No dia 15 de julho, a Colômbia completa uma das reformas trabalhistas mais significativas da América do Sul recente: os trabalhadores assalariados do país passarão a ter uma jornada máxima de 42 horas semanais, fechando o ciclo de redução gradual de seis horas iniciado em 2021, quando a lei foi aprovada ainda no governo de direita de Iván Duque.
A mudança chega em um momento em que o Brasil debate sua própria reforma, a redução de 44 para 40 horas semanais, somada ao fim da escala 6×1. O modelo colombiano, no entanto, tem diferenças importantes: não impõe obrigatoriedade de dois dias de folga por semana e aposta em maior flexibilidade de horários como contrapartida.
Dois governos
A redução de jornada foi apenas uma peça do conjunto de mudanças que transformaram o mercado de trabalho colombiano nos últimos anos. Em 2025, já sob o governo de esquerda de Gustavo Petro, o país aprovou uma reforma trabalhista que elevou o salário mínimo em 23,7% e ampliou o período de incidência do adicional noturno, aumentando ainda mais os custos para os empregadores.
O setor empresarial reagiu. Levantamento da Fenalco (Federação Nacional de Comerciantes e Empresários), ouvindo 610 empresários em 25 cidades, revelou que 51% das empresas passaram a fechar mais cedo para reduzir operações noturnas, 25% aceleraram a automação de serviços e 23% repassaram custos ao consumidor com aumentos de preços. Setores como varejo, bares, restaurantes, hotelaria e vigilância privada foram os mais impactados.
A federação afirma ainda que 64% dos entrevistados reduziram o número de funcionários e 80% revisaram os planos de contratação. Dados preliminares de 2026 apontam para uma retração na abertura de novos negócios.
Mercado resiste
Apesar das queixas empresariais, os indicadores gerais do mercado de trabalho colombiano não sustentam um cenário de crise. A taxa de desemprego está na mínima histórica do país, e o emprego assalariado no setor privado segue em expansão há vários meses consecutivos.
“Não há dúvidas de que os custos unitários por trabalhador aumentaram. Mas o que observamos é que não houve efeitos negativos sobre o mercado de trabalho”, afirma Stefano Farné, economista e diretor do Observatório do Mercado de Trabalho e Seguridade Social da Universidade Externado, em Bogotá, à BBC Brasil.
Uma análise da Corficolombiana, uma das maiores corporações financeiras do país, estimou que cerca de 787 mil novos trabalhadores foram contratados entre 2022 e 2025 para compensar a diminuição das horas trabalhadas. A ressalva é que a produtividade por trabalhador caiu, já que o mesmo volume de trabalho passou a ser distribuído entre mais pessoas, tornando a economia, segundo a corporação, menos eficiente.
Flexibilidade
Para Farné, um dos fatores que evitou impactos mais severos foi a combinação da redução de jornada com maior flexibilidade. A lei colombiana permite que empresas e trabalhadores negociem compensações de horário, trabalhando mais em um dia e menos em outro, e o empregador passou a poder definir o dia de folga semanal do funcionário, sem preferência obrigatória por sábado ou domingo. Também foram eliminadas obrigações como o “dia da família” semestral e as duas horas semanais de atividades culturais em empresas de maior porte.
“A queda das horas de trabalho foi compensada por outras medidas de flexibilização. Por isso, não tivemos tantos efeitos negativos na economia”, diz o pesquisador.
Lições
A experiência colombiana traz pelo menos uma lição clara: a importância da gradualidade. Os cinco anos de transição permitiram que empresas ajustassem processos, redistribuíssem tarefas e absorvessem os novos custos sem demissões em massa.
O caso chileno reforça o argumento pela cautela: quando o país reduziu a jornada de 48 para 45 horas em 2005, estudos apontaram efeitos pequenos e marginais, sem criação nem destruição expressiva de vagas, mas com horas de trabalho melhor remuneradas.
*Com informações da BBC Brasil.
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