Dado curioso no escândalo do Banco Master é o envolvimento de muitos dos atores com clubes esportivos.
O Banco Master já patrocinou o Flamengo, começando pelo basquete em 2019, e ampliou suas ações no esporte, inclusive patrocinando até a equipe Alpine na Fórmula 1. É um dos sócios da SAF do Atlético Mineiro.
O Banco de Brasília (BRB) patrocina vários clubes de futebol do Distrito Federal, principalmente times do Campeonato Candangão, como Taguatinga, Santa Maria, Formosa, Capital, Ceilândia e Real Brasília. Além disso, o BRB apoia o Minas Brasília, time da Série A1 do Brasileirão feminino, e patrocina o time profissional do Flamengo desde 2020, além das categorias de base do clube desde 2023.
Qual o elo que une essas instituições a clubes esportivos?
Um pequeno mergulho no mundo da lavagem de dinheiro pode explicar.
Peça 1 – Telexfree: O Ensaio Geral
Em fins de 2013, empreendi uma batalha pesada contra a Telexfree – uma pirâmide financeira digital. O país sempre teve grupos de vendedores aliciados por pirâmides, como o caso do boi gordo, da avestruz, do ouro. A Telexfree foi a primeira tentativa eletrônica e se alastrou por todo o país.
Com exceção de uma juíza do norte do país, todo o Judiciário e órgãos de controle ficaram paralisados, sem compreender o novo fenômeno da digitalização e os golpes que proporcionava.
A pirâmide prometia crédito em ligações internacionais, que supostamente poderiam ser repassados a terceiros – em um momento em que Skype e outros aplicativos já ofereciam de graça.
O portal foi tirado várias vezes do ar e cheguei a receber ameaças de morte. O então Ministro da Justiça José Eduardo Cardoso acionou, então, a Polícia Federal para investigar as ameaças.
Com o tempo, a Telexfree foi proibida de atuar no país.
Peça 2 – Botafogo e a Pirâmide na Camisa
Para minha surpresa, eis que, de repente, a Telexfree Internacional, braço dela que operava nos Estados Unidos, explorando brasileiros em Boston, apareceu como patrocinadora do Botafogo de Futebol e Regatas.
Publiquei reportagem denunciando o inusitado: “A possível operação de lavagem de dinheiro entre o Botafogo e a Telexfree”
No artigo, lembrei as principais operações de lavagem de dinheiro praticadas nos anos 90:
“Em suas aventuras, Dantas se encantou com gado na Amazônia, com mineração e clubes de futebol – como sua investida no Esporte Clube Bahia
Por coincidência, são áreas adequadas para esquentamento de dinheiro, devido à dificuldade para a sua precificação. No caso do gado na Amazonia, a dificuldade em quantificar o número de cabeças e valor de terras; no caso do direito de lavra, pela dificuldade em estimar reservas e rentabilidade; no caso de clubes de futebol, pela falta de parâmetros na definição do preço de jogadores, e pelo acúmulo de isenções fiscais e de governança”.
Por coincidência, o diretor executivo do Botafogo era Sérgio Landau, irmão de Elena Landau, principal braço de Daniel Dantas para a área de futebol.
Elena Landau foi ex-diretora no BNDES e virou consultora de empresas ligadas ao Opportunity. Em 1997, ao lado de Luiz Roberto Demarco (que depois romperia com Dantas) passou a trabalhar na estruturação de grandes investimentos em clubes de futebol. O mercado descobria os porões do futebol.
O caso Telexfree internacional era típico de lavagem de dinheiro.
O contrato de patrocínio entre Botafogo e Telexfree vigorou de janeiro a maio de 2014, quando foi rescindido após os fundadores da Telexfree serem indiciados criminalmente por pirâmide financeira e fraude federal nos Estados Unidos. James Matthew Merrill foi preso, enquanto Carlos Nataniel Wanzeler tornou-se foragido da polícia americana.
Em outubro de 2017, a nova direção do Botafogo apresentou notícia de crime contra Maurício Assumpção (ex-presidente) e Sérgio Landau (ex-diretor executivo), além de diretores da Odebrecht. O pedido de instauração de inquérito policial decorreu de dois contratos de mútuo suspeitos, assinados entre 2013 e 2014, que teriam favorecido a Odebrecht na interdição do Estádio Nilton Santos.
Assumpção e Landau moveram uma ação judicial contra o Jornal GGN, sem consequências.
Peça 3 – Manual da Lavagem em Campos
Os clubes esportivos, em especial os de futebol, historicamente se tornaram ambientes propícios para práticas de lavagem de dinheiro. A dificuldade de precificação de ativos (jogadores, patrocínios, direitos de imagem), a informalidade de transações e a globalização do mercado criam brechas que podem ser exploradas por organizações criminosas. A seguir, apresentam-se hipóteses típicas de mecanismos utilizados para disfarçar a origem ilícita de recursos.
1. Contratos inflados de patrocínio
- Empresas pagam valores muito acima do mercado por patrocínios.
- O clube registra a entrada como receita legítima.
- Parte do montante é devolvida “por fora”, em espécie ou via empresas parceiras.
- Efeito jurídico: o patrocínio funciona como nota fiscal limpa para capital ilícito.
2. Compra “misteriosa” de direitos de atletas
- Fundos obscuros, muitas vezes sediados em paraísos fiscais, adquirem percentuais de jogadores.
- Posteriormente, o atleta é vendido por valores inflados.
- O fundo recebe lucro “limpo”, legitimando o dinheiro sujo.
- Esquema clássico: offshore compra barato → venda cara → lucro limpo → atleta vira commodity para lavagem.
3. Comissões a empresários e intermediários
- Empresários recebem comissões superfaturadas em negociações.
- A diferença é repassada a dirigentes, políticos ou organizações criminosas.
- Empresas fantasmas em países como Portugal, Uruguai, Malta ou Dubai recebem os valores.
- O dinheiro retorna via contratos de consultoria ou royalties de marca.
- Resultado: comissão superfaturada se transforma em Caixa 2.
4. Licenciamento de produtos e marketing
- Contratos milionários para camisas, chuteiras, academias ou escolas de futebol.
- Empresas terceirizadas atuam como laranjas.
- Sinal típico: clube famoso, marca fraca, contrato milionário.
- Conclusão: não é o torcedor que paga, mas sim a operação de lavagem.
5. Construção e obras de estádio
- Obras naturalmente sujeitas a superfaturamento e estimativas variáveis.
- Materiais e serviços são de difícil auditoria posterior.
- Empresas de construção funcionam como canais ideais para circulação de dinheiro ilícito.
6. Uso de casas de apostas
- Patrocínios e manipulação de resultados permitem lavar recursos rapidamente.
- Apostas globais passam por plataformas digitais sem fiscalização clara.
- Efeito: o jogo de futebol se converte em transação financeira transnacional.
7. SAFs e clubes-empresa
- A modernização trouxe transparência, mas também novos riscos.
- Entrada de capital de fundos genéricos sem origem clara.
- Compra de dívidas por empresas desconhecidas.
- Uso de fintechs e bancos pequenos para operações.
- Transformação: antes era caixa 2 de dirigente; agora pode ser esquema offshore profissional.
Como o dinheiro sujo é “limpo”
Etapas idênticas à lavagem comum:
| Etapa | No clube |
| Colocação | Patrocínio, compra de atleta, obra, aposta |
| Ocultação | Comissão, empresa terceirizada, offshore |
| Integração | Venda de jogador, lucro de fundo, bilheteria |
O clube devolve a aparência de “atividade econômica normal”.
Peça 4 – SAFs: Novos Donos, Velhos Esquemas?
Uma SAF – Sociedade Anônima do Futebol é um modelo empresarial criado pela Lei nº 14.193/2021 para transformar clubes de futebol, que antes eram associações sem fins lucrativos, em empresas com fins lucrativos. Em outras palavras: a SAF permite que clubes virem companhias, com dono, ações, investidores e regras de mercado — sem perder a identidade esportiva.
Vamos a alguns exemplos de SAFs e seus patrocinadores.
Atlético-MG (Atlético Mineiro SAF)
– Modelo: SAF com 75% nas mãos de investidores (Galo Holding) e 25% da associação.
– Acionista controlador:
– Galo Holding (75% da SAF), formada por:
– 2R Holding SAF (Rubens & Rafael Menin) – 55,74% da Galo Holding – controladores do Banco Inter.
– FIP Galo Forte (Daniel Vorcaro) – 26,88% – do Master
– Ricardo Guimarães – 8,43% – presidente do Conselho de Administração do Banco BMDG, banco estadual.
– FIGA (Renato Salvador e outros) – 8,96% – de grupos hospitalares e de transmissão de energia,
– Associação Atlético: mantém 25% da SAF, com direito a influência na governança.
Botafogo (Botafogo SAF)
– Modelo: SAF com capital majoritariamente estrangeiro.
– Acionista controlador:
– Eagle Football Holdings – detém 90% das ações da SAF.
– A Eagle é o veículo de investimento liderado por John Textor, envolvido hoje em disputa societária dentro da própria holding, mas formalmente ainda o grupo segue como dono de 90%.
– Associação Botafogo: fica com cerca de 10%.
Reportagens indicam que a participação no Botafogo (entre outros ativos) foi oferecida como colateral nos financiamentos estruturados com a Ares para a compra do Lyon.
Isso explica por que, quando a Eagle entrou em default, houve temor de que credores pudessem tentar executar garantias ligadas ao clube.
Bahia (EC Bahia SAF)
– Modelo: clube vendido para um grupo multinacional de futebol.
– Acionista controlador:
– City Football Group (CFG) – dono de 90% da SAF do Bahia, com compromisso de investir cerca de R$ 1 bilhão em 15 anos (jogadores, dívidas, infraestrutura).
– Associação Bahia: ficou com 10%.
– O acionista majoritário é o Abu Dhabi United Group (ADUG), ligado ao sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan — que detém cerca de 81% da CFG.
– A empresa de investimento americana Silver Lake detém cerca de 18%.
– Também participam grupos chineses como CITIC Capital e China Media Capital com participações menores.
– Bens como Cidade Tricolor, antigo CT e demais imóveis do futebol são integralizados no capital da SAF. Troféus ficam com a associação, via comodato.
– Há contrato específico de licença de propriedade intelectual, com valor total de R$ 1 bilhão como remuneração pela exploração dos direitos de marca e IP do clube – figura central do ACORDO DE INVESTIMENTO.
– Todos os contratos de futebol (atletas, comissões, fornecedores) são transferidos integralmente para a SAF, que passa a ser o único centro econômico do futebol do Bahia.
Na prática, o que o CFG compra é:
Marca + ativos físicos + elenco + fluxo futuro de receitas (TV, bilheteria, patrocínio, venda de jogadores) por 90 anos, com forte liberdade de gestão.
Peça 5 – Bets: O Cassino Legalizado
E aqui se entrar no centro da lavagem de dinheiro no país: as bets, sites de apostas.
– Flamengo: assinou contrato máster com a Betano no valor de ≈ R$ 268,5 milhões por ano.
– Vasco da Gama: patrocinador máster recente da Pixbet, empresa de apostas.
– Botafogo e Fluminense: também têm contratos relevantes com casas de apostas. Por exemplo, o campeonato carioca revelou que mais de 83% dos clubes tinham aposta como patrocinador máster.
– São Paulo Futebol Clube: principal patrocinador máster é a Superbet.
– Clube Atlético Mineiro (“Galo”): recentemente fechou com a casa de apostas H2Bet como patrocinador máster a partir de 2025, com valor estimado de R$ 180 milhões ou mais.
– Nota: Um relatório em 2024 dizia que o patrocínio máster do Atlético-MG estava “abaixo” de muitos outros, recebendo cerca de R$ 18 milhões por ano naquele momento, o que ressalta a aceleração desse mercado.
Peça 6 – Como Limpar o Jogo
1. Beneficiário Final Obrigatório (UBO)
Toda empresa que investir, patrocinar ou deter parte de SAF deve revelar o dono real, inclusive em offshores.
2. Due Diligence de Patrocinadores
Patrocínios acima de R$ 3 milhões precisam de:
– comprovação de faturamento compatível;
– análise simplificada de risco (modelo do BC + CVM).
3. Direito de Imagem com Limite Percentual
Direito de imagem não pode ultrapassar 40% da remuneração total sem justificativa auditada e publicada.
4. Fluxo internacional de jogadores
Transferências internas entre clubes do mesmo grupo (ex.: CFG, Eagle) precisam de:
– avaliação independente de mercado;
– publicação do laudo.
Isso impede manipulação contábil e lavagem por “supervalorização de ativos”.
5. Auditoria de Obras (Estádios/CTs)
– Empresas contratadas devem ser certificadas e rastreadas (diretores e políticos envolvidos).
– Uso de referenciais de custo unitário público (similar ao SINAPI/obras federais).
– Obrigar seguro de performance (garantia do contratado) — impede falências forjadas.
6. Sanções Inteligentes (proporcionalidade)
| Infração | Penalidade | Objetivo |
| Não divulgar contratos | Multa e bloqueio de registro de atletas | Transparência |
| Não informar UBO | Suspensão de patrocínio + multa | Antilavagem |
| Manipulação esportiva | Banimento + ação penal | Integridade |
| Capital ilícito em SAF | Perda de controle + intervenção | Blindagem do clube |
| Falha contábil grave | Auditoria supervisionada | Corrigir, não punir torcedor |
Nunca punir pontuação esportiva por crime financeiro, exceto manipulação de resultados.
O torcedor não pode pagar pelo dirigente criminoso.
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José
23 de novembro de 2025 11:09 amVc deve ser Palmeirense, pois não citou o Palmeiras que é financiado pela Sportingbet,. E a Receita Federal, a PGR e PF, no governo Lula são entidades livres para investigar, se tiver coisa errada com certeza será apontada. Lembrando que futebol e jogo ilicito já existia há muito tempo, só que era o jogo do bicho.
solle
23 de novembro de 2025 5:02 pmFalou dr todo mundo mas deixou varmengo e varmeiras de fora, aí fica difícil