7 de junho de 2026

Após tentativa de compra do Banco Master, Fictor entra no radar da CVM

Escândalo, no entanto, há foi revelado pelo jornalista Luís Nassif há meses, ao apontar indícios de irregularidades financeiras poderiam se transformar em um dos maiores casos de fraude da história recente
Sede do Banco Master (Crédito: Divulgação)

O jornal O Globo noticiou, nesta terça-feira (20), o que os leitores do GGN já saber há dias: que a Fictor, empresa que tentou comprar o Banco Master, está na mira da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), por oferta irregular de investimentos.

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Após se apresentar como candidata à compra do Banco Master, em parceria com investidores árabes, a Fictor, holding com atuação nos setores de alimentos, infraestrutura e finanças e patrocinadora do Palmeiras, passou a ser questionada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A autarquia apura indícios de oferta irregular de investimentos, diante da promessa de retornos acima da média do mercado a investidores.

Desde o fim de 2025, clientes que aplicaram recursos em contratos de Sociedade em Conta de Participação (SCP) relatam atrasos nos pagamentos. Diante disso, a Associação Brasileira de Assessores de Investimento (Abai), que representa cerca de 150 escritórios e 10 mil profissionais, protocolou consulta na CVM pedindo a análise do caso.

A entidade solicita que a CVM avalie possíveis indícios de oferta pública irregular de valores mobiliários, no caso, as SCPs, e eventual atuação fora das regras do mercado de capitais. Segundo a Abai, os contratos oferecidos pela Fictor prometem rendimentos entre 2% e 3% ao mês, podendo chegar a até 18% ao ano. Para comparação, aplicações tradicionais de renda fixa, como CDBs, rendem em média cerca de 1% ao mês (12% ao ano), enquanto a taxa Selic está em 15% ao ano.

Outro ponto levantado é a política considerada “agressiva” de distribuição desses contratos, com pagamento de comissões (rebates) de até 2% sobre o valor investido a assessores de investimento. De acordo com a Abai, essa prática estimularia a venda fora das instituições do sistema de distribuição (corretoras e DTVMs), resultando inclusive no descredenciamento de profissionais por áreas de compliance.

A associação também aponta falta de transparência e de registros formais. Segundo o documento enviado à CVM, os recursos dos investidores seriam transferidos diretamente para contas das sócias ostensivas, sem estrutura adequada de custódia, auditoria ou fiscalização típica de fundos regulados. Há ainda relatos de dificuldades para resgates — com prazos de até D+60 — e ausência de extratos formais de acompanhamento.

Para a Abai, embora estruturados como SCPs, os contratos ofertados pela Fictor se enquadrariam, na prática, como Contratos de Investimento Coletivo (CIC), já que envolvem promessa de remuneração e oferta ao público. A entidade afirma que a captação por meio de redes sociais, assessores e divulgação em mídia, sem registro, indicaria tentativa de driblar a fiscalização. Caso sejam confirmadas irregularidades, a Abai pede a suspensão da oferta e da captação, além da apuração de eventuais infrações administrativas de controladores e intermediários.

Produto financeiro

Especialistas ouvidos destacam que as SCPs têm natureza privada e que existe uma “linha tênue” entre uma estrutura societária legítima e a oferta irregular de investimentos. Prevista no Código Civil, a SCP envolve um sócio ostensivo, que conduz o negócio, e sócios participantes, que aportam recursos e dividem lucros e perdas.
Segundo Guilherme Bruschini, sócio do MBC Advogados, a descaracterização ocorre quando há previsão de retornos fixos ou garantidos, especialmente elevados e constantes. Nesses casos, o instrumento se aproxima de um produto financeiro disfarçado, o que tende a atrair a atenção da CVM. A autarquia pode, então, requalificar a operação como CIC, sujeitando-a à Lei do Mercado de Capitais, independentemente da nomenclatura adotada.

Thiago Maroli, do NHM Advogados, afirma que a oferta de SCPs por redes sociais ou por meio de assessores de investimento foge ao padrão desse tipo de contrato. Já Juliano de Lara Fernandes, da Armada Asset, ressalta que, em geral, os retornos em SCPs são variáveis e vinculados ao desempenho do projeto, e não rendimentos fixos.
Andrea Sano Alencar, do Efcan Advogados, lembra que a CVM já aplicou multas em casos semelhantes e afirma que, diante de promessas de retorno fixo e oferta ampla ao público, a autarquia é o principal órgão para denúncia e proteção do investidor. Além disso, especialistas apontam a possibilidade de ações cíveis, representações criminais em caso de fraude e acionamento do Ministério Público ou do Procon. Em situações extremas, CICs utilizados de forma fraudulenta podem configurar esquemas de pirâmide financeira.

Fictor

Fundada em 2007, em São Paulo, a Fictor começou como uma startup de tecnologia e passou por reposicionamento em 2020, tornando-se uma companhia de investimentos e gestão de ativos. Atua nos setores de alimentos, infraestrutura e finanças. Em 2024, seu braço de alimentos passou a ser negociado na B3 após um IPO reverso, com a aquisição da empresa listada Atompar.

A Fictor tem ampliado presença no agronegócio, com foco em proteína animal. No terceiro trimestre de 2025, a Fictor Alimentos informou ter R$ 57 milhões em caixa, ativos totais de R$ 68 milhões e prejuízo de R$ 2,9 milhões no período.

Em novembro do ano passado, a Fictor anunciou parceria com um consórcio de investidores dos Emirados Árabes Unidos para a compra do Banco Master, prometendo aporte imediato de R$ 3 bilhões. No mesmo dia, porém, o controlador do banco, Daniel Vorcaro, foi preso pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master. No mercado, a avaliação foi de que o anúncio buscava ganhar tempo e evitar a liquidação.

Também em novembro, clientes da Fictor passaram a relatar atrasos no pagamento dos investimentos. Em nota, a empresa reconheceu problemas temporários de caixa e afirmou que os pagamentos seriam regularizados até 12 de fevereiro. A companhia atribuiu a restrição de liquidez a uma “contaminação reputacional externa” e disse ter adotado medidas de reforço de controles e readequação de cronogramas. A Fictor não comentou especificamente sobre as SCPs nem sobre os rendimentos prometidos.

A CVM informou que não comenta casos individuais, mas afirmou que reclamações e consultas são analisadas e recebem o tratamento adequado, adotando as medidas cabíveis sempre que necessário.

Dossiê

No entanto, o escândalo envolvendo o Banco Master, revelado pelo jornalista Luis Nassif e a equipe do Jornal GGN, já expôs um dos maiores casos de fraude financeira e desrespeito às instituições brasileiras há semanas.

Em maio de 2025, Nassif já alertava sobre a escalada do escândalo do Banco Master e do INSS, apontando que os indícios de irregularidades financeiras poderiam se transformar em um dos maiores casos de fraude da história recente, com impactos sobre beneficiários e o mercado.

O escândalo do Banco Master e do INSS vai escalar

19/11 – Master na mira da Fictor
Nesta reportagem, Nassif revela os negócios obscuros da Fictor, uma holding financeira que tentou adquirir o Banco Master. A empresa operou por meio de 17 sociedades em conta de participação, com sócios ocultos e patrimônio líquido negativo, levantando suspeitas sobre transparência, governança e risco de lavagem de dinheiro.

Os negócios obscuros da Fictor, que pretendia adquirir o Master

22/11 – Fitch e o golpe do Master
A próxima análise mostra como a agência de classificação de risco Fitch contribuiu, de forma indireta, para o golpe do Master, emitindo ratings que davam falsa credibilidade ao banco, facilitando a atração de investidores e a expansão da pirâmide.

Xadrez de como a Agência Fitch ajudou no golpe do Master, por Luís Nassif

23/11 – Master, BRB e clubes esportivos
Aqui, Nassif expõe os interesses cruzados entre o Banco Master, o BRB e grandes clubes esportivos, revelando como patrocínios e parcerias eram usados para legitimar operações suspeitas e influenciar decisões políticas e financeiras.

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Xadrez dos interesses do Master e do BRB por clubes esportivos, por Luís Nassif

26/11 – BC e CVM permitiram pirâmides
Abaixo, uma matéria detalhando como o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários deixaram de agir frente à formação de pirâmides financeiras, permitindo que esquemas fraudulentos se consolidassem sob o olhar omisso das autoridades reguladoras.

Como BC e CVM permitiram a formação de pirâmides no mercado

02/12 – Tarcísio de Freitas e o Master
Este texto mostra como Tarcísio de Freitas se envolveu inadvertidamente no caso do Master, ilustrando a dimensão política do escândalo e os riscos de promiscuidade entre governo, mercado e instituições financeiras.

Como Tarcísio de Freitas se enredou no caso Banco Master, por Luís Nassif

26/12 – Pirâmide era óbvia
Aqui, João Pacífico afirma que a pirâmide financeira do Master era evidente e que o mercado já tinha conhecimento das irregularidades, reforçando a suspeita de conivência ou omissão de players estratégicos do setor financeiro.

Como Tarcísio de Freitas se enredou no caso Banco Master, por Luís Nassif

08/12 – Bobagens sobre advogados e o Master
Esta matéria critica as interpretações equivocadas sobre a atuação de advogados no caso Master, desmontando mitos destacados principalmente pelos jornalões.

As bobagens inacreditáveis sobre advogados e o Master

11/12 – Fundo Bravo: golpe de R$ 72 bilhões
Nassif revela o esquema bilionário do Fundo Bravo, que se conecta ao Master, detalhando o tamanho do golpe e as implicações para investidores e para a credibilidade do mercado financeiro nacional.

O caso do fundo Bravo, um golpe de R$ 7,2 bilhões, por Luís Nassif

23/12 – Malu Gaspar e reunião sigilosa
A jornalista Malu Gaspar expôs uma reunião que, embora chamada de sigilosa, teve ampla repercussão pública, mostrando a tentativa de encobrir decisões estratégicas relacionadas ao Master.

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Malu Gaspar e a reunião sigilosa mais pública da história, por Luís Nassif

28/12 – Banco Master e R$ 160 milhões em patrocínio
O banco ligado ao Master destinou R$ 160 milhões em patrocínios à Globo, levantando suspeitas sobre a utilização de recursos ilícitos para fortalecer imagem institucional e influenciar a mídia.

Banco ligado ao Master tem R$ 160 milhões em patrocínio na Globo

07/01 – Banvox, Fundo Estocolmo e Gafisa
A matéria destaca lacunas nas investigações do Master, apontando que importantes atores financeiros como Banvox, Fundo Estocolmo e Gafisa ainda não haviam sido devidamente investigados, sugerindo omissões relevantes.

Banvox, Fundo Estocolmo e Gafisa: falta alguém nas investigações do Master

08/01 – Modelo Nelson Tanure e controle da Gafisa
Nassif analisa o papel do empresário Nelson Tanure e o controle da Gafisa, revelando a forma como grandes grupos corporativos se beneficiaram da estrutura do Master, ampliando o alcance da fraude.

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O modelo Nelson Tanure e o controle da Gafisa, por Luís Nassif

11/01 – Maior crise institucional do mercado
O texto aponta que o Master representa a maior crise institucional do mercado financeiro brasileiro, afetando a confiança nas instituições, expondo vulnerabilidades regulatórias e revelando uma rede complexa de interesses.

Xadrez do Master, a maior crise institucional da história do mercado, por Luís Nassif

14/01 – Polícia Federal chega a pontos-chave
A Polícia Federal começa a avançar sobre os principais núcleos financeiros do Master, indicando que as investigações estão alcançando agentes centrais e confirmando a dimensão sistêmica do esquema.

A Polícia Federal começa a chegar aos pontos-chave do escândalo Master, por Luís Nassif

14/01 – PF avança contra núcleo financeiro
Complementando a matéria anterior, a PF intensifica ações contra o núcleo financeiro do Master, destacando a atuação coordenada para desmantelar a pirâmide e recuperar ativos desviados.

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PF avança contra núcleo financeiro do Master e prende maior doador de Tarcísio e Bolsonaro

15/01 – Master, ponta do iceberg
Nassif sugere que o caso Master é apenas a ponta do iceberg, implicando que outros esquemas financeiros e irregularidades similares podem existir no mercado nacional, necessitando de investigações mais amplas.

Master é a ponta do iceberg, por Luís Nassif

15/01 – BTG e Vorcaro
O texto revela como o BTG pode facilitar manobras de desvio de patrimônio da liquidação do Master, envolvendo interesses corporativos e financeiros na proteção de ativos questionáveis.

Como o BTG vai ajudar Vorcaro a desviar patrimônio da liquidação

15/01 – Promiscuidade de Brasília
Por fim, Nassif denuncia a promiscuidade institucional em Brasília, mostrando que todos os poderes — Executivo, Legislativo e Judiciário — tiveram algum nível de envolvimento ou omissão no caso Master, amplificando os riscos de impunidade.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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