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Recife e Olinda e a luta contra a camarotização do carnaval, por Erika Porciúncula

O frevo cantado por Caetano Veloso  (Um Frevo Novo), clamava … “A praça Castro Alves é do povo …” , mas será que ainda é? Uma parte dela estará ocupada no carnaval deste ano pelo Camarote Ilê Eva, para privilegiar aqueles que podem usufruir de “…mirante em 2 andares, Massoterapia, Estética Afro, Posto Médico, Praça de Alimentação, Transfer da Ladeira da Montanha acima e abaixo para facilitar o acesso do folião. Tudo isso num ambiente temático com decoração baseada nas raízes afro de influência do Camarote.”  

 A decoração pode ser baseada em raízes afro, mas os foliões que conseguem ter acesso a todo esse luxo não parecem ter raízes tão afro assim, é o que constataram aqueles que frequentaram esse camarote no ano passado. Sinceramente, qual o prazer que se tem em ficar ali no tal “mirante”, que mais parece uma arquibancada de voyers? Será que podemos chamar de folião quem gosta de vivenciar o carnaval assim?

O famoso Sambódromo do Rio, uma infraestrutura construída com recursos públicos, viabilizava na década de 80 um projeto de industrialização do carnaval, através de fábricas que operam o ano inteiro para poderem promover essa grande festa que vemos no Rio de Janeiro. Todo esse “negócio” da indústria do carnaval do Rio está associado à concessão que a Rede Globo detém para transmitir com exclusividade os desfiles das escolas de samba.  Tudo lindo em termos de espetáculo, não há o que questionar. Para quem gosta desse tipo de espetáculo. Por outro lado, o carnaval de rua continua resistindo no Rio de Janeiro, espero que ocupe todas as praças.

Algo assim também vem acontecendo no Recife. O Marco Zero da cidade, um point do carnaval de rua, parece que está virando um “frevódromo”, uma vez que uma antiga praça de alimentação apoiada pela Abrasel e aberta ao público, está dando lugar a inúmeros camarotes privados.

No entanto, no Recife e em Olinda, a sociedade, ou seus movimentos sociais de caráter cultural e urbanístico, parecem ter acordado para impedir a “camarotização” de sua festa. Eles vêm lutando para que os espaços públicos sejam devolvidos ao povo, todo o povo, simples ou abastado, mas desde que queiram ocupar a rua com sua alegria, seus passos e suas fantasias. 

Neste ano, por exemplo, os movimentos sociais conquistaram uma importante vitória. Conseguiram devolver para o carnaval de rua do Recife, para o folião pé no chão, um importante espaço público da cidade, até então tomado por um gigante camarote carnavalesco privado da Rede Globo. Este local é a Praça da Independência, mais conhecida como pracinha do Diário, porque fica exatamente defronte da antiga sede o Diário de Pernambuco, o jornal mais antigo em circulação na América Latina. Ou seja, um local ícone da cidade, palco de milhares de manifestações políticas e de antológicas mobilizações pelas liberdades e pela democracia.

Entre um carnaval e outro, a praça vivia no abandono, tomada pelo lixo, sem iluminação pública e sem segurança. O espaço ganhava atenção apenas no período momesco, quando a Rede Globo montava ali o seu camarote vip, onde recebia seus artistas, além de políticos e empresários locais.

Desde que a Globo anunciou que não mais montará camarote no carnaval do Recife, a Prefeitura de apressou em avisar que no local funcionará o QG do Frevo no carnaval deste ano. Vamos esperar o cumprimento desta promessa. Aliás, quem vai cobrar o compromisso do prefeito é o movimento Direitos Urbanos e o Projeto Som na Rural, do agitador cultural Roger de Renor. Foram eles que lideraram o movimento para devolver a Pracinha do Diário para o povo e retirar dali o camarote da Globo.

Eu gostaria de entender melhor essa tendência de camarotização do carnaval sem ter que buscar uma explicação separatista entre ricos e pobres, entre povo e burguesia. Mas, infelizmente, não encontro. Deparo-me sempre com esse antagonismo social que evidencia um “apartheid” tupiniquim.

Lembro da época em que os “high society” se encontravam em tradicionais clubes da cidade para poder “brincar” seu carnaval sem “se misturar” com o povo. Em algum momento, essa elite percebeu que o povo que pulava na rua se divertia melhor fora dos espaços confinados dos clubes. Assim, os carnavais de clube se acabaram, e os “high society” decidiram ir para as ruas do Recife e de Olinda. No entanto, continuavam sem querer se misturar com esse povo que se vestia de fantasias improvisadas, pulavam até suar, uns colados aos outros, e ainda ficavam nas ruas sem acesso a banheiros públicos e tendo que enfrentar a insegurança que todo o cidadão está sujeito. Não, a elite não pode se misturar a esse suor, a essa situação limite de falta de infra-estrutura, mas também não quer se isolar nos clubes. Queriam estar perto da festa popular, que é a verdadeira folia do carnaval. 

Só restou então aos socialites e às celebridades recorrerem às prefeituras e aos governos para, com o patrocínio de empresas privadas, criar os camarotes, seus “clubes exclusivos” dentro da folia popular.  

Mas o povo pernambucano está mostrando que não quer mais ver camarotes nos seus espaços públicos. E a elite que pretende conhecer o carnaval do Recife e de Olinda precisa sair dos camarotes e descer, literalmente, do salto, calçar um sapato confortável e vir para as ruas para sentir “…a embriaguez do frevo/ Que entra na cabeça, depois toma o corpo e acaba no pé.”   

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