negros e indígenas).  Talvez porque a área de Artes não seja concorrida o suficiente para criar interesse, percebo que estudantes que fazem parte dessas políticas afirmativas, inclusive, tem se mostrado mais engajados, conscientes de seu papel como cidadãos e dispostos a lutar. Sempre fui a favor das cotas e não tinha a dimensão do quanto essas iniciativas são positivas para as pessoas e para nossas cidades, levando a universidade para as reais questões da vida, antes esquecida por acadêmicos que falavam a partir do conforto de suas cadeiras. Como professora, estava claro que as cotas funcionavam e são mais do que necessárias. Contudo, o que me assustou foi ter acesso a uma discussão em que fica claro que auto-declarar-se não é suficiente. Presenciei uma reunião em que a discussão principal era a exclusão de uma aluna cujo documento que comprovaria sua origem indígena foi questionado e anulado pela Funai, afirmando que era impossível que a estudante pertencesse a tal tribo indígena porque a mesma já havia sido extinta há mais de três séculos. A estudante, que estava no terceiro ano do curso de Medicina, perdeu sua vaga porque os trâmites burocráticos afirmaram que ela não tinha direito a estar ali e que sua origem não poderia ser comprovada. Foi simples assim. Desde então, fico incomodada com quem seriam os/as responsáveis por legitimar um documento que comprove a origem negra ou indígena. Que critérios são esses? Continuo espantada com a exclusão dessa aluna, que ocorreu em 2012, e com o fato de que a discussão sobre tais documentos comprobatórios só entrem em cena quando referem-se a cursos altamente concorridos e sabidamente ocupados pela elite branca brasileira, como no caso, o curso de Medicina. Enfim, tive a triste oportunidade de ver que não há problemas se os/as cotistas ocuparem vagas que não ‘pertençam’ a essa elite, mas, a partir do momento em que isso acontece, aí a questão toma outras proporções. Parabéns pelo texto, prof. Kabengele Munaga, por nos lembrar que nem tudo é samba por aqui!     

  9. Maravilha ter acesso à esta

    Maravilha ter acesso à esta visão tão realista.

    Antes de branca-morena-índia-italiana-portuguesa (ufa!), sou humana.

    E não é possível ser feliz e ter paz deespírito enquanto houver excluídos paralizados pelos ditos “incluídos”. Inclídos na inércia cultural da “preguiça” política de quem não sabe o que é ser excluído.

    Obrigado!

  10. Lindo ver um acadêmico de

    Lindo ver um acadêmico de verdade desmascarando aquele picareta desonesto (e vendido) do Demétrio Magnolli.

  11. Parabens ao querido Prof.

    Parabens ao querido Prof. Kabe pelas explicações, uma boa aula. A minha experiencia no campo de estudo das relações étnico-raciais tem revelado que uma educação anti-racista (que visibilize, valorize, pesquise, recupere a nossa linhagem africana e indígena), voltada para as nossas crianças e para as proximas gerações, é uma luta que vale mais do que ficar “dialogando” com pessoas que tiveram uma educação tradicionalmente racista. As linguagens são distintas o suficiente para não se fazerem compreender. A sociedade brasileira é racista e isto está epxresso numa divisão social do trabalho claramente racializada, num simbólico que degrada a negritude, seja naturalizando a imagem do criminoso, assassino, ladrão ou do drogado, pregiçoso, indolente e com complexo de inferioridade. As ações afirmativas, especialemnte as cotas e a Lei 10.639, buscam, como ponto de chegada, a desracialização, a “igualdade universal”, historicamente ausente da sociedade brasileira. A luta é árdua!! Vou eu pela educação….os com mais coragem e força continuem no campo político, na militância. Abraço a todos.

  12. Mito da democracia racial brasileira

    A entrevista concedida na Revista Fórum pelo Antropólogo Kabengele da USP, que trata do mito da democracia racial brasileira, é uma grande contribuição para uma reflexão e ação na busca da superação do preconceito, do racismo e da discriminação racial, infelizmente, ainda, presentes em nossa sociedade. Embora reconheça alguns avanços de políticas públicas e ações afirmativas na educação como, por exemplo, o PROUNI e a LEI DE COTAS (Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012). Enfim, “fora da educação não tem solução para superação do preconceito, do racismo e da discriminação social”. Além disso, o Estado brasileiro tem uma dívida histórica com a comunidade negra e com os indígenas. A propósito, foram 388 anos de escravidão e cerceamento da liberdade para o exercício de uma cidadania plena para todos os brasileiros

  13. Um país racista sem racistas!

    Parabéns ao professor, o texto escrito por alguém que sofreu na pele o preconceito e que vive nos meios acadêmicos, esclarecendo muitos dos equívocos que são propagados pela mídia e por uma educação que transmite o preconceito de forma discreta, entretanto que faz vítimas.

     

    Parabéns

  14. Solução?

    […Mas isso não pode impedir uma política, porque basta a autodeclaração. Basta um candidato declarar sua afro-descendência. Se tiver alguma dúvida, tem que averiguar.]

    Mesmo? E qual seria o critério? O Prof. Munanga utiliza o mesmo argumento que muitos outros defensores do sistema de cotas utilizam e que não existe resposta prática. O problema do critério “racial” ou de “cor” em qualquer país que tenha parte de sua população mestiça é justamente a sua definição. A auto declaração de descendência só é eficiente para aqueles que imigram de outros países ou regiões que são reconhecidamente (o que já é outro problema, já que não existem países “puros”) origem de pessoas com a tal descendência (japoneses do Japão, negros da África, etc.). O que o Prof. Munanga defende não é prático e pode facilmente gerar outras exclusões. Se eu sou “pardo” e minha irmã é “morena”, o que exatamente diferencia-nos? E se eu fosse um pouco menos pardo e descendente de berberes? Eu não seria também um afro descendente? Ah, afro-descentes se referem a “negros do oeste da áfrica que no período colonial foram trazidos como escravos”. E como vamos checar isto? Teríamos então que instituir um sistema de exames genéticos para aferir quão negro ou índio ou japonês ou berber eu sou? Qual seria o critério então? Será que seu for 51% berber e 49% negro eu não sou elegível pelo sistema de cotas? Qual seria a porcentagem.

    Esta discussão não leva a nada afinal, e criam-se outros “mitos” que complicam ainda mais a tão sonhada justiça social/histórica brasileira. Eu sou descendente de índios (Pataxó) e negros (recôncavo baiano) e não sou a favor do sistema de cotas. Ele não resolve o problema da educação no Brasil, nem mesmo faz justiça histórica. Justiça histórica se faz colocando aqueles que foram injustiçados como atores participantes da sociedade e responsáveis pelo seu próprio destino, e (parte da ) solução para isto não é o ensino superior e sim toda o ciclo educacional, particularmente o ensino básico. Nasci e fui criado na Bahia, classe média “empobrecida”, estudei em escola particular no ensino fundamental e médio e faculdade pública no ensino superior. Já sofri discriminação e nem por isso eu acredito que o sistema de cotas resolverá qualquer problema, a não ser atender a uma demanda medíocre de formação “superior”, que por si só já tem enormes problemas, seja para o “branco” quanto para o “negro” ou “índio” ou berber. 

    Cria-se uma polêmica que no final nem mesmo responde aos desafios que surgiu para superar. Como afro-descendente “geneticamente atestado” :), eu concordo com o argumento do ator americano Morgan Freeman: enquanto eu for visto como uma cor e não como ser humano, os problemas nunca acabarão. O próprio critério de caracterização já trás implicitamente uma separação, uma segregação. Acredito que o caminho é aquele que faz justiça para todos, olhando para o passado para não cometermos os mesmos erros mas sem nos prendermos a ele.   

     

  15. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome