Três migrantes latino-americanos deportados pelos Estados Unidos para a Libéria relataram ao jornal espanhol EL PAÍS que foram enviados ao país africano sem aviso prévio e permaneceram algemados durante toda a viagem, que durou cerca de 15 horas. A reportagem, publicada nesta segunda-feira (7) pela jornalista Graziana Solano, revela as condições enfrentadas pelos deportados e os questionamentos sobre a política migratória do governo de Donald Trump.
Um dos entrevistados, identificado como C., é um venezuelano de 36 anos que vivia havia cinco anos nos Estados Unidos, onde trabalhava legalmente. Ele afirma que só descobriu que seria deportado para a África poucas horas antes do voo, ao ver seu nome em uma lista de passageiros. Segundo o relato, não teve tempo para recorrer judicialmente nem para se despedir da família.
C. deixou a Venezuela em 2021, alegando perseguição política. Nos Estados Unidos, havia obtido autorização temporária de residência, renovada anualmente, que lhe permitia trabalhar. Ainda assim, acabou detido pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) durante um procedimento de rotina.
O voo que levou C. e outros deportados partiu de Alexandria, no estado da Louisiana, em 19 de agosto. Eles foram enviados para a Libéria, na África Ocidental, em um acordo firmado pelo governo americano com o país africano.
Segundo o EL PAÍS, esse foi o primeiro grupo de um contingente de aproximadamente 1.200 pessoas que a Libéria aceitou receber ao longo de um ano. Os deportados eram provenientes de países da América Latina, do Caribe e da África Subsaariana.
Algemados durante 15 horas
Outro venezuelano, identificado como A., afirmou que tentou resistir ao embarque. Segundo ele, um agente do ICE teria dito que poderia ser colocado à força no avião caso não colaborasse.
“Todos começamos a chorar”, relatou. De acordo com A., os passageiros permaneceram algemados pelas mãos e pelos pés durante todo o voo, que durou aproximadamente 15 horas.
A. também afirmou que passou meses em centros de detenção e sofreu crises de ansiedade e depressão. Antes da deportação, disse ter alertado as autoridades americanas de que não poderia ser enviado de volta à Venezuela por temer perseguição política.
A deportação teve consequências para sua família. Segundo o relato ao jornal espanhol, sua filha está fazendo terapia e o filho mais velho cogita abandonar a escola para trabalhar e ajudar financeiramente a família.
“Estão destruindo famílias inteiras”, afirmou.
Sem vínculos com a Libéria
Os deportados que permaneceram na Libéria foram levados para um hotel em Marshall, cidade costeira localizada a cerca de 50 quilômetros de Monróvia, a capital. Eles permanecem no local sem uma definição clara sobre quando poderão deixar o país ou qual será seu destino.
Dos 20 migrantes que chegaram inicialmente à Libéria, seis se recusaram a desembarcar do avião. Segundo a reportagem, eles foram posteriormente enviados para Malabo, capital da Guiné Equatorial. Entre eles estava um cubano com problemas de saúde decorrentes de uma hérnia abdominal.
O hondurenho W., de 40 anos, também deportado para a Libéria, afirmou que recebe assistência para tratar sua diabetes. Ele disse que funcionários da Organização Internacional para as Migrações (OIM) visitam diariamente o grupo.
Apesar de relatar boas condições no hotel, W. afirmou que não se sente seguro fora do local e evita se afastar mais de alguns metros da entrada por medo de agressões ou roubos.
Acordos sob questionamento
A transferência de migrantes para países terceiros faz parte da política de deportações implementada pela administração Trump. Segundo o EL PAÍS, desde janeiro de 2025 os Estados Unidos deportaram mais de 23 mil migrantes para 26 países, incluindo cerca de 300 pessoas para 14 países africanos, por meio de acordos bilaterais.
Um primeiro acordo entre Estados Unidos e Libéria, firmado em setembro de 2025, é alvo de contestação judicial no processo UT contra Bondi, relacionado aos chamados Acordos de Cooperação de Asilo. A legislação americana determina que solicitantes de asilo só podem ser enviados para um terceiro país considerado seguro e que disponha de um sistema de asilo adequado.
A Human Rights First, entretanto, afirma que a Libéria não possui capacidade suficiente para processar pedidos de asilo. Para Savi Arvey, diretora de Políticas e Direitos de Refugiados e Imigrantes da organização, existe o risco de que os deportados permaneçam em um limbo jurídico ou sejam novamente enviados para países dos quais fugiram.
“Isso levanta uma séria preocupação de que esses refugiados fiquem em um limbo indefinido ou sejam submetidos a uma devolução em cadeia”, afirmou Arvey ao EL PAÍS.
Ajuda financeira e falta de transparência
Os acordos também levantam questionamentos sobre os interesses econômicos envolvidos. Segundo relatório divulgado em fevereiro por parlamentares democratas do Comitê de Relações Exteriores do Senado dos Estados Unidos, o governo Trump já gastou mais de US$ 40 milhões para estabelecer acordos de deportação com países terceiros.
No caso da Libéria, Washington anunciou diferentes iniciativas de cooperação econômica. Entre elas estão investimentos no setor de saúde e acordos relacionados à infraestrutura e ao transporte de minério de ferro.
Uma investigação do New York Times, citada pelo EL PAÍS, também apontou que o Departamento de Estado americano teria destinado US$ 5 milhões ao governo liberiano para administrar cidadãos de terceiros países enviados pelos Estados Unidos. O governo da Libéria havia anteriormente negado receber pagamento e afirmado que o acordo tinha caráter exclusivamente humanitário.
Para organizações de direitos humanos, a combinação de deportações para países sem vínculo com os migrantes, falta de transparência e incentivos econômicos torna a política especialmente preocupante.
Os relatos dos deportados revelam, além das incertezas jurídicas, o impacto humano da estratégia. Separação familiar, medo, problemas psicológicos e ausência de perspectivas sobre o futuro passaram a fazer parte da rotina de pessoas que, até pouco tempo atrás, viviam nos Estados Unidos.
O caso da Libéria se tornou, assim, um dos exemplos mais controversos da política de deportações para terceiros países adotada pelo governo Trump.
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