Mitos sobre as cadeias globais de valor, por David Kupfer

Jornal GGN – Em artigo publicado no Valor, David Kupfer, professor da UFRJ, fala sobre os mitos relacionados às Cadeias Globais de Valor. Para ele, é equivocado afirmar que as CGV são uma ruptura com os padrões de comércio anteriores, quanda na verdade são “apenas mais uma volta no parafuso de um modelo de divisão internacional do trabalho em construção desde o final da década de 1970”. Ele diz que tal modelo surge em resposta às pressões competitivas trazidas pela crise de então, e que as Cadeias Globais podem ser consideradas uma evolução das cadeias de suprimento (supply chain). Leia mais abaixo: 

Do Valor

 
David Kupfer
 
De tempos em tempos, surgem alguns novos conceitos que, tão rapidamente quanto ganham destaque, dão margem à criação de uma mitologia quase sempre fundamentada em simplificações grosseiras, quando não em graves equívocos. A “entrada do Brasil nas Cadeias Globais de Valor (CGV)”, o tema que está na ordem do dia do debate sobre indústria, longe de constituir exceção, infelizmente é parte da regra.
 
Um primeiro mito, sempre alardeado, é de que as CGV correspondem a uma ruptura com os padrões de comércio anteriores. Nada mais equivocado. As CGV são apenas mais uma volta no parafuso de um modelo de divisão internacional do trabalho em construção desde o final da década de 1970. Esse modelo surgiu quando, em resposta às pressões competitivas trazidas pelo quadro de crise da época, o sistema de empresas multinacionais, até então organizado em torno de um esquema matriz-­filial altamente verticalizado, jogou-­se no caminho da transnacionalização cum outsourcing. Nesse sentido, as CGV podem ser consideradas apenas uma evolução incremental das cadeias de suprimento (supply chain), cujos modelos de gestão, introduzidos pioneiramente pela indústria têxtil nessa época, rapidamente se difundiram pelos demais ramos de atividade industrial, especialmente, naqueles conectados a lojas de departamento e ao grande varejo em geral. As CGV preservam a principal ruptura que veio com as cadeias de suprimento que foi a substituição dos produtos pelas tarefas e, por via de consequência, do mercado (dos primeiros) pelos contrato (das segundas). A explosão das tecnologias de informação que ocorreu de lá para cá ampliou exponencialmente as possibilidades de fragmentação produtiva, mas não modificou esse traço fundamental. Em boa parte devido às características do grande varejo brasileiro de então, a indústria brasileira pouco participou das cadeias de suprimento e essa é uma importante razão pela qual igualmente pouco participa das CGV na atualidade.

 
Um segundo mito é de que as CGV tenham tornado a geografia pouco importante. Ao contrário, a geografia é cada vez mais decisiva. Não fosse assim, as CGV não seriam regionais, como de fato são, nem tampouco os elementos territoriais, naturais e construídos, exerceriam papel tão crucial na sua montagem como de fato exercem. Distância dos eixos logísticos, custos e qualidade da infraestrutura local, financiamento, presença de externalidades de conhecimento, ambientes favoráveis de negócios são, todos eles, atributos que dificilmente podem ser mobilizados sem uma decisiva participação dos Estados nacionais. Aqui reside a principal distinção entre as velhas cadeias de suprimento e as CGV: enquanto as cadeias de suprimento surgiam mais como resultado de estratégias empresariais, nas CGV os Estados nacionais exercem papel muito mais ativo. É bem possível afirmar que CGV são cadeias de suprimento potencializadas por uma economia política pactuada bi ou plurilateralmente pelos países envolvidos.
 

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