25 de agosto de 2026

Tre­asuries perdem status de ativo seguro à medida que mercado incorpora risco fiscal dos EUA

Estudo mostra que prêmio de segurança se deteriorou desde 2020, enquanto investidores passam a reagir diretamente a notícias sobre déficits e dívida
Foto de Karolina Grabowska via pexels.com

Estudo de Hanno Lustig aponta perda do status seguro dos Treasuries no sistema financeiro global.
Investidores privados substituem bancos centrais na compra de dívida dos EUA, aumentando sensibilidade a riscos fiscais.
Alta dos juros reflete reavaliação do risco fiscal, desafiando políticas que tratam Treasuries como ativos livres de risco.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Os títulos do Tesouro dos Estados Unidos, os Treasuries, estão perdendo parte do status de ativo seguro que sustentou sua posição privilegiada no sistema financeiro mundial. A avaliação é do economista Hanno Lustig, da Universidade Stanford, em estudo publicado pelo Aspen Economic Strategy Group e analisado pela Axios.

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A tese não significa que os Estados Unidos estejam diante de um risco iminente de calote. De acordo com análise elaborada pela Axios, O argumento é que os investidores passaram a incorporar mais diretamente os riscos fiscais do país ao preço da dívida pública, reduzindo o chamado convenience yield: o prêmio que historicamente aceitavam pagar para manter um ativo considerado especialmente seguro, líquido e confiável.

Segundo Lustig, quatro mudanças ajudam a explicar esse processo.

A primeira é a perda do prêmio dos Treasuries em relação a títulos de outros países desenvolvidos e a ativos corporativos de alta qualidade. Entre 2017 e 2025, a vantagem histórica dos títulos norte-americanos sobre papéis soberanos de outros países do G10 chegou a desaparecer. No período, a diferença média foi de -18 pontos-base para títulos de cinco anos e -22 pontos-base para os de dez anos, indicando que investidores passaram, em determinados momentos, a exigir remuneração maior para manter Treasuries.

A segunda mudança está na relação entre ações e títulos públicos. Tradicionalmente, os Treasuries funcionavam como proteção em momentos de crise: investidores deixavam ações e outros ativos de risco e compravam títulos do governo dos EUA. Essa relação se rompeu nos últimos anos. Desde 2022, ações e Treasuries passaram a apresentar com frequência movimentos na mesma direção.

O comportamento também apareceu durante episódios de estresse. Em março de 2020, por exemplo, durante o choque inicial da pandemia, o rendimento do Treasury de dez anos chegou a subir 68 pontos-base em oito pregões, em vez de cair como seria esperado em uma tradicional fuga para ativos seguros.

Investidores estrangeiros e risco fiscal

A terceira mudança está na composição dos compradores de dívida norte-americana. O estoque de Treasuries nas mãos de estrangeiros cresceu de cerca de US$ 1 trilhão em 2000 para US$ 9,3 trilhões em 2025. Mas os bancos centrais perderam participação relativa.

A parcela dos Treasuries estrangeiros mantida por autoridades monetárias caiu de aproximadamente 72% em 2010 para 42% no final de 2025. Isso significa maior participação de investidores privados, mais preocupados com retorno e risco do que com a necessidade de manter reservas internacionais.

O quarto sinal é a maior sensibilidade dos títulos às notícias fiscais. Segundo Lustig, antes da pandemia, anúncios relacionados à deterioração das contas públicas tinham impacto limitado sobre os rendimentos dos Treasuries. Depois de 2020, notícias negativas sobre déficits passaram a provocar maior alta dos juros dos títulos e redução de seus preços.

Essa mudança ocorre em um momento de forte deterioração das contas públicas. A projeção fiscal utilizada no estudo, baseada no cenário do Congressional Budget Office, aponta déficits próximos de 6% a 7% do PIB nas próximas décadas, enquanto a dívida federal em poder do público poderia chegar a cerca de 190% do PIB em 2056.

Para Lustig, o mercado já estaria reagindo a esse cenário de maneira diferente das autoridades econômicas. Investidores passaram a trabalhar, na prática, com um modelo em que a dívida norte-americana carrega risco fiscal. Fed e reguladores, entretanto, ainda adotariam regras e modelos baseados na ideia de que os Treasuries são essencialmente livres de risco.

A divergência ajuda a explicar a preocupação do economista com intervenções destinadas a conter altas nos rendimentos. Se o aumento dos juros for tratado apenas como um problema técnico do mercado, o governo pode tentar restabelecer a demanda pelos títulos. Mas, se os rendimentos estiverem subindo porque investidores estão efetivamente reavaliando o risco fiscal dos Estados Unidos, essas intervenções podem apenas esconder o sinal enviado pelo mercado.

A questão ganhou atualidade diante da recente alta dos rendimentos dos Treasuries de longo prazo. Como informou a Axios, o Departamento do Tesouro anunciou uma recompra de US$ 4 bilhões em títulos de longo prazo em resposta à elevação das taxas. O estudo de Lustig, publicado em 20 de agosto, havia sido preparado antes do anúncio.

O alerta central, portanto, não é sobre uma crise imediata da dívida norte-americana. É sobre a erosão gradual de uma vantagem que os Estados Unidos desfrutaram por décadas: a capacidade de financiar déficits gigantescos contando com a disposição dos investidores de aceitar retornos menores em troca da segurança atribuída aos Treasuries.

Se essa percepção continuar mudando, o governo norte-americano poderá precisar oferecer juros cada vez maiores para atrair compradores. E, com déficits anuais na casa dos trilhões de dólares, o custo dessa mudança de percepção pode se tornar um problema fiscal por si só.

Leia abaixo a íntegra do estudo elaborado pelo economista Hanno Lustig.

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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