A influência de Bolsonaro nos preços dos combustíveis; GGN checa

Tatiane Correia
Repórter do GGN desde 2019. Graduada em Comunicação Social - Habilitação em Jornalismo pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo.
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Política de paridade de importação (PPI) é a chave por trás da disparada dos preços; Abras aponta cesta de itens mais cara em 12 meses

O presidente Jair Bolsonaro (PL) tentou por mais de uma oportunidade se descolar da influência exercida nos preços praticados pela Petrobras, o que por consequência afeta tanto consumidores como empresas.

O Jornal GGN listou algumas declarações do presidente a respeito do assunto, e apontamos as mentiras existentes no discurso bolsonarista. Confira.

O QUE BOLSONARO DIZ: “A guerra e pandemia explodiu o preço dos combustíveis. Buscamos alternativa”.

A VERDADE: Em março, a inflação atingiu seu maior resultado desde o começo do Plano Real, puxado pelo aumento da demanda externa por combustíveis. E o quadro seria desfavorável para o Brasil, com sua inflação elevada e crescimento restrito (a estagflação).

O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) de março chegou a 1,62%, o maior percentual para o mês desde o início do Plano Real – muito por conta do reajuste nos preços da gasolina, diesel e gás de cozinha realizado pela Petrobras e repassado às distribuidoras.

Porém, o presidente afirmou aos seus apoiadores que o fenômeno se repetia no mundo inteiro – como forma de se descolar dos efeitos nocivos da alta dos preços.

“O mundo todo está agora com uma inflação de alimentos grande, fruto da pós-pandemia, do ‘fique em casa e a economia a gente vê depois’, e também a questão da guerra da Ucrânia e Rússia”, disse Bolsonaro no Paraná, segundo o jornal Extra. 

Em entrevista à CNN Brasil em março de 2022, o economista Fernando Ribeiro Leite, professor do Insper, afirmou que as perspectivas para o Brasil não eram boas no médio prazo, por conta da chamada estagflação – “Economia que cresce pouco e com inflação alta”.

O QUE BOLSONARO DIZ: ” O Congresso aprovou e eu sancionei a redução do teto do ICMS para 17%.”

A VERDADE: A proposta foi sancionada e afetou diretamente a economia dos Estados, uma vez que as compensações das perdas foram excluídas da proposta sancionada.

Em junho de 2022, a Câmara dos Deputados retirou mudanças feitas pelo Senado Federal e encaminhou para sanção o limite de 17% para o ICMS dos combustíveis.

Entre os itens excluídos, estavam a compensação ser feita pelas perdas de ICMS totais e não apenas sobre os produtos e serviços afetados.

Em reportagem para a Agência Senado, o senador Oriovisto Guimarães (Podemos-PR) afirmou que os governadores vão recorrer ao Supremo Tribunal Federal, enquanto o líder do governo, Carlos Portinho (PL-RJ), admitiu que eventuais reajustes da Petrobras vão anular os ganhos do projeto – e a estatal reajustou o preço dos combustíveis até o período pré-eleitoral, como forma de melhorar a imagem do governo Bolsonaro.

O QUE BOLSONARO DIZ: “Eu como Presidente da República abri mão de todos os impostos federais dos combustíveis. Todos os senadores do PT votaram contra”.

A VERDADE: A bancada petista foi contrária ao projeto por não mexer na paridade de preços, que acaba por dolarizar os preços praticados.

Em junho de 2022, a bancada do PT no Senado votou contra o PLP 18/2022, que acabou aprovado em Plenário, por considerar que a medida “retira recursos dos estados e ameaça serviços essenciais sob pretexto de baixar combustíveis, mas não mexe no PPI, que dolariza preços”.

“A verdadeira causa da inflação de combustíveis não está nos tributos, mas na decisão de a Petrobras encolher sua atuação no refino e na distribuição e de praticar a política de preços de paridade de importação (PPI)”, afirma o partido.

Além disso, o PT lembra que tal estratégia fez da Petrobras uma exportadora de petróleo cru, ampliando os ganhos dos acionistas minoritários, e fez o país refém da importação de derivados, aumentando os preços para os consumidores finais.

“Além de desrespeitar o pacto federativo, O PLP de Bolsonaro que propõe a redução da alíquota de ICMS sobre combustíveis tem um forte componente de irresponsabilidade social. A fixação de um teto para o ICMS pode significar perdas de cerca de R$ 20 bilhões para o Fundeb, de R$ 11 bilhões para o SUS e reduzir a receita de estados e municípios”, ressalta o partido, afirmando que a proposta é um “estelionato eleitoral”.

“O ressarcimento aos entes federados, se houver, será feito com outorga da Eletrobras e royalties da Petrobras, o que significa comprometer o patrimônio público com uma ação incerta, com duração apenas até o final do ano”, ressalta.

O QUE BOLSONARO DIZ: “Isso puxou o preço das coisas lá para baixo. Estamos no 3º mês de deflação. Abras diz que preço dos produtos no mercado caiu 20%”.

A VERDADE: As vendas nos supermercados subiram 2,67% em agosto na comparação com 2021, segundo últimos dados da Abras. Quanto aos preços praticados, a cesta de 35 itens está mais cara do que em 2021.

Os últimos dados de consumo dos lares apurado pela Abras (Associação Brasileira de Supermercados) mostram que, em agosto, as vendas do setor supermercadista em valores reais, deflacionadas pelo IPCA/IBGE, apresentaram alta de 6,12% na comparação com o mês imediatamente anterior (Jul/22) e alta de 7,23% em relação ao mesmo mês do ano de 2021 (Ago/21).

No acumulado do ano, as vendas apresentaram crescimento real de 2,67%, na comparação com o mesmo período do ano anterior.

Sobre os preços nos supermercados, dados divulgados pela Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) na primeira quinzena de outubro mostram que a queda no preço dos gêneros alimentícios no terceiro trimestre (de julho a setembro) deste ano foi de 9,89%

Com isso, o AbrasMercado – indicador que mede a variação de preços nos supermercados -registra a segunda deflação consecutiva, puxada por produtos básicos, como leite, óleo de soja, feijão e açúcar. Em agosto, queda de -2,61%, e em setembro, -1,71%.

O preço da cesta, na média nacional, passou de R$ 757,97 em agosto para R$ 745,03 em setembro. No gráfico abaixo, é possível verificar o histórico de variação do índice Abrasmercado entre agosto de 2021 e setembro de 2022.

O economista Eduardo Moreira também divulgou em suas redes sociais que a inflação dos alimentos é a maior até setembro desde o início do plano Real, em 1994. No acumulado de 12 meses, a alta de alimentação e bebidas é de 11,71%, segundo o IBGE.

https://twitter.com/eduardomoreira/status/1582756972864016384

O QUE BOLSONARO DIZ: “Temos uma das gasolinas mais baratas do mundo”

A VERDADE: Pelo menos 30 países possuem a gasolina mais barata do que o Brasil, segundo dados do site Global Petrol Prices, que monitora os preços do combustível em 168 países.

A gasolina brasileira não é a mais barata do mundo, mas também não é necessariamente a mais cara – e pelo menos 30 países cobram um preço menor do que o praticado no país.

Dados do site Global Petrol Prices, que monitora o preço de revenda da gasolina em 168 países, mostram que, no dia 24 de outubro, o litro do combustível brasileiro custava US$ 0,918.

O valor registrado é abaixo do cobrado em países como Argentina (US$ 1,005/litro) e Estados Unidos (US$ 1,062/litro), mas acima do visto em países como Rússia (US$ 0,840/litro), Equador (US$ 0,634/litro) e Bolívia (US$ 0,542-litro).

Os países que possuem o preço do combustível mais barato em dólares são justamente alguns dos grandes produtores da commodity: Venezuela (US$ 0,016/litro), Líbia (US$ 0,030/litro) e Irã (US$ 0,053/litro). Você pode acompanhar o preço internacional da gasolina clicando aqui.

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