As Fake News de Bolsonaro contra governos da Colômbia, Venezuela e Nicarágua

Victor Farinelli
Victor Farinelli é jornalista residente no Chile, corinthiano e pai de um adolescente, já escreveu para meios como Opera Mundi, Carta Capital, Brasil de Fato e Revista Fórum, além do Jornal GGN
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Bolsonaro acusa governos da região de "comunistas" e que as respectivas crises ocorreriam também no Brasil

Presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e vice Francia Marquez – Foto: Divulgação

As Fake News de Jair Bolsonaro contra Lula e o PT buscam atingir, também, outros países da América Latina, acusando governos da região de “comunistas” e que as respectivas crises políticas, sociais e econômicas são consequências de governos da esquerda. Ao disseminar essas informações distorcidas ou falsas, Bolsonaro insinua que o Brasil sob o governo de Lula seguiria os mesmos caminhos, ignorando os contextos locais.

O GGN traz a checagem destas Fake News:

Colômbia

O que Bolsonaro diz: “Gustavo Petro pediu descriminalização da cocaína.”

Os fatos: A informação é falsa. O presidente da Colômbia não pediu a descriminalização da cocaína. Petro propôs um debate mais amplo para a política de combate às drogas na Colômbia e no continente.

Gustavo Petro assumiu o governo da Colômbia em agosto de 2022. No mês seguinte, em sua primeira participação na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), ele falou no tema da Guerra contra a Drogas, não no sentido de defender específicamente a descriminalização da cocaína ou de qualquer outra droga, mas sim de defender um debate mundial sobre essa política, enfatizando as milhões de mortes e a guerra civil produzida em seu país devido a ela, situação que ele pretende terminar.

Suas palavras durante o discurso foram as seguintes: “Por ocultar a verdade, [sobre a guerra contra as drogas, os países] verão morrer a selva e as democracias. A guerra contra as drogas fracassou. Aumentado os consumos mortais, passaram das drogas suaves às mais pesadas, se produziu um genocídio no meu continente e no meu país, além de condenar milhões de pessoas à prisão. Para ocultar suas próprias culpas sociais, jogaram a culpa na selva e em suas plantas.”

Foto: Cia Pak / UN News

E continuou: “Quarenta anos já dura a guerra contra as drogas. Se não corrigirmos o rumo e ela se prolongar, os Estados Unidos verão 2,8 milhões jovens morrerem de overdose de fentanil, que não se produz na nossa América Latina. Verão milhões de afrodescendentes em suas cárceres privadas, o afro preso se transformando em negócio para essas empresas. Morrerão assassinados mais um milhão de latino-americanos; que derramarão seu sangue em nossas águas, em nossos campos verdes, e verão morrer o sonho da democracia, tanto na minha América como na América anglo-saxã.”

A Comissão da Verdade, criada na Colômbia em 2016 em função dos acordos de paz entre o governo desse país e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), durante a gestão do presidente Juan Manuel Santos, apresentou um informe que indica que a guerra contra o tráfico de drogas no país produziu mais de 450 mil mortes desde os anos 80 até meados da década passada, e que a maioria dessas vítimas eram civis sem ligação direta com o tráfico. Também se estima o número de desaparecidos em mais de 121 mil, além de cerca de 8 milhões de pessoas que tiveram que se deslocar de seus lugares de origem para fugir dos conflitos.

Venezuela

O que Bolsonaro diz: “Venezuela é o país mais rico em petróleo e vive abaixo da pobreza do Haiti. (…) Por que chegaram a esse ponto? Acreditaram nas mentiras, propostas mirabolantes:‘vou te dar carne e cerveja’.”

Os fatos: A crise econômica da Venezuela antecede o chavismo e Maduro. Hugo Chávez assumiu o país com um índice de crescimento negativo de 6%, segundo o Banco Mundial, e 54% de pobreza, segundo a CEPAL. Com Maduro, país foi alvo de sanções econômicas dos EUA.

A situação econômica e social da Venezuela é bastante complexa, o problema é quando Bolsonaro pergunta “por que chegaram a esse ponto?”, dando a entender que isso é um problema recente ou que foi o chavismo que gerou essa situação – esse relato é acompanhado por muitos falsos testemunhos de que o país vivia uma realidade melhor no final do século passado, e essa é a informação que precisa ser corrigida.

Hugo Chávez foi eleito em 1998, assumiu o poder no ano seguinte e se manteve até a sua morte, em 2013. Para entender o fenômeno que o levou à presidência e o sustentou durante 14 anos é preciso voltar 10 anos no tempo, no episódio chamada “Caracaço”: uma rebelião social espontânea provocada pela hiperinflação e disparada dos índices de desemprego e pobreza no final dos anos 80, durante o governo de Carlos Andrés Pérez. A pergunta de “por que um país rico em petróleo como a Venezuela tem índices altos de pobreza” já podia ser feita naquele período pré-Chávez, pois a imensa riqueza petroleira do país era de conhecimento mundial desde a primeira metade do Século XX.

O Caracaço levou o governo a colocar as forças armadas nas ruas, e em alguns momentos chegou-se inclusive a sitiar algumas favelas da capital venezuelana. A crise política e social se estendeu por anos, até que em 1992, em um dos momentos de pior situação econômica e na iminência de mais um sitiamento das favelas, um grupo de militares liderados pelo então comandante Hugo Chávez resolveu se rebelar e tentar um golpe de Estado. A iniciativa fracassou e Chávez foi preso, mas saiu do conflito como herói nacional, o que lhe valeu a vitória nas eleições, 6 anos depois, quando já estava livre.

Portanto, não é verdade que o chavismo assumiu um país em boa situação econômica e social.

Muito pelo contrário, há vários estudos que demonstram que em 1999, quando Chávez chega ao Palácio de Miraflores, os índices de pobreza eram muito piores que os atuais, apesar de alguma discrepância entre as cifras: o Banco Mundial, por exemplo, afirma que o governo chavista reduziu a a pobreza de 62,1% em 2003 para 31,9% em 2011, enquanto a CEPAL aponta que a pobreza na Venezuela estava em 54% (e a pobreza extrema em 23%) quando Chávez assumiu, em 1999, e esse número era de 31% (7% de extrema) em 2012, um ano antes da sua morte.

Também com relação ao crescimento do PIB, Chávez assumiu o país com um índice de crescimento negativo de 6%, segundo dados do Banco Mundial, e apesar dos altos e baixos durante a sua administração, chegou a produzir cifras de grande abundância, como os 18,3% de 2004 – seu melhor ano. Em 2012, seu último ano como presidente, o crescimento do PIB foi de 5,6%.

É verdade que esses índices socioeconômicos voltaram aos níveis próximos aos do pré-chavismo depois da morte do caudilho, e que não se pode ignorar a responsabilidade do seu sucessor, Nicolás Maduro, sobre essa situação, mas também deve-se levar em conta as sanções econômicas que o país passou a enfrentar desde o segundo mandato de Barack Obama nos Estados Unidos, o que dificultou bastante o comércio do petróleo, principal produto vendido pelo país. Esse é um problema que Maduro enfrenta e que esteve muito menos presente durante o mandato de Hugo Chávez. Além disso, também torna impertinente a comparação com o Haiti, país cujas mazelas políticas, sociais e econômicas são muito profundas, mas possuem um contexto muito diferente e ainda mais antigo que o do caso venezuelano.

Nicarágua

O que Bolsonaro diz: “Daniel Ortega está fechando canais de comunicação e perseguindo cristãos, prendendo padres e freiras. Lula o trata como amigo e que não podemos fazer nada.”

Os fatos: Daniel Ortega não fechou igrejas, mas emissoras de rádio ligadas a igrejas, alegando incitação a golpe.

Notadamente um governo autoritário, em agosto deste ano, Daniel Ortega – que preside a Nicarágua desde 2007 – fechou, não igrejas, mas emissoras de rádio ligadas à Igreja Católica.

Foram seis as emissoras obrigadas a encerrar suas transmissões: Rádio Hermanos, Rádio Nuestra Señora de Lourdes, Rádio Nuestra Señora de Fátima, Rádio Alliens, Rádio Monte Carmelo e Rádio San José. Todas elas tinham suas sedes em cidades da região Norte do país e sua programação era direcionada a essas comunidades.

Ortega defende a medida alegando que a Igreja Católica tem sido aliada da oposição desde os protestos vividos na Nicarágua em 2018, e que o governo considerou como uma tentativa de golpe de Estado.

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Victor Farinelli é jornalista residente no Chile, corinthiano e pai de um adolescente, já escreveu para meios como Opera Mundi, Carta Capital, Brasil de Fato e Revista Fórum, além do Jornal GGN

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